Mourah

Para um artesão de som que tem por hábito trabalhar sozinho, como é o caso do Mourah, o facto de interagir com vários elementos de uma cadeia tão complexa como na criação de um disco é sem dúvida uma forma intensa de aprender inúmeras coisas sobre a profissão, entre outras saber fazer concessões entre o que se tem...

Para um artesão de som que tem por hábito trabalhar sozinho, como é o caso do MOURAH, o facto de interagir com vários elementos de uma cadeia tão complexa como na criação de um disco – os músicos, os engenheiros e técnicos de som, os produtores e representantes da editora que tornam o projecto possível – é sem dúvida uma forma intensa de aprender inúmeras coisas sobre a profissão, entre outras saber fazer concessões entre o que se tem em mente e o que pode ser concretamente concebido e como podem ser remediadas num próximo projecto; ou de tomar consciência de um aspecto tão óbvio como facilmente esquecido: a música existe através das pessoas, é feita por elas , e é destinadas a elas. E chegamos aqui à mensagem fulcral deste disco, como o indica explicitamente o título, “From one human being to another”.

Como que se aproximasse da tão desejada e mítica eternidade, a transcendência comum ao processo criativo, a subsequente procura de deixar uma marca para a posteridade, nunca deixando de ser humano, com as suas fraquezas e dúvidas, com um historial de vida próprio e o relato de uma emotividade circunstancial. É esse aspecto que vai personalizar em definitivo uma obra , a mensagem transmitida.

“From one human being to another”, onde o Mourah assume o cargo de autor, compositor e interprete, não foi imaginado à volta dum conceito ou linha directriz. Nasce assim uma colectânea de 11 temas , que foi sendo composto nos últimos três anos. Várias perspectivas e estilos são abordados, com temas instrumentais, cantados, sobe ritmos de trip-hop, break beat, drum’n’bass e até dub. A plástica sonora aqui não se apresenta homogénea, se uns soam acústicos, outros deslizam alegremente para o mundo da sequência rítmica e da onda electrónica.

Destaca-se toda a forma de criação artística: a obra de arte como forma de expressão do criador.

Hugo Moura (a.k.a. Mourah) nasce a 31 de Agosto de 1978 em Cascais, arredores de Lisboa, e até aos 5 anos vive com a sua mãe e irmão na tranquila e simpática cidade ribatejana de Almeirim. Por esta altura fazia-se sentir a euforia da liberdade do povo português, período pós revolução que terminou com o regime ditatorial de 50 anos, inúmeras pessoas e famílias encontraram na emigração uma forma de lutar por um futuro mais confortável. Quando Mourah tem apenas 3 anos (1981) o seu pai deixa o país nessa busca de algo melhor e é dois anos depois que a família se reúne novamente em Genebra e iniciam uma nova etapa de suas vidas.

Desde novo MOURAH nutre uma paixão muito grande pela música, pois esta foi a sua grande companheira de infância junto da qual cresceu. Durante a sua infância MOURAH passava muitas horas em casa, acompanhado de Jazz e música clássica, cujos pais muito apreciavam e lhe dão a conhecer desde cedo.

Começa a frequentar os coros da escola aos 8 anos e aos 12 aprende a base do solfejo e de seguida dedica-se a aprender guitarra. As influências musicais do seu irmão mais velho são determinantes contribuindo para a sua cultura musical, estamos nos anos 80 e este dá a conhecer a MOURAH grandes músicos como Prince, Massive Attack, Eurythmics entre outros.

Contudo, aos 15 anos, perde o irmão e o rumo da sua vida muda drástica e inesperadamente. O sofrimento causado pela perda, aliado ao facto de ser ainda um adolescente, dão uma nova visão ao músico. Com uma maturidade imposta pelas circunstâncias descobre que a vida só faz sentido e vale a pena ser vivida se se lutar pelos sonhos.

Embora com um desempenho notável enquanto estudante, as actividades musicais começam gradualmente a ganhar peso e importância. Nessa altura forma uma banda funk, “Anticlockwise”, que teria uma participação assídua nas aulas de Jazz no liceu, praticando as técnicas vocais que evoluem de uma forma notável e onde desenvolve as suas primeiras composições a solo.

A necessidade de mudança impera e MOURAH ruma a Londres em busca de -nova ideias onde permanece um ano tocando de improviso nos mais loucos e diversos clubes underground locais com músicos de diferentes origens e estilos, enriquecendo duma forma única e substancial a sua visão e percepção do universo musical.

Aos 23 anos reúne alguns dos melhores temas da sua autoria, dando corpo a uma compilação de originais seus e envia para várias editoras na Europa, com vista a realizar então o seu sonho e tentar conseguir fazer valer a sua dedicação e empenho no seu projecto musical.

A Zona Musica acredita no projecto de MOURAH e após o manifesto interesse propõe-lhe um contrato para 3 trabalhos/discos ao qual o músico aceita, confiante do seu trabalho. Afinal de contas a realização do seu sonho, após o período embrionário, estava então a dois passos de nascer.

A música é então uma prioridade na sua vida e MOURAH decide fazer uma pausa nos estudos para regressar a Portugal e dedicar-se a tempo inteiro à gravação do seu álbum de estreia intitulado “From One Human Being to Another”. Estamos em 2002, ano fulcral no arranque da sua carreira musical.

MOURAH é marcado por um destino de emoções devastadoras originadas por perdas de pessoas de importância vital na sua vida. Em Novembro de 2001 o seu pai vem a falecer num acidente de viação, altura em que no limiar do seu equilíbrio psicológico e emocional desperta, juntamente com a sua mãe, duma forma brutal para uma nova realidade em que ultrapassar a perda duma pessoa tão amada se tornava necessária por forma a ambos conseguirem continuar a lutar pela vida. Entre deixarem de ter um sentido para a vida e levantarem-se firmemente e reaprenderem a apreciar a vida, a última teve de ser imperativa, e assim iniciam novamente um novo ciclo de suas vidas.

Neste processo a música teve um papel fundamental para MOURAH. Embora o momento não fosse, à partida, o melhor para gravar o disco como planeado, provavelmente foi a tábua de salvação num cenário que poderia tê-lo arrastado para um sério esgotamento psicológico obrigando-o a lutar e a acreditar no mundo.

Era indiscutivelmente uma tarefa dura, mas essencial, que o ajudou seguramente a encontrar um rumo dando-lhe a energia necessária, a inspiração e o mais importante de tudo: a fé na vida.

www.mourah.no.sapo.pt

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