EIME a street artist

A história de um puto mal-comportado que se tornou um artista.

Por ocasião do lançamento de Amor é Fado, de Carlos do Carmo, o cenógrafo e artista plástico Daniel Eime fixou, num muro da Calçada do Monte, em Lisboa, o retrato do fadista, que era também a capa do seu último álbum. Fui encontrá-lo no seu atelier, no Porto, onde me disse para tirar por um bocadinho a imagem do Carlos do Carmo da cabeça e conhecer o seu verdadeiro trabalho, povoado de caras anónimas e enrugadas.

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Nasceste nas Caldas, estudaste em Lisboa e depois mudaste-te para o Porto. Fala-nos um bocadinho deste teu percurso.
Nasci nas Caldas e fiz lá quase a minha adolescência toda. Fiz o percurso escolar normal até ao 10º ano e nesse altura tive um momento conturbado, não estava a alinhar bem no percurso escolar, queria fazer coisas de 15 e 16 anos, experiências diferentes. Na altura fazia muito malabarismo e então o meu universo era um pouco mais “freak”. Estava também a começar a fazer graffiti e a escola ficou completamente de lado. No primeiro 10º ano chumbei por faltas, mau comportamento e essas palermices. Hoje em dia arrependo-me, mas não me arrependo.

Eras um adolescente rebelde…
E meio parvo, às vezes! Por isso, o primeiro 10º ano foi à vida, e no segundo 10º ano continuei sem atinar até que houve uma espécie de reunião de família para perceberem o que é que eu queria fazer. Estava com 16 anos e a tentar perceber que rumo é que queria tomar. Estava em Artes, sabia que era em Artes que queria continuar, mas não sabia era a fazer o quê, por isso, como tinha o gosto pelo malabarismo e pelas artes plásticas, uma amiga da minha mãe sugeriu o Chapitô. O Chapitô tinha dois cursos, Artes e Ofícios, e quando fui fazer a prova – era uma escola profissional, por isso tínhamos uma prova de acesso-, fiz para a parte dos Ofícios, ou seja, tudo o que tem a ver com os bastidores de Teatro e Cinema: Cenografia, Figurinos, Luz, Som, etc. Por acaso, não fiz a prova para Artes, que era a parte de malabarismo, acrobacia, representação, coisa que não ia resultar bem porque não tenho nenhum dom para isso. Entrei em Ofícios e com essa mudança de cidade e de hábitos, começar a viver sozinho, longe da família,  percebi que estava a entrar numa nova fase e comecei a atinar, estranhamente.

Quantos anos tinhas quando começaste a atinar?
Para aí 17. Mas foi uma coisa brusca, de meses. Até Junho fui um rebelde e depois em Setembro comecei a entrar nos eixos. Supostamente devia ser o contrário: estava longe da família, podia fazer o que queria, tinha as asas completamente abertas, mas por acaso, não. A partir daí criei um rumo, comecei a criar gosto pela Cenografia e da Cenografia evoluí. Antes fazia graffiti, puro e duro, letras, e em Lisboa já, não estava com os meus amigos e não estava à vontade para fazer graffiti sozinho, por isso tentei arranjar maneira de divulgar o meu trabalho de uma maneira mais tranquila. Comecei a desenhar em autocolantes, os stickers, e posters e acabei por conhecer um ou outro artista, como o Target. Na altura, ele era designer gráfico. Começámos a falar muito um com o outro, a trocar dicas e a “desafiar-nos”. Juntavamo-nos muitas vezes para sair à noite, beber um copo e espalhar uns autocolantes. Então, durante os meus primeiros dois anos em Lisboa, estive muito activo com os stickers e os posters. O stencil entrou ali pelo meio, mas apenas como uma experiência. No último ano do Chapitô estava completamente focado na escola. Ganhei gosto pela área e apliquei-me ao máximo. Não sabia o que ia acontecer dali para a frente. Não sabia se queria ir para a universidade, se queria ir trabalhar, por isso estava a tentar ganhar qualidades e experiência para ir, supostamente, para o mercado de trabalho. Aí, a street art ficou um bocadinho de lado mas o gosto estava sempre lá, simplesmente não o punha em prática. Ou se punha, as coisas ficavam em casa. Quando saí de Lisboa, fiz um estágio de dois meses e acabei por sentir que era melhor ir para a universidade e explorar um bocadinho mais a arte da Cenografia e vim para o Porto. Em 2006 volto a mudar de cidade, com uma maturidade diferente, e durante os primeiros dois anos andei um bocado parado. Apesar de haver arte urbana aqui, não me “puxava”. Em Lisboa era um reboliço que era uma coisa parva…

