Fazer Filmes

Podíamos ter feito um editorial com modelos, mas achámos mais interessante convidar o João Botelho e a Ana Moreira, dois ícones do cinema português, para serem nossos modelos por um dia. A conversa que tivemos com eles vai mudar para sempre a maneira como vemos cinema e o Cinema. Texto: Mariana Afreixo; Fotografia: Gonçalo Claro; Styling: Simonne Doret assisida por Tatiana Serôdio; Make-up/ Hair: António Carreteiro

Ele é realizador, faz cinema há mais de 30 anos e recentemente descobriu uma boa maneira de levar os portugueses a ver os seus filmes. Ela é actriz e é uma das protagonistas do tão falado Tabu de Miguel Gomes, onde interpreta o papel de “Aurora”. Os dois encontraram-se em A Corte do Norte e Filme do Desassossego.

Podíamos ter feito um editorial com modelos, mas achámos mais interessante convidar o João Botelho e a Ana Moreira, dois ícones do cinema português, para serem nossos modelos por um dia. A conversa que tivemos com eles vai mudar para sempre a maneira como vemos cinema e o Cinema.

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Texto: Mariana Afreixo
Fotografia: Gonçalo Claro
Styling: Simonne Doret assisida por Tatiana Serôdio
Make Up / Hair: António Carreteiro

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Ana Moreira - T-shirt American Vintage, boné e calças com tachas, ambos na Bowtie, óculos Partyglasses; João Botelho - Jeans Diesel, sweat Converse, boné G-Star, óculos Partyglasses.
Ana Moreira – T-shirt American Vintage, boné e calças com tachas, ambos na Bowtie, óculos Partyglasses; João Botelho – Jeans Diesel, sweat Converse, boné G-Star, óculos Partyglasses.

A Ana entrou em dois filmes do João. Como aconteceu trabalharem um com o outro e como foi essa experiência?

João Botelho (JB): Conhecia a Ana dos filmes da Teresa Villaverde, quando ela despontou para o cinema – e muito bem, porque fez grandes filmes. Adorei vê-la n’ Os Mutantes e aconteceu depois precisar de uma pessoa com a generosidade e capacidade artística dela para fazer A Corte do Norte.

Ana Moreira (AM): Lembro-me da a primeira vez que abordei o João. Ele estava muito descansado no Príncipe Real, a ler o seu jornal, e eu fui de propósito incomodar a sua rotina matinal de tranquilidade. Perguntei-lhe se me podia sentar ao seu lado a tomar café e o João ficou…como é que ficaste?

JB: Sei lá…(risos)

AM: Disseste qualquer coisa, tomamos café e depois deixaste-me o teu jornal para eu ler. Foi simpático!

Editorial: Fazer Filmes
Camisola em malha de seda Patrizia Pepe, calças em cetim Nuno Baltazar, sapatos Miguel Vieira, pulseira em plexiglas com cristais Swarovski, colar caveiras e anéis, todas as peças Bowtie.

Agora que quebrámos o gelo, vamos lá pôr o dedo na ferida. Há uma ideia generalizada que o Cinema Português é chato, incompreensível e dirigido a uma elite. De onde surgiu este preconceito?

JB: Dos intermediários. Das pessoas que escrevem sobre cinema, que têm o desejo de um cinema que não é o que se faz cá. São pessoas que acham que o cinema é o cinema americano e o cinema não é o cinema americano. É muita coisa. São centenas de modos de fazer filmes. Há pessoas limitadas que acham que o cinema são histórias. Não são. São modos de contar. Nunca é o que se passa nem como se passa, é como se filma. O modo de filmar português é diferente dos outros. Nós, se calhar, damos mais importância ao vento que bate numa árvore do que a uma cena de cama. À composição mais do que à acção, à luz e às sombras mais do que à montagem. Somos pessoas da poesia, não somos da prosa. É um modo de filmar, como há o modo de filmar iraniano, como há o modo de filmar africano ou o francês. São coisas diferentes. O cinema americano é dominante. Neste momento, é um cinema que não me interessa absolutamente nada. É um cinema para adolescentes, são histórias de cacaracá com muitos efeitos e os nossos tentam resistir ao tempo. Não tenho vergonha nenhuma de um filme que fiz há 30 anos. Quando uma pessoa vê um quadro, tem de demorar a vê-lo, não pode ver em 10 segundos e hoje o cinema é consumível como os hambúrgueres e as batatas fritas.

