Berlim, mais sexy que pobre

Tópicos a serem discutidos: ursos e dragões; estratégias de promoção do turismo nacional; saídas de emergência; mórbidas declarações de amor.

2ºartigoCaio

Texto: Caio Yurgel / Foto: Camila Gonzatto

Tópicos a serem discutidos: ursos e dragões; estratégias de promoção do turismo nacional; saídas de emergência; mórbidas declarações de amor.

Ah, Berlim… quando menos se espera sobe um cheiro de esgoto, um lembrete do pântano sobre o qual a cidade foi erigida. Meu impronunciável amigo polonês Krzysztof não cansa de me lembrar que Berlin significa justamente pântano no idioma do povo eslavo que fundou a cidade no século XIII. “Eles fazem de conta que Berlin deriva de urso (Bär), estampam o bicho no brasão da cidade, mas isso tudo não passa de um pântano”, diz ele e sorri satisfeito, abrindo os braços como se pudesse abraçar a cidade inteira. No fundo, tenta é rebater o suposto slogan que os alemães imputam ao Ministério do Turismo polonês: ‘Venha visitar a Polônia! Seu carro já está cá’. De modo que pouco vale mencionar o papel decisivo de Alberto I, mais conhecido como Alberto, o Urso, na escolha do brasão da cidade. Até porque, mal dobramos a esquina e ele complementa: “O pântano mais incrível do mundo, mas um pântano mesmo assim”. Há muito amor em Berlim, basta saber encontrá-lo.

Como há também o eventual punk desmaiado na calçada ao lado de seu fiel e vigilante cão, ou o mendigo que segura um copo plástico na esperança de que o dia lhe sorria com alguns trocados. Encontrar um mendigo na rua é uma situação para a qual minha vivência prévia na Alemanha não me preparou. Após meio ano na pacata e abastada e universitária Tübingen, qualquer indício de pobreza extrema que cruze meu cotidiano paralisa-me completamente, um conto de fadas que se dissipa. Em Tübingen, o único mendigo local era quase uma instituição, mantinha uma carga de leituras muito mais interessante que a minha, variando de Thomas Mann a Günter Grass a W.G. Sebald, ao passo que eu sequer terminei as aventuras de Coco, o dragãozinho (em minha defesa: são 19 volumes).

E há as pessoas. É graças a elas que eu me sinto um avô. Seja porque a indiferença com a qual se vestem é diametralmente oposta à indiferença com a qual me visto – eu moletom e jeans, eles meias de cores diferentes e franjas cortadas com um caco de vidro; seja porque sempre que alguém me convence a ir àquela festa no porão de uma antiga fábrica de sabão em pó desativada para ouvir o set list de um DJ da Lituânia, acabo por passar três quartos da noite encarando a única e estreita porta do recinto inteiro, ponderando que, em caso de desastre, padeceremos todos de uma morte em iguais partes agonizante e hipster. Eu de moletom e jeans, eles de meias de cores diferentes e franjas cortadas com um caco de vidro.

É por isso que há tanto amor em Berlim: porque a qualquer momento podemos morrer ao lado de pessoas muito mais interessantes que nós.