Sentes que há mais receptividade à street art em Lisboa do que no Porto?
Lisboa continua a ser a Meca da arte urbana nacional. Acho que não é por ser a capital. Se calhar é onde há mais oportunidades. Tanto é que no Porto, só vejo gente a sair. Há muitas pessoas criativas no Porto, mas não há oportunidades no Norte. Está tudo a ir para Lisboa. Depois passámos uma fase durante o mandato do Rui Rio, que era completamente contra a arte urbana. Fazia-se uma pintura e no outro dia estava tapada, e depois não há uma GAU, como há em Lisboa. Ainda não se percebeu bem como vai ser com o nosso novo presidente. Há uma maior abertura. A arte urbana já não é considerada crime, lixo ou vandalismo, mas vamos ver. Para já ainda está tudo morno, mas as grandes oportunidades estão em Lisboa. Se aqui no Porto tenho uma pintura, em Lisboa já fiz umas 5 ou 6. Sempre que há alguma coisa, vou a Lisboa.

Então o que te faz ficar no Porto?
É a cidade, o modo de vida da cidade. Saí de Lisboa com vontade de sair e estou no Porto há 7 anos com vontade de ficar. Sempre que vou a Lisboa vou numa correria e quando venho parece que fico mais descansado. Gosto mais do modo de vida e sinto-me melhor aqui. Como não tenho carro nem carta, aqui anda-se a pé para todo o lado e como é tudo mais pequenino consegue fazer-se tudo mais rapidamente, principalmente na minha área, em que tenho de andar sempre de um lado para o outro. Em Lisboa tenho que apanhar um autocarro para depois apanhar o Metro, subir e descer. Aqui não: ou sobes ou desces. Continuo a gostar de viver cá, mas o meu trabalho é quase todo em Lisboa.

Como chegaste até esta técnica do stencil e o que te faz identificar com ela?
Foi em Lisboa que comecei a trabalhar com o stencil, umas meras experiências, como foram os stickers e os posters. Fui experimentando essas técnicas e acabei por me direccionar para onde me sentia melhor. O stencil foi das últimas coisas a aparecer e foi um desafio, continua a ser um desafio. Com esta pausa de três anos com a saída de Lisboa para o Porto, ao sentir a falta de voltar a mostrar o meu trabalho, percebi que o stencil era a técnica que mais se enquadrava com o que eu queria fazer, principalmente rostos. Em 2008 comecei a trabalhar o stencil a 100%, sem graffitis, e sem outras técnicas além do recorte de papel. Tenho vindo a desenvolver esse trabalho até hoje porque ainda não me senti saturado. Quem vê não se apercebe disso mas, ao trabalhar, percebes que há sempre maneiras de abordar o stencil de um modo ou muito pessoal, ou inovador. Temos o caso do Vhils, por exemplo, que usou a técnica do stencil para outro tipo de trabalhos que não são pintura. Hoje em dia – desde há um ano – o stencil deixou de ser o foco central do meu trabalho, ou seja, uso o stencil como base, mas a partir daí crio salpicos, queimo e crio texturas, por exemplo. Faço questão que o recorte do papel para o stencil seja manual para que o trabalho me pertença a 100%, desde a escolha das fotografias, impressão, corte, pintura e, por vezes, até à destruição. Quero que tudo seja meu. Há quem mande cortar o stencil, há quem faça trabalhos a meias, eu gosto de fazer tudo sozinho. Fico mais satisfeito se for tudo feito por mim.

Então como é o processo de trabalho com esta técnica?
Ainda não tiro fotografias. Vou avançando conforme as minhas possibilidades e, por isso, até agora só usei fotografias de outras pessoas, com a devida autorização. Selecciono a imagem, dou uns retoques em Photoshop para passar para layers e depois imprimo, corto e depois do corte estar feito, o stencil está pronto, e a partir daí é que entra a criatividade: a escolha das cores, mais ou menos pormenores, a criação dos fundos, etc. O stencil é a base de todo o meu trabalho.

Como fazes a selecção dos rostos que usas nas tuas pinturas? São pessoas que conheces?
Acho que nunca fiz nenhuma cara conhecida ou de outra pessoa. Por acaso, estou agora num projecto em que vou pintar a cara da minha namorada porque achei que se adaptava. O que tento encontrar são caras que se adaptem ao que me é pedido ou às ideias que tenho. Por norma são caras pesadas, de idosos, por causa das rugas. Se vires a cara de um velho, podes associar a milhentas pessoas do teu dia-a-dia, da tua família ou até tentas imaginar como serás, e através da expressão do olhar, tento criar no observador momentos de reflexão. Tento que não seja só uma pintura gira ou uma pintura “só porque sim”. Seria muito mais fácil para mim e para a divulgação do meu trabalho fazer caras famosas, mas como gosto de criar esse lado imaginário na cabeça do observador, um “anónimo” permite mais isso. Com as pessoas famosas, já há um pré-julgamento: se eu pintasse o Cristiano Ronaldo, os admiradores do Messi já não iam gostar.

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