HIBU.

Foto: Sara Pinheiro
O Artur Araújo foi ter com a Marta Gonçalves, o Gonçalo Páscoa e o Nuno Sousa e conversou com eles sobre a sua marca HIBU. A Sara Pinheiro fotografou.
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Foto: Sara Pinheiro
Foto: Sara Pinheiro
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Quando olhamos para fotografias em que eles aparecem, o mais provável é pensarmos que se trata de uma banda de rock ou de outro estilo musical semelhante. Mas, não. Na verdade, a cena destes três é mais a da Moda. Marta Gonçalves, Gonçalo Páscoa e Nuno Sousa são os responsáveis pela HIBU., uma marca que apesar de ter surgido em 2012, só se começou a desenvolver consistentemente e a ganhar maior visibilidade em Maio deste ano, com o lançamento da sua primeira colecção.

No início de Outubro, apresentaram ao público a sua segunda colecção, de Primavera/Verão 2014, no Sangue Novo, uma plataforma relançada pela ModaLisboa que tem como objectivo divulgar novos talentos nacionais da área da moda. A coesão estética da colecção e os fabulosos brincos coloridos e geométricos feitos em acrílico puseram a HIBU. no topo da lista de novas marcas de moda portuguesas que toda a gente vai querer seguir nos próximos tempos.

Há uns dias atrás, num final de tarde, reuni-me com a Marta, com o Gonçalo e com o Nuno, no Cinema São Jorge, na Avenida da Liberdade, e conversei com eles acerca da HIBU. e da sua mais recente colecção. A Sara Pinheiro acompanhou-me e tirou-lhes algumas fotografias.

 

Como é que surgiu a HIBU. e porquê esse nome?

Marta: A HIBU. surgiu em Outubro do ano passado, em 2012, logo após eu ter terminado o curso em Castelo Branco. Queria avançar com um projecto, com uma marca, que poderia ser só minha ou não. Na altura, era só minha, mas eu estive sempre aberta, caso mais pessoas quisessem juntar-se. Antes de ter aberto a página de Facebook já tinha o nome: “hibou”, que, em francês, quer dizer mocho. Durante muito tempo, na infância, chamavam-me mocho, por causa dos meus olhos grandes. Entretanto, o meu pai viveu em França e sabe muito bem francês, daí “hibou”. Mas para os portugueses lerem mais ou menos como se diz em francês, e não dizerem “hibôu”, tirei o “o”, ficando apenas “hibu”… HIBU.. O ponto, no final, para marcar o nome. E foi assim que o nome da marca surgiu. Eu mostrava na página os meus trabalhos feitos no fim do curso, a colecção final do curso, o projecto final de curso, em que não trabalhei só vestuário, mas também acessórios, que é uma área que eu e eles gostamos muito de trabalhar. E, pronto, depois, ia fazendo umas peças quando tinha disponibilidade. De repente, em Março deste ano, estávamos os três juntos…

 

Antes de me explicarem como é que se conheceram, digam-me o que é que estudaram.

Nuno: Estudos Artísticos na Faculdade de Letras. O meu papel aqui na marca é mais a parte de comunicação, se bem que, nesta última colecção, também fiz um bocado de trabalho de produção. Também me envolvo nas decisões estéticas. A estética vem dos três.

Marta: Eu estudei Design de Moda e Têxtil, em Castelo Branco. Com o Gonçalo. (risos)

Gonçalo: Fomos da mesma turma.

 

E vocês conheceram o Nuno como?

Marta: Eu já conhecia o Nuno do MUDE.

Nuno: Sim, eu trabalhava no MUDE, antes de entrar para a faculdade, em 2009, logo quando o museu abriu.

Marta: E eu nessa altura estava na António Arroio. E conhecemo-nos lá, no MUDE. Fui lá uma vez, conhecemo-nos, e a partir daí desenvolveu-se uma amizade. Depois, fui para a faculdade e conheci o Gonçalo.

Gonçalo: E eu conheci o Nuno no mesmo ano, cá em Lisboa, depois da Marta. Foi ela que nos apresentou. Eu e o Nuno não nos falávamos muito. Não éramos muito próximos. Tínhamos só uma amiga em comum, a Marta. Depois, mais tarde, começámos a falar e vimos que éramos “best friends”. (risos)

 

Foto: Sara Pinheiro
Foto: Sara Pinheiro

Portanto, esse espaço de tempo entre o “não nos conhecíamos muito bem” e o “ficámos best friends” corresponde a…

Nuno: 4 anos.

