Gonzalo Bènard

Com um particular interesse pela cultura grega clássica, que desde sempre o influenciou, Gonzalo Bènard parte um dia para o Tibete, onde, num mosteiro escola de pintura e filosofia, «esvazia a taça» o quanto pode e aprende a simplicidade do traço e da cor. A simbologia da vida num conceito minimalista. A essência...

Com um particular interesse pela cultura grega clássica, que desde sempre o influenciou, GONZALO BÈNARD parte um dia para o Tibete, onde, num mosteiro escola de pintura e filosofia, «esvazia a taça» o quanto pode e aprende a simplicidade do traço e da cor. A simbologia da vida num conceito minimalista. A essência. A cor plena num traço fluido.

Aliando o seu sémen às suas cores – identificando-se, renascendo-se, reciclando-se – traz-nos na pintura a tranquilidade, o humor, a sensibilidade que lhe é característica. Traz-nos e pinta-nos uma auto-sinceridade que vive, consciente do mundo, feliz e sarcástico. Na sua pintura deixa sempre um entre-linhas. Ou um entre-traços. Desfruta de si mesmo, como desfruta da pintura. Do desenho. Do cheiro da madeira, do toque da pele, do calor dos corpos, do frio do vidro. Da sexualidade.

Do pleno do homem, sob pele de madeira, à transparência das linhas, que jogam com as próprias sombras do eu. Ou do corpo. No corpo. Para o corpo. Físico. Mental. Sensível. Sexual.

A pintura de GONZALO BÈNARD por vezes inquieta na sua tranquilidade. Aquece no seu sangue. Ilumina no seu açafrão. Dá-nos base no seu mar. Traz-nos o nú do homem. Sem pudor. Sem capas. Porque o homem tem nariz e tem pénis e tem mãos e tem pés. Porque o homem pensa e ama e caminha. Porque o homem é o todo, sem tirar partes. Porque é assim que nasce, do sémen. Do seu. Do meu.

Janela Urbana: Em três palavras, define o teu trabalho…
Gonzalo Bènard: Pele. Prazer. Intimista.

Consideras-te um artista inovador? Porquê?
Creio que sim, embora haja sempre um processo interior que tem como base todo um processo paralelo de vivência física, educacional, cultural, social, etc. Em termos de materiais e de forma representacional, também há sempre vestígios de obras de autores vários: uns que conheci depois de me terem chamado a atenção, outros que fui conhecendo ao longo da vida. No entanto, a minha forma de representar é muito honesta comigo mesmo. Muito simbólica, já que tenho vivências pouco comuns, como por exemplo o facto de ter vivido e estudado no Tibete, num mosteiro escola de pintura e filosofia, que me deu algum conhecimento (técnicas e filosofia) oriental. Cada artista tem o seu próprio percurso de vida, eu tive um diferente dos outros, por isso bebo de fontes diferentes. E como nem toda a água sabe ao mesmo… nem tem as mesmas características, é possível que se veja ou sinta algo já visto e algo por ver.

És a verdadeira definição de “artista plástico”. Misturas vários tipos de arte, conjugando materiais, cores… técnicas. Qual a base da tua inspiração?
Começa pela minha família que, em três ou quatro gerações, tenho ascendentes dos vários países da Europa e de várias raízes culturais. Um avô francês, por exemplo, conceituado gravador, ou um avô alemão, conceituado músico. Um pai heraldista, que me transmitiu o gosto pela simbologia. Estudei o típico clássico grego, aliado a vários mestres particulares de escultura, pintura, desenho, etc. O gosto pela madeira natural, pelos sentidos. O facto de ter estudado num colégio de Jesuítas… e também o facto de ser Budista, naturista, etc.
Como vês, vou alimentar-me de muitos elementos, embora o corpo tenha muito peso, e a tentação de romper tabus ou a necessidade de o fazer, como factor de auto-sinceridade. Para mim, um nariz faz tanta parte do corpo como um pénis. E isso incomoda o tabu criado. Quanto a materiais tento usar o material que mais se adequa ao que quero transmitir. Talvez a minha maior inspiração, seja o homem no seu renascimento interno. A descoberta… de si mesmo.

O que pretendes transmitir com as tuas obras?
Quando me começaram a comprar por investimento, coleccionadores europeus, bancos, empresas, etc., fez-me um bocado de confusão, porque estava habituado a vender a quem tinha gosto pela minha pintura. Depois habituei-me a isso. Mas tenho todo o tipo de clientes, de 20 a 80 anos, de todas as classes sociais e culturais.
O que tento transmitir é muito impulsivo. Pinto por prazer e por impulso, por isso vou transmitindo sensações diferentes. Geralmente os meus clientes dizem que a minha pintura transmite muita paz, tem boa energia. Mas também há quem tenha alucinações com elas, como ainda esta semana me contaram. Isso tem uma razão, já que apesar de ser uma pintura de muitas linhas e poucas sombras, trabalho com muita simbologia, alguma dela camuflada. É comum ouvir clientes que passados meses descobrem mais elementos. E mais… e vão olhando e vão percebendo mais da pintura.
O facto de retratar em muitas obras uma juventude andrógina pouco comum, também tem um sentido de transmitir o puro, o corpo sem perversão, o idílico. Os meus corpos não são sexuais, são corpos com movimento, expressão, personalidade.

