As capas de Coralie

Das páginas de um livro infantil, onde a mãe descobriu o seu nome invulgar, ao design de edições emblemáticas para a Penguin Books, a história da designer Coralie Bickford-Smith confunde-se com a sua paixão pelos livros e pela literatura. Perfeccionista, minuciosa e emocional, as capas de Coralie ascendem a ícones do design e elevam o livro a objecto de desejo, numa época em que a sua utilidade é questionada pelos kindles, e-books e downloads gratuitos.
[wide][/wide]

Das páginas de um livro infantil, onde a mãe descobriu o seu nome invulgar, ao design de edições emblemáticas para a Penguin Books, a história da designer Coralie Bickford-Smith confunde-se com a sua paixão pelos livros e pela literatura. Perfeccionista, minuciosa e emocional, as capas de Coralie ascendem a ícones do design e elevam o livro a objecto de desejo, numa época em que a sua utilidade é questionada pelos kindles, e-books e downloads gratuitos.

Série F. Scott Fitzgerald

Coralie Bickford-Smith é designer sénior na Penguin Books, editora onde cria “embalagens bonitas” para histórias que, tal como o próprio objecto livro, resistiram à passagem do tempo. Os grandes clássicos da literatura são enriquecidos pela linguagem desta designer que reinterpreta e torna contemporâneos o imaginário e a simbologia clássica. A Janela Urbana marcou encontro com Coralie no BÁ Studio, o espaço que acolhe em Lisboa a sua primeira exposição individual, comissariada por Luís Royal e associada à temática da bienal EXD’11 – Useless.

Janela Urbana: Olá Coralie, bem-vinda a Lisboa! Partindo das palavras do Luís Royal que apresenta o livro como objecto central desta exposição, onde explora o tema “Useless” numa época em que aparentemente o livro se torna “inútil” face ao kindle e aos e-books, como defines o teu trabalho: procuras salvar o objecto livro da extinção ou tentas dar-lhe nova vida enquanto objecto de design?
Coralie Bickford-Smith: É uma questão interessante… Sempre fui obcecada por livrarias vitorianas e sobre como os livros passam de geração em geração – são realmente amados e preservados… Quando comecei a trabalhar na Penguin (há dez anos atrás) muitos dos livros eram atirados ao lixo, porque eram baratos e apenas uma forma rápida de obter informação. Quis seguir um caminho diferente e criar objectos lindos, livros que fossem desejados pelas pessoas. A minha primeira colecção foram os contos de fadas do Hans Christian Andersen, em 2005, uma edição de capa dura que continua à venda até hoje. Normalmente as edições de capa dura mantêm-se no mercado durante um ano e depois são substituídas pelas edições de capa mole. Foi assim que começaram a perceber que o meu trabalho acrescentava valor ao livro.

Na era do kindle o mercado livreiro está dividido, temos belíssimas edições premium de capa dura, que de facto salvam o livro da extinção, e as pessoas continuam a ter os seus e-book e kindle’s. Nos clássicos, faço muitas edições de obras clássicas, sempre pensei em como fazer um trabalho que valorizasse o livro e que as pessoas quisessem comprar, em vez de obtê-lo de forma gratuita. É embalar a literatura de uma forma bonita, é encontrar pormenores na história e realça-los para envolver o leitor e proporcionar-lhe uma nova experiência do livro. Valorizá-lo e fazer com que as pessoas voltem a apaixonar-se pela página impressa. Por isso sim, tento salvar os livros… gosto da palavra “extinção” (risos). Quero mesmo fazer livros que sejam desejados, preservados e amados… e assim introduzir o público na literatura.