Marta: Exacto, foi estranho, porque, quatro anos depois, eles começaram a falar-se todos os dias. (risos)

 

Então, tu, Marta, tinhas a tua página no Facebook, a tua marca, já intitulada HIBU., e como é ela passou de um projecto pessoal para um projecto a três?

Gonçalo: Bem, é uma história engraçada. Uma noite estávamos em casa de um amigo a fazer “house sitting”. Tínhamos saído nessa noite. Entretanto, chegámos a casa e eu tinha ficado na sala e eles os dois no quarto a dormir. No dia seguinte, de manhã, fui ter com eles ao quarto, começámos os três na galhofa e a Marta vira-se e diz “vou ver os e-mails da HIBU., que já não o faço há imenso tempo”. Depois de abrir a conta de e-mail, vê que tem lá uma mensagem de umas polacas que queriam estagiar na HIBU..

Marta: E eu pensei “Mas como é que elas souberam disto?! Isto ainda não é nada! Como é que elas descobriram a página de Facebook?!”. E pedi ao Gonçalo para nos ler o e-mail e explicar.

Gonçalo: Eu comecei a ler, a explicar tudo, e ela: “O quê?! Querem estagiar para nós?! Mas eu ainda não tenho nada.”. E eu disse imediatamente: “Tens de aceitar! Aluga um atelier, faz qualquer coisa!”. No fim, a Marta disse: “OK, eu aceito, mas só se vocês quiserem fazer comigo”. E nós aceitámos. E como eu, na altura, tinha uma colecção para o Acrobatic, sugeri que usássemos a colecção que fiz para o concurso e fizéssemos algo do género: “Gonçalo Páscoa for HIBU.”. Eles concordaram. Depois, começámos a dinamizar a marca. E foi assim que começámos os três.

 

E as polacas chegaram mesmo a estagiar convosco?

Marta: Sim, chegaram! Nós contactámo-las logo. Dissemos algo do género: “Isto ainda não é nada, mas nós vamos arranjar um sítio para trabalharmos, não se preocupem…” (risos)

Gonçalo: Isto em Março. Os meses foram passando, a trocar e-mails com as raparigas, a combinar tudo… E elas vieram em Agosto. Foram elas que desenvolveram os brincos da última colecção, dentro do que nós os três definimos como inspiração.

Nuno: Sim, e para isso elas tiveram de fazer alguma investigação sobre a nossa inspiração, sobre Jean-Michel Basquiat e toda a cena artística em Nova Iorque na altura dele. Eu, como, paralelamente àquilo que faço na HIBU., trabalho numa editora, a fazer investigação, estive a ensinar-lhes como se fazia investigação. Levei-as para a Biblioteca de Arte da Gulbenkian e estivemos lá uns bons dias a folhear livros sobre Basquiat e cores que ele usava… para fazermos os brincos.

Gonçalo: Foi tudo muito simples e em cima do joelho. (risos) Nós dissemos-lhes: “Se querem vir mesmo, venham, mas não esperem muito, porque nós estamos mesmo só a começar”. E elas foram com o Nuno para a Gulbenkian porque nós ainda nem tínhamos Internet no atelier. (risos) Só conseguimos ter Internet, quando elas já estavam a uma semana de se irem embora de Portugal.

 

Essa história das estagiárias polacas é engraçada, porque, no fundo, foram elas que deram origem à HIBU.. Percebem o que quero dizer?

Marta: Sim, e eu acho que elas não se aperceberam disso. (risos)

Nuno: Pois, elas devem pensar que eu e o Gonçalo já fazíamos parte da HIBU. antes de elas aparecerem em cena. (risos)

Gonçalo: Exacto! (risos)

 

 

Que vantagens e desvantagens existem em fazer uma marca de moda a três?

Gonçalo: Primeiro as vantagens: recursos. É muito mais fácil dividir os custos por três, do que ser só uma pessoa a suportar o custo de uma marca.

Marta: Pois, uma pessoa sozinha é um bocado impossível. Uma pessoa só a desenvolver uma colecção com mais de 15 coordenados…É impossível.

Gonçalo: As desvantagens…

Nuno: As discussões, talvez.

