As ruínas de Detroit

Apresento-vos Detroit, ou melhor, as suas ruínas através da fotografia de Yves Marchand e Romain Meffre. Este trabalho é resultante da colaboração entre os dois fotógrafos franceses, iniciado em 2005.

Apresento-vos Detroit, ou melhor, as suas ruínas através da fotografia de Yves Marchand e Romain Meffre. Este trabalho é resultante da colaboração entre os dois fotógrafos franceses, iniciado em 2005. Aconselho vivamente a visitarem o site dos mais entusiastas do mundo urbano e da arquitectura que com certeza ficarão impressionados.

As ruínas são elementos simbólicos, marcos da nossa sociedade e das suas mudanças, são pequenos pedaços de história em suspensão. O estado de ruína é basicamente uma situação temporária que acaba por acontecer quer queiramos quer não, é o resultado volátil da mudança de uma era e da queda de um império. Este conceito de abandono e ruína aprendi-o muito cedo, quando era ainda uma criança. Apercebi-me que a casa onde morava a minha avó, após esta falecer, estava-se transformando aos poucos num local vazio, sem utilização e sem vida. Por sorte ou não, a minha família conseguiu vendê-la e desta forma, mesmo sendo um pouco triste, salvá-la por mais uns anos deste incontornável fim. Esta fragilidade, que só o passar do tempo permite, faz-nos reflectir um pouco sobre a permanência das coisas e sobre o quanto efémero é o seu estado.

No final do século XIX a humanidade estava prestes a realizar um sonho antigo. A ideia de uma rápida e autónoma forma de deslocação estava lentamente a transformar-se numa realidade para os engenheiros de todo o mundo. Graças à localização avantajada da cidade de Detroit, estávamos prestes a presenciar uma verdadeira revolução industrial. Engenheiros visionários e empreendedores correram para as suas imediações de forma a poder participar neste próspero acontecimento. É de frisar que Henry Ford, produziu aqui a sua primeira linha de automóveis em massa. Milhares e milhares de imigrantes de todo o país transferiram-se para Detroit à procura de um trabalho. Nos anos 50 a população tinha atingido um número superior aos dois milhões de habitantes, fazendo com que Detroit se transformasse numa das quatro maiores cidades nos Estados Unidos.

No entanto, com a assunção do automóvel as pessoas movem-se muito mais rapidamente. Ruas, auto-estradas e parques de estacionamento começaram a redesenhar a cidade. Os complexos industriais transferiram-se para a periferia de Detroit e por sua vez a classe média que tinha vindo para trabalhar começou a abandonar o centro da cidade mudando-se para as cidades suburbanas. A partir de 1967 começa-se a assistir a um êxodo acelerado e bairros inteiros começaram a desaparecer. Ao fim de cinco anos Detroit perde mais de metade da sua população.

Detroit como capital industrial do século XXI teve um papel muito importante na modelação do mundo moderno, no entanto, a mesma lógica que criou a cidade também a destruiu. Hoje em dia, diferindo neste aspecto de todo o mundo, estas ruínas existem em harmonia com o resto da cidade. Tornaram-se uma componente natural da paisagem urbana. Detroit apresenta todos os arquétipos de edifícios que representam uma cidade americana em estado de mumificação. Os seus esplêndidos mas decadentes monumentos não são menos que as Pirâmides no Egipto, o Coliseu em Roma ou a Acrópole em Atenas, reminiscências da passagem de grandes impérios.

www.marchandmeffre.com

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