Hilary Alexander

Em Itália, por ocasião da 10ª edição do International Talent Support, tivemos a oportunidade de conhecer e entrevista Hilary Alexander, a jornalista e editora de moda do The Daily Telegraph que recentemente foi galardoada pelo prémio de media nos CFDA Awards. Neozelandesa, iniciou a sua carreira como jornalista de moda quando recebeu uma oportunidade de trabalho em Hong Kong, e desde então, ninguém a parou. Actualmente, Hilary é uma importante referência de opinião na área.

Fotografia: Aria di Foto di Lisa Pacor

Em Itália, por ocasião da 10ª edição do International Talent Support, tivemos a oportunidade de conhecer e entrevistar Hilary Alexander, a jornalista e editora de moda do The Daily Telegraph que recentemente foi galardoada pelo prémio de media nos CFDA Awards. Neozelandesa, iniciou a sua carreira como jornalista de moda quando recebeu uma oportunidade de trabalho em Hong Kong, e desde então, ninguém a parou. Actualmente, Hilary é uma importante referência de opinião na área.

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Quando é que se apercebeu que queria trabalhar com a industria da moda? Quando tinha 20 anos. Estudei jornalismo na Nova Zelândia, jornalismo de informação, mas nunca me ocorreu escrever sobre moda, porque naquela época os jornais não tinham rubricas dedicadas à área. Só quando fui trabalhar para Hong Kong é que me ofereceram o meu primeiro trabalho como jornalista de moda.

E teve receio por ter de escrever sobre moda? Adoro roupa e encarei o tema “moda” como se estivesse a escrever sobre qualquer outro tipo de notícia. O trabalho de um jornalista é sempre sobre dar resposta às perguntas “quem?”, “o quê?”, “como?”, “quando?” e “porquê?”. Não, não tive receio algum. Gostei das pessoas e da ideia de trabalhar com um meio criativo. Além disso, no universo da moda, Hong Kong era um sítio muito interessante para estar.

Mas nessa época ainda não imaginava que a sua carreira fosse desenvolver-se no universo da moda? De todo!

Arrependimentos…? Não, tive e tenho uma excelente carreira. Acredito que a moda é uma das indústrias mais estimulantes do mundo. É cheia de surpresas, emoções, trabalho árduo; mas eu adoro as pessoas, adoro as roupas, adoro jóias… Adoro conhecer diferentes culturas… Tudo o que a moda envolve é extraordinário.

Provavelmente também tem de relembrar constantemente às pessoas qual a importância da moda. Para si valorizar e relembrar a importância da moda é um trabalho constante? Que a moda é de alguma forma parte da nossa vida? Sim, claro. Digo muitas vezes às pessoas mais cépticas: tens de usar roupa, a não ser que queiras ser um nudista. Logo, a roupa já é uma preocupação constante na nossa vida, porque já pensas no que vais vestir assim que acordas de manhã. Que saia vou vestir? Que gravata vou usar? Isso é moda!

Hilary, desafiámos alguns dos seguidores da Janela Urbana fazerem-lhe algumas perguntas. Seleccionei algumas das que nos foram enviadas: O fenómeno dos fashion bloggers e a sua ascensão enquanto importantes trend setters e influenciadores impulsionaram uma mudança de paradigma nos fashion media mais tradicionais? Penso que (o fenómeno) é só mais uma nova forma de comunicar e faz parte da explosão digital. Há 25 anos atrás não tínhamos entrevistas em vídeo, nem Youtube, Twiter ou Facebook. Acredito que todas estas ferramentas são parte de uma ciber-revolução muito mais abrangente…

Também é bloggerNão literalmente… Eu escrevo cónicas, escrevo sobre o que faço, sobre os eventos em que participo, sobre pessoas ou histórias em torno do universo da moda… Mas não considero uma blogger, uma “twitterer” talvez… tenho actualmente cerca 185.000 seguidores no meu Twitter e uso muito esta ferramenta! O telemóvel está sempre a dar-me as notificações!

Admito que somos seguidores, apesar de não usarmos muito o Twitter! Mas diga-me… este fenómeno reflectiu-se no seu trabalho enquanto directora de moda de um jornal como o The Daily Telegraph? Se sim, em que aspectos? Um pouco… acho que o Sartorialist é provavelmente o blog mais influente e continua a sê-lo, porque está efectivamente informado. Contudo, grande parte dos blogs que existem têm conteúdos fracos… são feitos por pessoas que não sabem muito sobre moda… cometem inclusive erros ortográficos, nem sequer sabem escrever o nome dos designers 

Que conselho daria a um aspirante a jornalista de moda? Acho que o melhor conselho é ser rigoroso. Além disso, ser apaixonado pelo que faz e escrever o máximo que conseguir para poder desenvolver a sua própria voz. É também importante ter um sentido de humor latente e estar atento ao sarcasmo. É muito, muito, muito fácil ser-se desagradável e criticar, o grande desafio é louvar e dar significado.