Misturar sémen às cores não é algo… habitual… explica-nos…
A historia do sémen… veio do título “as 3 cores do sémen” que dei à última exposição. Tenho trabalhado muito sobre o renascimento interior. O sémen (semente) é a origem da vida e é branco. Mas para o homem ser Homem, necessita de mais cor. E aqui entram mais simbologias: o azul, que representa a sociedade, o entorno; o encarnado que representa o físico, o corpo, cor de sangue; o amarelo/ouro que representa o universo espiritual. Sem estes três universos o homem… nunca chega a ser Homem. Por isso, “as 3 cores do sémen”, para se poder renascer na totalidade. Também tem a ver com o facto de eu ser muito visceral, muito impulsivo a trabalhar, a criar. E o sémen vem em momentos de prazer… como a pintura para mim. Fisica e mental.

Como é o processo criativo? Como concebes uma obra? Como começa tudo?
Toda a minha obra tem um sequência lógica. Começou com os rituais, os deuses, o renascimento, e agora trabalho sobre a vida. Tenho trabalhado muito com modelos vivos, não estáticos. Gente normal, com inquietudes. Gente que gosta de fazer parte de um processo criativo. Tudo começa pelo tema. Dou um sub-tema ao modelo e ele recria numa coreografia lenta. Ou seja, eu dou o tópico, ele transmite-me.
Repito isso com vários modelos para uma colecção. Não repito modelos porque cada um tem alguma coisa distinta a partilhar comigo. A partir dos esboços, vão surgindo ideias de concepção de um quadro. Não é só pintar o corpo. Tem a ver com o que quero transmitir. A composição estética do quadro. Os materiais. O “fabrico da cor”. O desenho das linhas.

E como termina tudo?
Quando dou por terminado um quadro, levo-o para outro espaço. Só passado dois ou três dias o vou visitar e ver como resultou. Que transmite ele, que quis eu transmitir ao pintá-lo e que me transmite ele.
A obra termina assim, comigo a tentar entendê-lo. Depois vem a parte que já não faz parte, que é outro processo… mostrá-lo ao publico e vendê-lo.

Quando se dá por terminado um quadro… e anos depois vais vê-lo a casa de um cliente… e sentes que lhe faltava alguma coisa? que afinal não estava terminado…
Terminas quando sentes que é o momento, que ficas feliz com ele na altura. Mais tarde talvez tenhas mais informação que não tinhas… e por isso sentes necessidade de acrescentar alguma coisa mais. Mas já nao tem a ver…

Quais as dificuldades maiores de todo o processo de ser artista?
Creio que o artista actual, já não pode ser aquele que só pinta. Tem que ser multifacetado, desde o pintar, ao saber construir um website, o ser bom em marketing e ser coerente em tudo isso.
Sou muito lutador e não sou capaz de estar parado, gosto de trabalhar e dá-me um prazer imenso o meu trabalho. No entanto tenho mais dificuldade, por exemplo, na parte do marketing.
Isto em termos pessoais, porque é sempre complicado vender-se a si mesmo. No entanto, a maior dificuldade é vencer a barreira dos lobbies portugueses, dos apadrinhados que, como sabes, Portugal é mestre.
As galerias que representam Portugal são sempre as mesma cinco desde sempre. Os artistas que representam Portugal são sempre os mesmos cinco. Os comissários também. E se não és amigo de algum deles, algum dos cinco galeristas,
dos cinco críticos que são os mesmos comissários… estas fucked-up!! Acabo por vender muito mais no estrangeiro que em Portugal. Mas isso também faz parte da mentalidade pequena portuguesa: que o que se faz lá fora é melhor que o que se faz cá dentro.
Exemplo vivo disso… é o facto de desde que estou a viver em Barcelona… vendo mais em Portugal…

Onde podemos encontrar a próxima exposição de Gonzalo Bènard?
A próxima inaugura dia 1 de Abril e fica visível até dia 6 de Maio, na Galeria Alberto Sarmento, em Lisboa. Tem como título “Pastís de Poma”, em catalão, já que vivo em Barcelona, e quer dizer “tarte de maça”. É sobre o conceito do pecado, as tentações, as virtudes e os venenos. O doce prazer, a doce tentação. A doce maçã…Para maiores de 18 anos…

Onde podemos adquirir uma obra tua?
Em Lisboa, estou representado pela Galeria Alberto Sarmento. Noutras cidades tenho mais galerias que me representam, mas acabo por vender muito também através do meu site. Tenho vendido pelo site a coleccionadores de todo o mundo. O ano passado veio um coleccionador de Buenos Aires aqui a Barcelona comprar-me um quadro que viu no website.
Por isso, podem comprar directamente pelo site ou através de galerias. Mas convém sempre ir pela página, para se ter uma primeira ideia ou um primeiro contacto. Aí tem tudo o que é necessário: contactos, etc.

Em três palavras, define o artista Gonzalo Bènard.
Impulsivo. Honesto. Inquieto.

www.gbenard.com

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