A mão que embala o berço do Indie

O Carlos BB do projecto Pernas de Alicate conta-nos como o seu estúdio viu nascer algumas das bandas da cena indie e alternativa portuguesa.
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por Carlos BB (Pernas de Alicate)

Tudo começou em 2000-e-qualquer-coisa.

Na altura resolvi comprar uma garagem em Mem Martins para fazer uma sala de ensaios para a banda que tinha. Fizemos um tratamento acústico mega ao desenrasque na sala, só mesmo para não incomodar os vizinhos e também para não ficarmos surdos, e foi suficiente.

Passados uns meses reparei que a sala tinha tamanho suficiente para fazer também uns concertos. Comecei a organizar concertos de punk e hardcore duas vezes por mês e havia filas e filas de miúdos à porta da minha sala de ensaios. Vendia-se merchandise, fanzines e claro, comida vegetariana. Ninguém consegue esquecer as famosas sandes de soja!

Durante um ano a minha garagem foi assim meio sala de ensaios, meio sala de concertos.

Com o passar do tempo e com cada vez mais vontade de fazer da minha música profissão resolvi fazer mais umas obras e tornar a sala de ensaio num estúdio de gravação, o Black Sheep Studios, ainda numa fase muito amadora mas que já dava para se gravar pequenas maquetes e também para alugar o espaço a bandas que não tinham sala de ensaios nem material para ensaiar como sistema de som, amplificadores, bateria, etc.

Lembro-me que numa longa noite de trabalho e de copos (isto lá para 2003) eu e o meu primo Makoto (técnico de som e produtor no Black Sheep) tivemos a estúpida ideia de pintar o estúdio todo de preto e os tectos côr-de-laranja. Dito e feito: no dia seguinte vai de comprar tinta e pincéis, juntar uma série de amigos para nos ajudar e ao fim do dia a ideia mas parva de sempre tornou-se realidade! É claro que passados algum tempo toda a gente se começou a queixar de que aquilo tinha um ambiente muito pesado e que mais parecia uma caverna do que um Estúdio…

Moral da história: nunca pintem um estúdio de preto e as decisões, se possível, tenham-nas sempre sóbrios.

As qualidades do estúdio foram aumentando e com o tempo foram aparecendo vários trabalhos e começou a dar para pagar as contas e poupar algum dinheiro. Em 2007 perdi a cabeça e investi quase todo o dinheiro que tinha numas novas obras para renovar e aumentar o espaço do estúdio. O Black Sheep tornou-se uma coisa bem mais profissional, com uma imagem nova e com material bem acima da média.

Por aqui passaram e nasceram bandas como Linda Martini, Vicious Five, Men Eater, If Lucy Fell, Riding Pânico, entre muitas outras graças aos concertos de punk e hardcore.

Já na altura os técnicos que aqui trabalhavam tinham alguma experiência e capacidade para fazer gravações e trabalhos com excelente qualidade, e por isso o estúdio foi crescendo e tornou-se numa referência para bandas mais ligadas à cena de música indie e alternativa portuguesa.

Numa fase mais recente ainda aqui vemos nascer bandas, como é o caso de PAUS, ou projectos novos como Pernas de Alicate.

Às vezes parece-me surreal que o meu estúdio seja considerado um impulsionador de uma série de bandas que vieram dar uma vida nova e novo sangue à cena musical, mas depois olho para trás e faz sentido:

Foram muitos anos a crescer, muitas obras, muito trabalho. Tal como várias ideias parvas, alguns erros e umas quantas discussões com namoradas por passar demasiado tempo no estúdio!

Mas posso dizer que me sinto mega orgulhoso por ter criado o Black Sheep Studios e por ter podido contar com a ajuda de amigos e óptimos técnicos.