POLITIK

Crónica do escritor Caio Yurgel, que nos escreve desde Berlim.

(Onde, dum mesmo golpe de teclado, desagrado a politizados e apolitizados, esportistas e cinéfilos. E, de brinde, salpico umas notas de rodapé para conferir um ar científico à cousa toda.)

Texto: Caio Yurgel / Foto: Camila Gonzatto

À força de corrupções, maracutaias e Marcos Felicianos(1), a população brasileira acabou por fraturar-se em dois grandes grupos: o dos politicamente apáticos e o dos politicamente alvoroçados. Fosse eu mais perspicaz e avançaria a hipótese de que esses dois grupos não passam de atualizações de software do velho binarismo direita-esquerda, mas tem anos já que nem sei mais o que é direita e o que é esquerda, às vezes até me confundo na hora de atravessar a rua. O que sei é que a simples menção à palavra ‘política’ me faz bocejar violentamente, como se assistisse a trigésima segunda volta de uma corrida de Fórmula 1 (ou o trigésimo segundo minuto de qualquer filme de Terence Malick). Portanto, e correndo o risco de desmaiar a qualquer momento sobre o computador e despertar com as marcas do teclado gravadas no rosto, proponho uma breve incursão no democrático mundo da Realpolitik alemã.

No 22 de setembro último realizaram-se as eleições federais, cujo resultado desconheço dado que escrevo estas singelas linhas de antemão, e cujo resultado de toda forma não saberia analisar uma vez que todo meu conhecimento acerca da política alemã resume-se a: (a) o corte de cabelo da Angela Merkel; e (b) o partido FDP(2). FDP significa Freie Demokratische Partei, Partido Democrático Liberal, mas isso pouco importa. Não sei como funciona em Portugal, mas no Brasil os políticos até tentam disfarçar-se atrás de outras siglas, tentam diferenciar-se por intermédio de consoantes ou vogais que indiquem seu socialismo ou seu cristianismo, porém no final das contas dá tudo na mesma: são todos FDPs convictos.

Em jogo, no fatídico dia 22, estavam as quase 600 cadeiras do Bundestag, o parlamento alemão. Da noite para o dia, como se o Natal tivesse chegado meio ano mais cedo, os postes e muros de Berlim – e de toda Alemanha – amanheceram repletos de penduricalhos e adornos: cartazes coloridos a exibir os semblantes dos candidatos, acompanhados de suas plataformas de campanha. Alguns cartazes receberam o contributo anônimo de eleitores: um bigode de Hitler aqui, uma cicatriz de Harry Potter ali, um punhado de genitálias acolá. Tudo do mais elevado bom gosto. Porque verdade seja dita: ape$ar do vivo intere$$e do continente europeu no de$fecho de$$a$ eleiçõe$, o contributo artístico dos eleitores foi das poucas coisas a impedir a campanha eleitoral alemã de enviar o país inteiro num profundo surto de narcolepsia.

Permitam-me quatro argumentos e uma teoria para elucidar o tédio político:

(1) os candidatos alemães não sabem sorrir para a foto. O que não impede que tentem. Há, é verdade, um semblante de emoção estampado em suas faces, porém tal semblante está tão distante de um sorriso verdadeiro quanto a expressão no rosto de um adolescente que acabou de descobrir que ganhou um suéter de aniversário. Tricotado pela avó. Com suas iniciais monogramadas na altura do peito;

(2) os candidatos alemães exibem suas credencias de ‘Doktor’ com a mesma frequência que uma colega minha de escola mostrava os peitos atrás da quadra de futebol. E essa frequência era: o tempo todo. Para quem quisesse ver. Até o ponto em que nem sequer o bedel conseguia demonstrar interesse nas proezas da rapariga;

(3) os partidos alemães estão a abusar dos clichês políticos como se os houvessem inventado. A extrema-direita alimenta-se do medo e da xenofobia, a esquerda sacode o dedo no ar e lembra a todos que os seres humanos devem vir antes do sistema financeiro, a direita tenta distanciar-se tanto da extrema-direita quanto da esquerda e acaba por afastar-se de todo mundo, os conservadores conservam, a oposição opõe, os anarquistas capricham nos moicanos, o Partido Verde propõe que todos deem as mãos ao redor de uma fogueira e cantem A internacional;

(4) e o clichê político só tende a piorar quando a língua alemã é chamada a contribuir com palavras de ordem e revelar toda a extensão de sua natureza aglutinante, feito peças de Lego que caíram em mãos excessivamente adultas e pouco imaginativas.  O CDU (União Democrata-Cristã), da atual chanceler Angela Merkel, usa como slogan uma frase sem dúvida retirada de um livro de poesia: “Chanceler para a Alemanha”. Ou também, num arroubo de semelhante veia poética: “Juntos exitosos” (“Gemeinsam erfolgreich” – que, nas mãos de um eleitor verdadeiramente criativo, teve algumas letras apagadas e converteu-se em “mein reich”: “meu Reich”). De modo que o SPD (Partido Social-Democrata), principal adversário de Merkel, viu-se obrigado a rebater à altura as injunções linguísticas de seu oponente, assim aventando seu desengonçado lema: “Das WIR entscheidet”, que significa, literalmente, “O NÓS decide” – e sim, soa tão mal em português quanto em alemão, como algo dito por um estrangeiro recém-chegado ao país.

Visto do alto de minha janela berlinense, o tedioso desfile político alemão parece representar a perfeita antítese da efervescência cultural e artística do país. Cada vez mais percebo a Alemanha como uma nação em busca de poesia. Não ‘poesia’ no sentido de rimas e métricas e uma certa burguesia diletante a perfumar o ar com palavras bonitas, mas sim enquanto um manejo do idioma capaz de romper com a sintaxe-Lego imposta pelas esferas político-econômicas que atualmente são responsáveis pela boa reputação alemã nos quatro cantos do mundo. Uma nação que deseja que sua língua deixe de ser apenas sinônimo de Euro e Holocausto e Bratwurst, e que volte a ser a língua de Goethe e Thomas Mann.

 

Notas:

(1) Uma das grandes felicidades da população portuguesa é sequer precisar compreender o que representa a iluminista e esclarecida figura de um Marco Feliciano, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados do Brasil. E eu recomendo que sequer pesquisem. A inocência é sempre o melhor remédio.

(2) Não sei se em Portugal, como no Brasil, a abreviação f.d.p. é utilizada para caracterizar uma suposta sexualidade mais, digamos, elástica das mães de certos filhos. Embora as mães nunca tenham nada a ver com o motivo do calão.

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