Bem-Vindos à Zamithlândia

Aqui não há princesas. Há personagens históricas, moto-serras, veias a latejar, esgares, miolos de fora e o Rato Mickey tem cara de parvo. Visitámos a Zamithlândia e conversámos com o pintor Pedro Zamith.
[wide]

Julia: Vestido Mango e Óculos Partyglasses

[/wide] [aside]Fotografia: Gonçalo Claro, Styling: Simonne Doret, Make Up/Hair: António Carreteiro, Modelo: Julia Melnykova (Best Models)[/aside]Aqui não há princesas. Há personagens históricas, moto-serras, veias a latejar, esgares, miolos de fora e o Rato Mickey tem cara de parvo. Visitámos a Zamithlândia e conversámos com o pintor Pedro Zamith.

Há uma grande influência da banda-desenhada na tua obra. O que é que surgiu primeiro na tua vida – a vontade de pintar e de desenhar ou a banda-desenhada?

Acho que surgiram as duas coisas mais ou menos ao mesmo tempo. Comecei a desenhar compulsivamente em pequeno. O meu pai desenhava muito bem e via-o o a desenhar aos fins-de-semana e apetecia-me também desenhar. Fui um bocado contaminado por isso. Depois, os meus pais sempre me deram bandas-desenhadas em miúdo. Às tantas, uma coisa levou à outra. Não tinha noção de que os códigos ou a linguagem da banda-desenhada iam estar tão presentes na minha vida futura. Foi uma coisa muito espontânea. Em vez de nos comprarem patins ou coisas do género, quando eu e os meus irmãos passávamos de ano, os meus pais ofereciam-nos bandas-desenhadas. A mim, ofereciam-me também aguarelas e blocos para desenhar porque percebiam que da minha parte havia ali um gosto especial por esta área. As duas coisas andaram sempre um pouco paralelas, até determinada idade.

Mas chegaste a fazer banda-desenhada?

Às vezes faço, mas não gosto. Na banda desenhada temos que repetir a mesma personagem em ângulos diferentes e isso não me agrada. O que eu gosto é da linguagem “limpa” da banda-desenhada e da facilidade com que se lêem os códigos da banda desenhada. Uma coisa é tu teres uma linguagem gráfica própria, outra coisa é estares a repetir personagens.

Antes da Faculdade de Belas Artes, também  fizeste o bacharelato em Cenografia e Figurinos na Escola Superior de Teatro e Cinema. Porquê?

Porque acabei o liceu e não entrei em Belas Artes. Concorri e tive má nota, por isso resolvi concorrer à Escola Superior de Teatro e Cinema. Entrei e resolvi acabar o curso. Eram 3 anos e decidi ficar lá até ao fim para depois ir para as Belas Artes. O que eu quis sempre fazer foi Pintura, mas foi muito interessante ter lá andado. A ESTC abriu-me um bocadinho a cabeça – eram várias artes ao mesmo tempo. No Bairro Alto, no mesmo edifício, estava a Escola Superior de Dança, a Escola Superior de Música, Teatro e Cinema, Cenografia, portanto havia toda uma experiência artística. Foi assim uma espécie de três “anos zero”.

E chegaste a trabalhar em cenografia?

Fiz um cenário para uma peça na Casa Conveniente, “A Menina Júlia”. Ainda guardo as críticas que saíram no jornal. Foi engraçado ter feito isso porque me descomprometeu imenso em relação às escalas. Comecei a pintar em escalas muito grandes e, quando entrei em Belas Artes, quis logo pintar em papéis de grande escala. Isso deu-me imenso gozo.

Como definirias o teu trabalho?

O meu trabalho tem, claramente, a ver com Pintura porque é essa a minha formação e de facto é o que faço, só que em termos de linguagem é muito próximo da Ilustração. Aí a questão é sabermos onde começa a Ilustração e onde começa a Pintura, mas o meu trabalho define-se por estar ligado ao Desenho e por eu comunicar através do Desenho para contar histórias.

O que é que antecede a tua pintura?

Depende. Se tiver um projecto para uma exposição, começo a pensar num corpo de trabalho, no que quero fazer, que história é que me apetece contar. Uma exposição implica fazer 18 ou 20 peças e tem de haver uma coerência. É quase como se estivesse a fazer um filme – tenho de arranjar um argumento. Começo a investigar um bocado, vou buscar muito coisas a filmes, folheio livros, revistas, ouço músicas, mas nunca faço esboços absolutamente nenhuns. Ando uns quinze dias ou um mês a pensar no que vou fazer e depois começo a recolher alguma informação e material. De repente, quando começo a ter as ideias na cabeça, tenho aquela vontade de saltar para as telas e para os papéis.

[aside]Vestido Hôtel Particulier (na NUDE), clutch Patrizia Pepe e pulseira Primark[/aside]

Como é a tua relação com a cor?

Comunico imenso com a cor. Tenho a necessidade de usar as cores como forma de comunicação e como forma de tornar as coisas mais expressivas. Também gosto de fazer coisas a preto e branco, mas a minha relação com a cor é assim uma relação…amorosa!