AM: Acho que são juízos e preconceitos que existem e continuam a insistir em existir. Não interessa se é cinema português, se é cinema japonês. O cinema português lá fora é tratado de igual para igual. É cinema, ponto final. Não há fronteiras. E, sim, também faz parte de uma indústria, mesmo que o nosso cinema seja mais ligado à poesia, tal como disse o João, ou tenha uma maneira diferente de se fazer, é cinema. Lá fora, somos tratados de maneira igual e em Portugal ainda há preconceitos antiquíssimos do tipo “o som é mau”.

Editorial: Fazer Filmes
Ana Moreira – Camisola em malha de seda Patrizia Pepe, calças em cetim Nuno Baltazar, pulseira em plexiglas com cristais Swarovski, pulseira pantera em strass, colar caveiras e anel com 3 caveiras, todas as peças Bowtie.

Se tivessem que fazer um pitch do Cinema Português, como o fariam e que atributos lhe dariam?

JB: Há muitos anos, éramos donos de metade do Mundo e fomos uma grande potencia, apesar de sermos muito pequeninos. Gosto muito de uma frase do D.João II: “misturem-se com os nativos”. Como éramos poucos, não tínhamos capacidade de ocupar os territórios. Portanto, os espanhóis dizimaram os “selvagens” das terras que iam descobrindo e os portugueses faziam filhos. Fomos perdendo tudo ao longo do tempo, ficando reduzidos um mar em frente, do qual já não tínhamos nada. Então, dedicamo-nos à poesia. Adoramos estar sentados num café, a olhar, sem fazer nada. Portanto o nosso cinema é de contemplação, não é de acção. É um cinema de composição, de luz e sombras. O cinema, para mim, são luzes e sombras e seres humanos aflitos a saír da sombra para a luz. Tivemos uma vantagem: o cinema em Portugal nunca foi rentável: mesmo as comédias dos anos 30 e 40 davam prejuízo, ao contrário do que se pensa. Foi sempre um cinema muito precário, muito pouco apoiado, mas com uma grandeza que não tem par. Como não temos a ideia de fazer dinheiro, temos a ideia de resistir e de fazer coisas que ninguém faz. São filmes que resistem ao tempo e que podem ser vistos 30, 40, 50 anos depois, como vemos uma pintura, ouvimos música ou lemos romances.

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Ana Moreira – T-shirt American Vintage, boné Bowtie e óculos Partyglasses; João Botelho – camisa Carolina Herrera, boné G-Star e óculos Partyglasses.
Editorial: Fazer Filmes
Ana Moreira – vestido em seda Diesel, botas da produção

Para o Filme do Desassossego, o João Botelho criou um conceito novo de distribuição, exibindo o filme em cine-teatros por todo o país, com uma apresentação e um debate final. A que níveis é que isso foi compensador?

JB: Foi compensador porque deixei de ter filmes onde se come e bebe. Deixei de ter barulho nas salas: toda a gente desligava os telemóveis, como quem vai ao teatro ou à ópera. Devolvi uma certa dignidade ao cinema. Lembro-me que no Porto, no Cine-Teatro S.João, havia pessoas que já não iam ao cinema há dez anos e voltaram a ir. No Cine-Teatro São João não havia cinema há quarenta anos. Passei o filme no S.Carlos, no CCB, em grandes salas. Foi como fazer uma estreia em cada cidade. De tarde fazia uma sessão para os miúdos das escolas e dava uma aula de cinema – não falava do “Desassossego”, falava de cinema – e à noite falava do “Desassossego” para os pais. Era uma celebração do cinema. É evidente que “sai do pêlo”. É preciso fazer a volta a Portugal, como o Marco Paulo, em tournée. Foi muito engraçado e fiz muitos espectadores, seis vezes mais do que tinha feito com A Corte do Norte. A ideia de cinema não se compadece com barulho. Tem que se estar com os ouvidos e o coração atentos.

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João Botelho – Blusão Zegna Sport, boné G-Star, óculos Partyglasses, jeans Diesel e ténis Converse + DC Comics

O que vai, então, acontecer ao cinema português? Vão começar a fazer-se filmes “à americana”, o cinema português como ele é vai desaparecer ou está a surgir um novo publico para ele?