Marta: Mas nós não temos muitos desentendimentos na parte de design. Não são discussões violentas, pelo menos. É mais o discutir sem confusões e chegar a um consenso. Aconteceu isso recentemente com um casaco da última colecção, que acabou por ser um misto das minhas ideias com as do Gonçalo.

Gonçalo: Sim, nesses casos, tiramos sempre o melhor de cada um.

Nuno: Às vezes, discutimos por coisas absolutamente insignificantes e, nessas alturas, as coisas parecem sempre muito dramáticas, mas, no dia seguinte, ou dias depois, olhamos para trás e pensamos: “Mas que estupidez! Discutimos por causa daquilo…” (risos)

Gonçalo: Sim. (risos)

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Os brincos Hibu. Do instagram do @arturinthewoods

 

Gonçalo, tu tens uma marca própria. Apresentaste, inclusive, há pouco tempo, a tua mais recente colecção “a solo”, no Bloom, no Portugal Fashion. Por que é que tens essa necessidade de ter uma marca própria? Ou, se preferires, quais são as vantagens e desvantagens de ter uma marca própria?

Gonçalo: Como ainda é tudo muito novo, não te sei dizer quais são as vantagens e desvantagens de ter uma marca só minha. Estou só a experimentar. Mas, por exemplo, em termos de vantagens é bom porque as pessoas começam a conhecer melhor o meu trabalho, a minha própria estética. Agora, as pessoas conseguem ver o que é que na HIBU. é mais Gonçalo e o que é que é mais Marta e Nuno. E, depois, é sempre bom termos um projecto só nosso, em que não temos de ceder às opiniões dos outros. Apesar de, como já dissemos anteriormente, em termos de design, não temos muitas discussões na HIBU..

 

Como é que surgiu a oportunidade de apresentarem no Sangue Novo da ModaLisboa?

Gonçalo: Foi através da nossa professora, a Alexandra Moura. Quando nós andávamos na faculdade, ela gostava do nosso trabalho. Nós às vezes encontramo-nos com ela e uma vez dissemos-lhe que estávamos a começar a HIBU.. Depois, ela, sem nos dizer nada, sugeriu a HIBU. à ModaLisboa para o Sangue Novo. E, pronto, a ModaLisboa gostou do nosso trabalho.

 

Relativamente a esta última colecção, qual foi a vossa inspiração?

Nuno: Jean-Michel Basquiat, mas de uma forma não muito óbvia. Focámo-nos mais na personagem que ele era e nos outros artistas da mesma época. Os materiais da colecção têm a ver com essa temática. Um dos materiais que utilizámos nas peças, principalmente nos casacos, é tela. Tela, mesmo para pintar, de algodão e sem tratamento, para ser mais maleável e vestível. Por outro lado, nos acessórios, a inspiração foi mais literal, com as cores e as formas que, lá está, são muito anos 80.

 

E agora o que é que vocês estão a pensar desenvolver na HIBU.? Ouvi dizer que estavam a preparar uma linha de t-shirts em colaboração com alguns ilustradores. Falem-me sobre isso.

Gonçalo: Bem, essa ideia já tinha surgido antes da ModaLisboa, mas depois tivemos que deixar um bocado em “stand by”. Mas, agora, já está em desenvolvimento e só falta mesmo estampar. Porque o que nós fizemos foi convidar vários ilustradores (Wasted Rita, Mariana Cáceres, Rita Roque, Laro Lagosta, entre outros) para fazerem umas ilustrações que vão ser estampadas numa t-shirt feita por nós. Isto aconteceu porque nós nunca quisemos que a marca HIBU. fosse só de moda. Sempre quisemos que houvesse uma parte de curadoria e este projecto das t-shirts é o primeiro de uma vertente da nossa marca a que gostamos de chamar de “curated by HIBU.”. E este projecto, por acaso, é de t-shirts e, por isso, tem a ver com moda, mas o próximo pode não ser. No próximo, podem ser esculturas, por exemplo. Pode ser qualquer coisa que não seja uma colecção como a do Sangue Novo.

Marta: E criámos isto também porque queremos que os artistas que colaboram connosco tenham mais visibilidade e recebam mais alguma coisa. Parte do dinheiro das vendas das t-shirts vai para eles, para os ilustradores. Como nós gostamos e já fomos, de alguma forma, ajudados por outras pessoas, queremos fazer o mesmo.