Referes-te sempre a estas personagens como “os teus bonecos”. Há alguma personagem que uses recorrentemente?

Nunca. Posso ter uma linguagem própria, que fui desenvolvendo ao longo dos anos e que eu acho que se vai refinando um bocado – pelo menos eu percebo isso, porque estou dentro deste universo – mas não tenho personagens. Gosto de desenhar bonecos, independentemente da escala, gosto de criar personagens, mas nunca há uma personagem que seja igual a outra, até porque estão em contextos diferentes.

O teu imaginário é, de certa forma, violento: moto-serras, miolos de fora. Isto é uma forma de catarse?

Não gosto de violência, mas acho piada ao gore e ao grotesco e isso está muito associado à violência. Como sou um gajo urbano e existe imensa violência – de todas as espécies –  na sociedade urbana, acabo por ir buscar códigos de violência, mas porque também estão associados a códigos da sociedade. Por exemplo, a moto-serra está muito associada a filmes de terror, com alguma ironia e de algum sentido de humor pelo meio. Tem muito mais a ver com isso do que com violência gratuita. Por exemplo, as minhas personagens têm sempre cara de parvas. São sempre uns gajos pouco inteligentes. Quando os estou a pintar penso: “este gajo vai ser apanhado brevemente”…

Fascina-me um bocado o gore, como o dos filmes do Peter Jackson do princípio dos anos 90, que é só sangue. Acho piada, acho cómico e acho que há outras coisas que são, de facto, muito mais violentas e não têm sangue a jorrar.

Qual é a reacção do público ao teu trabalho?

As pessoas que vão ver os meus trabalhos são pessoas que, à partida já gostam, por isso as reacções costumam ser positivas. Não estou habituado a ouvir críticas negativas, apesar de já as ter ouvido, evidentemente. Depois também há aquela reacção do “primeiro estranha-se e depois entranha-se”. As pessoas vão começando a conhecer as minhas bonecadas e vão gostando. A minha avó dizia, com muita graça “tu desenhas tão bem coisas tão feias”. Tem uma certa graça ouvir isso. Eu não sei se sou muito virtuoso a desenhar mas algum virtuosismo tenho. Parece que quando fazemos uma coisa mais caricatural é muito mais fácil porque fugimos a determinados cânones da realidade, mas não é bem assim. Temos de encontrar uma estrutura e uma proporção certa para aquilo que estamos a imaginar, portanto isso também custa.

Até agora, qual foi o projecto que te deu mais gozo fazer?

Acho que foi o da Feira de Arte de Lisboa. Estive lá durante cinco dias, em 2011. A minha galeria perguntou-me se eu queria levar um trabalho para ter no stand e eu pedi que me dessem antes uma parede de 12 metros por 3 de altura, onde eu pudesse fazer uma intervenção. Foi isso que eu fiz. Depois fez-se um pequeno filme sobre isso, que é o “Urbicanda”.

Como estava numa zona com muito destaque da Feira, houve muita gente que veio falar comigo e veio perguntar o que estava a fazer e eu gosto imenso desse contacto. Sou um exibicionista de primeira! Gosto que as pessoas vejam aquilo que faço e de receber elogios porque passo muito tempo no atelier e não tenho feedback nenhum.

Mas nesse projecto pintei umas 5 telas no atelier, com materiais reciclados e depois dispus as peças na parede gigante e durante 5 dias andei a criar ligações entre as peças, até criar uma teia gigantesca. Daí o nome “Urbicanda”, por causa do livro “A Febre de Urbicanda”, do François Schuiten e do Benoit Peeters, e que tem precisamente a ver com isso. É um tipo que encontra um cubo e o cubo vai começando a tomar conta da cidade, como se fosse uma erva daninha.

Já fizeste banda-desenhada, já pintaste murais, já fizeste uma intervenção gráfica numa colecção do Nuno Gama, entre variadíssimas coisas. Qual é o teu suporte de eleição?

É a tela.  Acima de tudo, por causa da escala. É claro que eu posso comprar um papel de 3 metros por três metros, mas ver aquela superfície branca da tela com 3 metros por três, ou uma parede gigante muito limpinha, dá-me uma vontade enorme de agarrar em pincéis e não saír dali enquanto aquilo não estiver tudo pronto.

E o que te falta experimentar?

Tenho um convite para fazer um desenho animado, mas é um convite que exige alguma dedicação e não tem um retorno rápido. Também se passa o mesmo com as exposições, onde tens um ano de trabalho e só tens retorno no ano a seguir, mas é pior porque para fazer um desenho animado são precisos uns dois ou três anos.

Em termos de projectos, gostava de expor lá fora, individualmente – já expus colectivamente. Gosto de cruzar-me com outras disciplinas: com fotografias, por exemplo. Agora também estou com um projecto para um livro de fotografia com uma fotógrafa. Uma outra coisa que me apetecia explorar é a tridimensão. Já fiz essa experiência com personagens mais pequenas, mas queria fazer umas com três metros e para isso preciso de um patrocinador.

Pedro Zamith: Blazer Miguel Vieira, T-Shirt Diesel e jeans Diesel

Fica o recado dado.

Agradecimentos: Arte Periférica, Best Models

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.