JB: O cinema português não desaparecerá. Vai ser, se calhar, mais precário e ainda mais difícil de fazer. Lembro-me que, há trinta e tal anos, quando concorri para o primeiro filme, havia 16 pessoas para 8 lugares. Hoje em dia, aparecem 500 para dois lugares, ou seja, é cada vez mais difícil, mais precário, mais duro, mas é um cinema que vai resistir sempre. Nunca poderemos fazer filmes “à Americana”. Aconselho todas as pessoas que queiram fazer filmes “à americana” a emigrar para a América. Há uma data de europeus, belgas, holandeses, franceses, ingleses que vão para os estúdios americanos e isso não tem mal nenhum. É uma indústria. O nosso cinema não é uma indústria, é um mercado artesanal, diferente e isso vai resistir sempre. Daqui a 200 anos, toda a gente vai ver o Amor de Perdição do Sr. Manoel de Oliveira como uma obra prima. Esse tipo de coisas vai resistir como resiste a pintura e a música, quando são boas. Quando são “consumíveis”, desaparecem.

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João Botelho – blaser e cartola em denim G-Star Raw, lenço Hermès, calças Diesel, ténis Converse + DC Comics e óculos Partyglasses

JURB: O que faz de um filme seu “um filme do João Botelho”?

JB: É o modo de filmar, o modo onde ponho a câmara. Quando era puto, ia assistir às filmagens do Manoel de Oliveira e e ele dizia “para cada situação, uma posição, um ponto de vista” e eu pensei “oh diabo, filmar debaixo ou de cima, com a mesma pessoa a dizer o mesmo texto, se calhar é igual”, mas não é…

AM: Pois não, estás a tomar decisões ali.

JB: É o ponto de vista de cada um. Se cada um de nós pegar na mesma história, criam-se filmes diferentes. É o modo de filmar, onde se põe a câmara, desde a maquilhagem à câmara, é o gusto de uma pessoa, é o ponto de vista de uma pessoa. A Madame Bovary é um exemplo fantástico disso. O Flaubert disse “Madame Bovary sou eu” e é verdade. Foi ele que a inventou, não existe, mas eu já conheço três obras primas a partir da Madame Bovary: uma do Buñuel, outra do Renoir e até o Oliveira fez a “Bovarinha do Douro”, que é o Vale Abraão. Da mesma história podem fazer-se milhares de filmes.

O que é vos faz fazer cinema?

JB: Oh…não sabemos fazer mais nada!

AM: Exacto…

E o que vos inspira, no trabalho diferente que cada um tem?

JB: A Ana ajuda-me muito. Mesmo que eu seja um chato e um picuínhas, quando ela inventa uma coisa, eu quero-a. Se ela inventa uma coisa que é melhor do que o que eu sei, é dela, mas eu roubo-lha. Sou vampiro. Quando  lhe digo “olha mais para a direita que tens melhor luz” , “soletra desta maneira” ou “faz uma pausa ali” ela também o faz, e pronto. Ajudamo-nos um ao outro como a nós mesmos.

Que realizador internacional mais se aproxima com a sua maneira de ver cinema?

JB: Gosto dos “ascetas”, ou seja, todas as pessoas da minha “família”, que filmam com poucos meios e tentam filmar milagres, com planos secos, fixos…mas o cineasta que eu prefiro chama-se John Ford e é americano…(risos)

Que projectos se seguem?

JB: Eu vou fazer “Os Maias”, se me deixarem! Quer dizer, já ganhei o concurso, mas dizem-me que só haverá dinheiro em finais de 2013 ou princípio de 2014, portanto não sei, mas sei que vou fazer “Os Maias”. Acho que é um texto maravilhoso e é uma matéria que me interessa. Acho o Carlos da Maia um “nhonhó”, mas gosto do Ega!

AM: E eu farei Os Maias, se ele me convidar!

Para terminar, uma pergunta de um milhão de dólares…

JB: Se me der cem euros já fico contente !

…que filmes portugueses os nossos leitores não devem perder?

AM: Peixe-Lua, do José Álvaro Morais,

JB: Amor de Perdição, do Manoel de Oliveira. Para mim, é o melhor.

AM: Branca de Neve, do João César Monteiro. Mas esse tem que se ver no cinema, não dá para se ver em casa…

JB: As curtas do João Salavisa, principalmente o Cerro Negro, é a melhor de todas.

AM: Três Irmãos, da Teresa Villaverde.

JB: Juventude Em Marcha, do Pedro Costa.

AM: Venus Velvet, do Jorge Cramez.

JB: Verdes Anos, do Paulo Rocha.

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João Botelho – camisa Carolina Herrera, jeans Diesel, boné G-Star e óculos Partyglasses

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