A Arte nefanda de Carlos Motta

Estivemos à conversa com Carlos Motta, o reconhecido artista nova-iorquino, cujo trabalho já passou por sítios como o Tate Modern, The Guggenheim Museum, MoMA, entre muitos outros. O mote foi a exposição do seu último trabalho, Nefandus, que está patente na Galeria Filomena Soares, em Lisboa, até ao dia 14 de Setembro. Um trabalho sobre pecados inomináveis, o poder colonial, e os discursos da sexualidade.

Por Sandra Bettencourt / Fotos de Miguel Von Driburg

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JURB: Podes contar-nos um pouco acerca do teu percurso e de que forma ele te levou até Nefandus?

Carlos Motta: Nos últimos anos tenho trabalhado em projectos que se relacionam com as histórias e políticas de orientação sexual e identidade de género. Interessa-me pesquisar, documentar e fazer circular histórias alternativas nas narrativas ‘mainstream’. No meu trabalho We Who Feel Differently, por exemplo, documento, com base em entrevistas a académicos, artistas, advogados, etc., a história,  desenvolvimento e mudanças de política sexual nos últimos 40 anos. O trabalho também tenta desafiar o enquadramento homogéneo que caracteriza os movimentos LGBT contemporâneos, que, em muitos aspectos reforça e normaliza categorias rígidas de identidade e ignora as questões sociais que afectam a maioria da vida das pessoas ‘queer’.

Nefandus é um tipo de projecto diferente, mas que continua  a interrogar a construção da categoria “sexualidade”.  Nefandus é um termo em latim que significa “indizível” ou “inominável”,  usado pela moral e leis religiosas das sociedades coloniais. Um “pecado nefando” merecia as formas mais severas de punição.

Nefandus fala sobre a forma como os conquistadores espanhóis e portugueses importaram a moralidade católica para as Américas e especula sobre a forma como alguns grupos indígenas pré-hispânicos podem ter tido uma concepção completamente diferente da sexualidade e do corpo. O vídeo mostra descobertas raras, tais como cerâmica, jóias e esculturas com cenas sexuais explícitas entre homens. Nefandus quer denunciar a sexualidade como uma imposição e uma ficção, e imaginar que tipo de relatos históricos poderíamos ter, caso os grupos indígenas não fossem exterminados (também) devido às suas práticas sexuais.

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Por que razão escolheste o rio Don Diego, na Colômbia, para contar a história dos “Pecados nefandos”?

O rio, na Sierra Nevada de Santa Marta, que tem sido o lar de vários grupos indígenas, é uma das mais belas paisagens do país e é conhecida por ser uma terra sagrada. Sierra Nevada testemunhou vários ciclos de violência com a exterminação de grupos e culturas étnicas. Hoje é a casa das etnias Kogi e Arhuaco, embora também com a presença de Wiwa e Kankuamo.

Ao pesquisar para Nefandus, li uma história intrigante sobre um ritual indígena realizado no século XV pelo povo Tayrona, em que um grupo de mais ou menos 50 homens se reuniam em círculo e se penetravam uns aos outros, formando uma espécie de cadeia de sodomitas. A história conta que este acto “indizível” veio “confirmar” as suspeitas dos espanhóis de que estes “homens selvagens” eram “pecadores” do “mais baixo tipo”, que não tinham a noção da natureza “abominável” das suas acções e que, por isso, mereciam ser mortos. É impossível confirmar a veracidade desta história, uma vez que tudo o que temos são crónicas coloniais mediadas pelo conhecimento ocidental. Contudo, histórias que expressam encontros homoeróticos entre os indígenas americanos não são incomuns.

Nefandus serve-se do rio como uma personagem – como testemunha que, ao mesmo tempo, apagou a violência de que foi palco. Eu podia ter filmado noutro lugar, mas dada a minha ligação à Colômbia pareceu-me certo fazê-lo lá.

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Esta viagem é o ponto de partida para outras narrativas que constituem o resto da exposição. Qual é a relação entre essas diferentes paisagens e obras?

Nefandus também pretende questionar as abordagens metodológicas das ciências sociais, que são, sem dúvida, cúmplices no projecto de colonização. Porque razão, muitas vezes, se negam a falar sobre o prazer ou desejo, em favor das ideias da fertilidade da terra, por exemplo? Como são categorizados e catalogados os artefactos e objectos? Quais são as estruturas ideológicas inerentes a estes procedimentos?

Nefandus apresenta uma série de objectos ‘ready-made‘ recontextualizados, como uma réplica de uma escultura de um pénis de um escravo indígena, do séc. XVI, ou uma réplica da nau ‘Santa Maria’, de Colombo, após o seu naufrágio. Os objectos, como as duas séries de fotografias incluídas na exposição, funcionam como metáforas do aparente fracasso do processo de “modernização” e da violência da colonização. O projecto pretende reflectir acerca da construção do conhecimento na época e como categorias epistemológicas foram impostas como o único caminho certo.

