Chelsea Hotel: O paraíso perdido de Rita Barros
[wide] Mother Fuckers[/wide] Imaginem um desconhecido um dia abrir um buraco na parede da vossa sala. Imaginem o rumor do martelo pneumático acordar-vos todas as manhãs. Imaginem as vossas plantas destruídas, o vosso quarto inundado, a vossa roupa, o cabelo, a mesa, onde tomam o pequeno almoço, todos vendados de um subtil manto de pó persistente. Por fim, imaginem que aquele pó, regurgito de entulho, encobre, esconde e transforma tudo o que está a vossa volta, um mundo que antes era vosso e que, agora, já não se sabe de quem é. As mãos secam, os olhos ardem, o coração dói. Isto é o que está a acontecer aos últimos moradores do Chelsea Hotel, em Nova Iorque. 

 

Em tempos, o Chelsea Hotel foi um lugar especial, ponto de referência e de passagem para artistas que marcaram a vida cultural de um inteiro país, e não só. Jack Kerouac, Leonard Cohen, Dylan Thomas, Janis Joplin, Madonna, Stanley Kubrick, Bob Dylan, Édith Piaf, Frida Kahlo, Charles Bukowski, Nico, Sid Vicious, Joni Mitchell, Christo, Edie Sedgwick, Jean-Paul Sartre: a lista dos que aqui viveram, ou que por aqui passaram, parece infindável. Muitos deles criaram algumas das suas obras mais conhecidas nos quartos do Chelsea: artistas como Andy Warhol (Chelsea Girl) e Kerouac (On the Road), ou como o escritor Arthur C. Clarke, que no apartamento nº 1008, escreveu 2001: Odisseia no Espaço. Aí, nesse mesmo apartamento onde o Discovery One começou a sua viagem a caminho de Júpiter, hoje vive Rita Barros, fotógrafa portuguesa que fez de Nova Iorque a sua cidade e do Chelsea Hotel a sua casa.

 

Durante cerca de trinta anos, Rita viveu a vida que aqui se vivia, testemunhando o que era a essência e o espírito deste lugar privilegiado. Depois, em 2011, o hotel foi vendido e começaram as obras. A partir daí, tudo mudou. A vida de Rita, e dos outros oitenta moradores que decidiram continuar a morar no Chelsea, foi arrastada na lógica do business.  Como marinheiros arremessados na tempestade, perante a violência de obras feitas para destruir mais do que construir, cada um resistiu e resiste à sua maneira, agarrando-se com força ao barco. Assim nasceu Displacement2 de Rita Barros, neste momento em exposição na Loja da Atalaia, em Lisboa.

“Tenho o projecto Displacement desde que o Hotel foi vendido e nós passamos a ser alvo disso tudo. Displacement é o que acontece aos refugiados, pessoas a serem chutadas de um sítio onde estão, como se fossem lixo. Depois, passei a ter alíneas, braços a saírem do Displacement, que é um projecto mais documental.  Assim nasceram o meu trabalho no Facebook, mais irónico, e esta exposição, Displacement2,  que é a minha intervenção directa no espaço, como resposta física às acções que se vão acontecendo”.

Estas acções, das quais Rita e os outros moradores do Chelsea são vitimas quotidianamente, sublimaram em arte, como em Mother Fuckers, uma das obras expostas na Loja da Atalaia. Antes disso, havia um jardim no topo do Chelsea Hotel, com plantas, abelhas e andorinhas a voar. Um dia, os homens da construtora foram ao telhado e, com serras eléctricas, destruíram tudo. A raiva foi muita, a violência gratuita. Rita assistiu impotente à destruição, aos homens a pisar com as suas botas os restos de um lugar que amava. “Perante tudo isto, o que é que uma pessoa faz? Pode gritar, mas gritar não serve nada”. Mother Fuckers foi a sua resposta, uma maneira de expiar e também de dar a conhecer ao exterior o que se passa no Chelsea Hotel.

 

Todas as obras presentes nesta exposição, fotografias, vídeos e livros, nasceram como resposta, usando, em apontamento de vida quotidiana, a ironia, a brincadeira, o absurdo, “como sempre foi a vida no Chelsea Hotel”. Este mundo reflecte-se em todos os trabalhos da Rita, desde os do passado até aos mais recentes. O Chelsea já não é só inspiração, faz parte da sua história.

“As pessoas que vivem no Chelsea, acreditam nele. Aquele não é só um prédio, mas uma maneira de viver. No Chelsea, tudo funcionava em termos de família. Era um ambiente colectivo, de confiança, onde também havia um lado individual. Era um paraíso”.  

 

 

É isto que está a ser destruído neste momento, na indiferença generalizada. A sorte é termos, aqui em Lisboa, um lugar onde Displacement2 pode denunciar ao mundo o que está a acontecer. Rita agradece e nós também. O que ontem era um paraíso, hoje está perdido. Onxalá, amanhã as plantas possam  renascer.

Até 15 de Abril | Loja da Atalaia | Lisboa

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