Foi uma agradável surpresa descobrir que muitos dos trabalhos da Pinguin que já tinham despertado a minha atenção eram da mesma designer. O Luís Royal comentou que quando estava a preparar esta exposição muitos dos seus amigos designers já conheciam o teu nome e o teu trabalho era para eles uma grande fonte de inspiração. Achas que seria possível teres desenvolvido este trabalho e construído um portefólio tão representativo fora da Penguin Books?
A Penguin permitiu-me fazer imenso e não acredito que teria sido possível de outra forma. A Penguin é uma editora, sobretudo no nosso departamento, que está sempre a estimular a criatividade. O meu director de arte – Jim Stoddart, vê a paixão das pessoas e está disposto a criar oportunidades para podermos desenvolver novos projectos e colocar os nossos trabalhos cá fora. Por isso penso que o meu trabalho nunca teria tido tanta projecção, nem chegaria a tantos lugares se não fosse através da Penguin. A Penguin é história, as pessoas respeitam e amam o trabalho desta editora. Sim, sem dúvida, a Penguin é uma grande parte do meu trabalho.

Consegues criar todas estas colecções magníficas e dão-te espaço para tal. Imagino que é muito gratificante trabalhar numa editora que dá tanta liberdade criativa.
Sim, sem dúvida. O Jim Stoddart, é o melhor director de arte com quem já tive a oportunidade de trabalhar, dirige-nos de uma forma muito calma e carinhosa, é como se fosse a minha própria boca, que luta pelos meus designs junto do director geral. O processo criativo é extraordinário e torna-me muito emocional (risos) em relação aos conceitos que crio e à forma como idealizo a concretização de cada projecto. Para defendê-los é preciso ser-se duro e prático, que é o que o Jim consegue fazer. Ouço muitas vezes as reuniões onde ele está a defender as minhas ideias de forma calma e clara… (risos) É por isso que lhe sou tão grata… É uma dinâmica de trabalho óptima! Em Inglaterra existem a Penguin Press e a Penguin General, a Penguin Press (onde trabalho) é mais pequena e tenho a sorte de estar num departamento onde me dão ouvidos…

O bom ambiente de trabalho também é importante?
Sim, muito. Antes de trabalhar na Penguin era designer freelance e sentia a falta de ter pessoas com quem falar e trocar ideias. Somos quatro designers e dois editores, o que é óptimo! Posso sempre dizer: “Ahhhh, estou bloqueada!” Sentar-me com os colegas, trocar ideias sobre o meu trabalho e sobre os projectos que têm em mãos, fazer brainstorm e assim ajudamo-nos uns aos outros… Mas sou conhecida como a perfeccionista (risos).

Série dos Clássicos / Penguin Books

De facto o perfeccionismo é uma das características mais marcantes do teu trabalho, nos detalhes, pormenores… Em que é que te inspiras para criar os teus projectos? Achas fundamental conhecer o autor e a sua obra? São estas as tuas principais fontes de inspiração?
Sim, tento ler todos os livros, é claro que não consigo. Da colecção dos clássicos já os li quase todos, sinto que tenho de ter confiança no projecto, perceber quem era o autor, em que período é que escreveu a obra e qual o seu cenário, como exemplo a iconografia própria de cada época… Visito regularmente o Victoria and Albert Museum em Londres para fazer pesquisa, por isso a colecção dos clássicos tem muitos símbolos vitorianos e do século XIX, estou lá sempre a tentar descobrir novas inspirações, têm muitos objectos curiosos, lindos pormenores de decoração… Ganho imenso através da pesquisa.

É óptimo teres a oportunidade de fazer pesquisa para os teus projectos…
Esse é outro dos aspectos, no meu departamento não tenho de estar sempre amarrada à secretária, posso sair e pesquisar… Quando começo um projecto fico sempre assustada e nervosa, penso se serei capaz de fazer justiça à obra que tenho em mãos. Gosto de sair do escritório e iniciar o meu próprio processo criativo. Existe uma zona de livrarias em Charing Cross, em Londres, onde ando muito e acabo sempre numa cave cheia de mofo a pensar “o que é que vou fazer!?” e de repente há um livro que me desperta a atenção… É como se o livro me encontrasse…

“Everlasting Syllabub and the Art of Craving” de Hannah Glasse, da série Great Food

Com a colecção Great Food estava muito assustada, tinha de fazer uma série de vinte livros, estava impaciente e queria encontrar uma forma fresca e nova de apresentar o tema. Andava há vários dias a percorrer as livrarias de Charing Cross até que encontrei uma onde havia um livro sobre história da cerâmica. Na contra capa apresentava formas lindas, que relacionavam cada tipo de cerâmica ao país onde era produzida e em cada asa das chávenas ou dos vasos haviam inscrições semelhantes a uma data… Achei o design fantástico e foi perfeito como inspiração para a colecção Great Food.