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Como é que é expor em Portugal, um dos países líderes da expansão colonial e conquista das Américas?

Apresentar Nefandus em Portugal é importante, para mim, como uma forma de manter o debate sobre o papel e a responsabilidade do país durante a conquista, trazendo para a discussão a questão da sexualidade, da identidade e do corpo. Esta é uma investigação histórica, mas também uma questão actual. Eu gostava que o trabalho levantasse questões sobre como nós continuamos a moralizar a sexualidade.

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O vídeo transmite a ideia do indizível, do que não deve ser mencionado. Expões, assim, o ponto de vista do ‘subalterno’, antes, durante e depois da sua dominação e subjugação pelo poder colonial Quem é, para ti, o sujeito pós-colonial? Ele é a voz (em língua nativa e em espanhol) que ouvimos no vídeo?  Como é que o subalterno pode falar, como Spivak interroga, no teu trabalho?

As duas vozes representam posições distintas do sujeito: um indígena a falar em Kogi, cujas palavras descrevem poeticamente uma história de dominação. Não é claro se ele está a falar no presente ou no passado, mas é evidente que ele se conformou com o extermínio de sua cultura. O homem que fala espanhol fala no presente e interroga a paisagem à procura de pistas acerca de histórias extintas de subjugação e abuso. Ele contextualiza a questão do homoeroticismo pré-hispânico referenciando descobertas arqueológicas que retratam o sexo entre homens. Estas vozes, na minha opinião, questionam as acções e os efeitos do poder para reclamar uma nova visão da história que rejeita as categorias europeias de conhecimento. São vozes do “pós-colonial” e  do “subalterno”, como tu dizes, no sentido de que ambos lutam com os efeitos do colonialismo e ainda tentam construir as suas próprias narrativas críticas de autoridade.

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O silêncio pode ser um discurso muito significativo, mas também um contra-discurso. É a transformação do silêncio numa linguagem activa algo que pretendes com o teu trabalho?

Esta pergunta faz-me recordar o belo texto de Audre Lorde “The Transformation of Silence into Language and Action” (em Sister Outsider). Nele, ela esclarece que “não é a diferença que nos imobiliza, mas o silêncio” e “que o que é mais importante para mim deve ser falado, verbalizado, partilhado, mesmo correndo o risco de ser danificado ou mal interpretado.” O silenciamento tem sido uma das estratégias mais bem sucedidas do poder opressivo, no silêncio encontram-se histórias de medo, histórias secretas de morte, subjugação e destruição. Trazer o silêncio para o discurso, para a linguagem e para a acção é, portanto, um acto revolucionário. Quando as coisas são ditas e repetidas começam a existir sob formas que perturbam o poder. Este é um dos propósitos de Nefandus, quero desfazer as narrativas históricas confortáveis ​​ exigindo uma transformação sistémica. Sim, é uma reivindicação perturbadora, mas porquê desejar menos do que isso?

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JURB: Quem é que mais te inspira?

CM: Inspiram-me as pessoas corajosas como o norte-americano Edward Snowden, que sacrificou a sua vida e o seu futuro para dar a conhecer a extensão das estratégias de vigilância norte-americanas. Apesar de perder a sua “liberdade”, Snowden verbalizou, como Audre Lorde sugeriu, o silêncio em acção. Se outros ousassem enfrentar o touro pelos cornos como ele fez, o mundo seria definitivamente um lugar melhor.

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Nefandus é a primeira de duas exposições sobre o tema. A segunda parte deste projecto será apresentado na Galeria La Central, em Bogotá, na Colômbia, em Outubro.  Podes contar-nos mais sobre esta continuação, e sobre o teu trabalho futuro?

Para a exposição em Bogotá vou produzir um segundo vídeo sobre a forma como a sodomia foi penalizada, com base em julgamentos coloniais em Lisboa, Madrid e noutras cidades coloniais. Vou produzir, também, um catálogo fictício de representações homoeróticas em artefactos indígenas, baseado em imagens e objectos que fui encontrando ao longo da minha pesquisa na América Latina. Esta exposição vai ser um pouco mais gráfica na representação dos actos sexuais, não como Nefandus, que, na realidade, abordou a questão sem mostrar corpos.

Actualmente, estou a trabalhar num projecto de grande escala, Gender Talents, que documenta o trabalho que activistas internacionais trans e intersexuais estão a realizar no sentido de construir uma mais ampla política de auto-determinação e reconhecimento de género. Tenho filmado na Colômbia, Índia e Estados Unidos e irei filmar em breve na Argentina, Austrália, Guatemala e África do Sul.

Vou continuar a fazer perguntas críticas e a usar a relativa visibilidade que o meu trabalho tem adquirido ao longo dos anos para incentivar jovens artistas a se envolverem em questões prementes que os afectam e às suas comunidades.