Então acredita que o humor e o sarcasmo bem doseados são importantes? Sim, claro! Sempre com cuidado e lembrar-se constantemente que quando se avalia um desfile de moda é necessário colocar de lado os nossos gostos pessoais, concentrar-se no design e, fundamental, ter a consciência de que o que estamos a olhar representa o trabalho dos últimos seis meses da vida de uma pessoa… E não podemos destruí-lo apenas porque não gostámos da cadeira que nos deram.

Ir às compras é um acto cada vez mais social, mesmo quando os consumidores não estão ao lado uns dos outros para darem as suas opiniões. Como é que vê as lojas de roupa (e outras) do futuro próximo em termos de interactividade com as redes sociais? Acredito que mais e mais lojas estão a interagir com os seus clientes através de um tipo de revistas online. A Asos faz isso, a Net-a-Porter, a Topshop… A Net-a-Porter tem inclusive um sistema que permite perceber o que é que as pessoas realmente gostam, quase como se colocassem o seu cartão de identidade na máquina. Acho que está tendência é crescente, especialmente com as compras online. Acho que as pessoas gostam da ideia de ter alguém a comentar as suas compras ou de receber notícias actualizadas sobre a disponibilidade de cores e tamanhos das peças que mais gostam. Saber mais informações sobre os designers, a sua biografia… Tornar todo o processo mais personalizado. Todos os sites de venda online têm um motor de busca que permite procurar virtualmente tudo o que precisa: calças de seda, leggings rosa, mocassins… O que lhe passar pela cabeça! É um processo que poupa imenso tempo e aumenta as possibilidades de escolha: descobrir que aquele produto é ou não é o que queremos e, se não, passamos para outro item.

Cada vez é mais difícil satisfazer clientes exigentes que apreciam novidades, exotismo, autenticidade, qualidade e experiências únicas. O consumo passará inevitavelmente pela criação e satisfação de nichos cada vez mais especializados em produtos únicos? Sim, os nichos de mercado são estratégicos e têm uma importância crescente (na industria da moda), porque hão de sempre existir pessoas que querem o produto mais exclusivo, mais inovador, mais artesanal… Acho que todo o conceito de “artesanato”, “feito à mão”, “artes e ofícios”, irá tornar-se uma grande tendência, especialmente no mercado de luxo. Hoje é tudo feito por máquinas e computadores, que o apelo de alguma coisa que teve origem na mão humana torna-se supremo. Acho que é por isso que tantos especialistas em moda se estão a concentrar no artesanato e nas artes e ofícios. É isso que o Karl Lagerfeld fez na sua colecção Métier D’Arts, porque ele juntou cinco ou seis empresas que produzem materiais artesanais para as suas colecções e para preservar as técnicas. Todos os anos ele organiza um desfile focado nos materiais artesanais, porque tem a consciência que se estas técnicas não forem preservadas, elas perdem-se.

…Estava a pensar, é um pensamento aleatório, mas adequa-se à nossa conversa. Ouvi nas notícias há alguns dias atrás, que actualmente existem trinta escolas nos EUA que não ensinam a escrever à mão… só no teclado. É assustador!

Quem é, na sua opinião, o maior ícone de estilo da actualidade? …Estou inclinada para dizer Karl Lagerfeld. Definitivamente! Porque não é só na moda, ele influencia tudo: desenha latas de Coca-Cola, relógios… publica livros, lança filmes… até desenha capacetes para motas, com o pormenor de terem um compartimento onde podemos encaixar o iPod e com cores incríveis, claro! Ele é surpreendente. Todo o trabalho que ele fez com a imagem da Chanel é extraordinário e começou a dar frutos no espaço de dois ou três anos… Quanto mais se lê sobre a Coco Chanel mais se percebe que ela era uma visionária – ela foi a primeira mulher a usar calças em público, a criar um perfume com o seu nome, inventou o protector solar… O Karl superou o seu legado. Temos de lhe dar esse domínio.

E o Karl ganha! (risos) Obrigado Hilary!

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