Além da Great Food qual foi até agora o projecto mais desafiante que tiveste em mãos?
O mais difícil foi sem dúvida o Great Food. Neste momento estou a trabalhar num outro que é ainda mais ambicioso e exigente, mas não posso revelar pormenores… (risos). Cada vez que inicio um projecto espero fazer melhor, por isso penso que cada projecto é sempre mais difícil de concretizar do que o anterior, porque a minha exigência aumenta. Ainda estou a crescer como designer e o meu trabalho torna-se cada vez mais difícil e difícil…

O Great Food foi o projecto mais desafiante e qual é o teu favorito?
As séries “Clothbound” (encadernação a tecido), sem dúvida! Trabalhei nestas séries numa época em que as pessoas questionavam a existência dos livros, estavam a substituí-los por kindles e a fazer download de livros gratuitos na internet… Eu estava a criar uma colecção sobre a qual não havia qualquer expectativa de retorno comercial, mas concretizei um projecto que teve uma aceitação surpreendente por parte do público, o que permitiu que o meu trabalho fosse mais respeitado…

Tem em conta o tempo e a exigência que dedicas aos teus projectos, não te preocupa que o design possa assumir um protagonismo superior à própria obra?
Não acredito que o design possa suplantar a obra literária. O meu prazer reside em criar um objecto que promove o autor e a sua obra, tudo o que posso fazer é expor a minha imaginação na capa para fazer chegar boa literatura a cada vez mais pessoas. Não acredito que o meu trabalho ofusque a obra, sem literatura eu não poderia fazer o que faço. Adoro literatura e o facto de criar colecções que fazem as pessoas desejar ter essas obras.

O teu trabalho é então uma forma de casamento entre a obra do autor e o design?
Claro que sim, é como o design de informação devia ser. É óptimo poder criar uma embalagem linda para um produto literário que já é por si só incrível e que perdurou no tempo… Li recentemente o Frankenstein, que foi escrito pela Mary Shelley quando tinha apenas 18 anos (risos), é extraordinário!

Muitos dos seguidores da Janela Urbana são pessoas ligadas às áreas criativas e ao design, que conselhos dás a um jovem que queira ou esteja a iniciar carreira nestas áreas?
Que siga os seus sonhos! Tive um caminho duro para chegar onde estou, ninguém na minha família acreditava que eu poderia fazer carreira como designer. Tive de autonomizar-me, fazer um percurso sozinha e enfrentar muitos medos: “não vou conseguir”, “não sou boa o suficiente”, “isto nunca vai acontecer”… O que posso dizer aos designers que estão a começar é que sejam fortes e continuem a trabalhar, independentemente das barreiras que surjam, porque não será fácil. Sejam apaixonados pelo que fazem, sejam persistentes, porque só assim é possível!

Coralie, o que é que as pessoas vão encontrar na tua exposição?
Livros! (risos)

Destaco, as colecções “Gothic Horror”, “Great Food”, algumas edições individuais como “Fairy Tales” e “Penguin Poems for Life”… é uma exposição bastante abrangente do meu trabalho.

Coralie, foi um prazer estar contigo, espero que consigas sempre superar as tuas expectativas, nós agradecemos, e quem sabe esta tua primeira visita a Lisboa possa vir a inspirar projectos futuros…
Obrigada. Estou a adorar Lisboa e achei os azulejos que revestem os edifícios fantásticos!

Deixa-nos o teu comentário: