Carlos Mourão Pereira: Os olhos de quem vê o invisível

Projecto "Outdoor room for sculpture exhibitions", Munique, Alemanha
A Arquitectura é um verdadeiro estímulo para os nossos cinco sentidos. Vê-se, podemos tocar-lhe, ouvir o ecoar dos passos e o ruído das vozes dentro de um edifício. Um espaço tem até um cheiro próprio, e o olfacto está intimamente ligado ao paladar.  Mas o que acontece quando falha um dos sentidos? - Texto: Bruno Gomes d’Almeida

Carlos Mourão Pereira nasceu em Lisboa em 1970, licenciou-se na Universidade Técnica de Lisboa e colaborou com nomes como Aires Mateus, Carrilho da Graça, Gonçalo Byrne e Renzo Piano. O seu trabalho já foi apresentado no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, na Exposição Mundial de Saragoça e no Centro Húngaro de Arquitectura Contemporânea, em Budapeste.

O Arquitecto Carlos Mourão Pereira
O arquitecto Carlos Mourão Pereira

Em 2006, um acidente provocou a sua cegueira total, mas Carlos Mourão Pereira não interrompeu a sua actividade profissional. O arquitecto acaba por atentar mais aos sons, aos cheiros e ao toque. Daí que a sensibilidade para o mundo que o rodeia seja maior. Por isto, para ele, é importante fazer com que a arquitectura seja dotada de várias texturas, cores, sons e contrastes.

De que maneira a sua arquitectura se alterou depois de se tornar invisual?

Presentemente, organizo o espaço com um conhecimento mais aprofundado ao nível multi- sensorial, alargado a diversidades minoritárias de utilizadores. Considero que essa alteração de conhecimento se constata no meu trabalho recente.

Projecto River Space, Schaffhausen, Suiça
Projecto “River Space”, Schaffhausen, Suiça

Que tipo de barreiras arquitectónicas se tornaram mais frequentes no seu dia a dia? Reparava nelas antes?

A ausência de espaços seguros, adequados à utilização por pessoas cegas, constitui o maior obstáculo. É frequente confrontar-me com vulnerabilidades do espaço construído que nunca me tinham ocorrido.

Se tivesse nascido invisual, será que teria todas as “ferramentas” para se tornar um arquitecto? Ou foi necessário ver primeiro?

É difícil responder a esta questão, ao nível pessoal. Possivelmente, ter-me ia sido mais fácil adquirir conhecimentos noutra área, por exemplo na Literatura. Contudo, não me é difícil de acreditar que uma pessoa com cegueira congénita possa interessar-se pela Arquitectura e poder vir a adquirir conhecimentos científicos ao nível do espaço visual, aplicando-os de forma mais adequada do que muitos arquitectos normovisuais.

Acredita que existe uma “ditadura visual”?

Creio que vivemos num tempo em que se atribui destaque à representação visual na divulgação de Arquitectura. Contudo, a boa Arquitectura possui qualidades multisensoriais. Constato que muitas vezes resultam da intuição de quem a projecta.

Projecto "Outdoor room for sculpture exhibitions", Munique, Alemanha
Projecto “Outdoor room for sculpture exhibitions”, Munique, Alemanha

A evolução tecnológica ajuda-o ou limita-o?

A evolução tecnológica tem por vezes limitado as pessoas cegas, como no exemplo dos telemóveis touch–screen. Contudo, igualmente têm sido desenvolvidas tecnologias assistivas, específicas para pessoas cegas. Considero pertinente desenvolver tecnologias universais.

Será a Arquitectura exclusiva aos visuais?

A Arquitectura é de todos e contém a experiência humana. Só existe porque todos nós necessitamos dela para vivermos. A Arquitectura é tão universal como o próprio universo que a encerra.

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