ModaLisboa Vision: Dino Alves

Dino Alves tirou a inspiração do bolso para a colecção Outono/Inverno 14/15. A sério, tirou mesmo! O relevo das coisas que trazemos nos bolsos e o que essas coisas podem dizer sobre nós foi o ponto de partida para “Inside Out”. O conceito traduz-se nos detalhes como, num primeiro nível, o uso de bolsos em sítios inesperados, mas também em efeitos relevo que simulam objectos dentro da roupa e ilusões ópticas de volumetria. A silhueta é austera e geométrica, com contornos definidos.

Qual a Visão que antecedeu a sua colecção?
Foi uma visão Raio-X, praticamente! Foi uma ideia muito simples e banal, que é olhar para as pessoas e quando elas têm coisas também super simples como telefones, isqueiros, chaves, batom ou caneta dentro dos bolsos, cria sempre um registo, um volume e, às vezes, quando são calças de ganga, a ganga fica ruça e fica a marca destes objectos. Acho isso muito engraçado e fiz o passatempo de andar na rua e tentar adivinhar o que as pessoas têm dentro delas. Acho sempre que seria óptimo e fácil se pudéssemos, da mesma forma, ver o que as pessoas têm dentro de si próprias. Conseguimos ver uma data de coisas através do olhar: se é uma boa ou má pessoa, às vezes enganamo-nos, outras não. Então, romanceei um bocadinho e desenvolvi a colecção a partir daqui. Utilizei o bolso de forma metafórica e simbólica para contar esta história de bolsos que deixam de o ser e passam a ser volumes que saem da roupa.

Qual a Visão para o futuro da sua marca?
Penso sempre que não devíamos viver a Moda desta maneira. Temos de estar sempre a ultrapassar obstáculos e adversidades, e é pena quando uns ficam pelo caminho. Todos temos as mesmas dificuldades, uns numa altura, outros noutras. Eu sou mais teimoso e não me deixo vencer, mas há outros que não têm a mesma paciência e eu percebo perfeitamente. Eu próprio, muitas vezes, penso nisso. Nas vésperas de muitos desfiles, penso que não quero mais isto para a minha vida, mas depois não sei viver de outra maneira. O que peço é que consiga viver com conforto, sem ter estas angústias.

Qual a tua Visão da moda em Portugal?
Que mude alguma coisa que eu não sei explicar bem o que é, mas questiono sempre. Acho que as pessoas devem viver a Moda para além do evento. A Moda continua depois do desfile: nós temos ateliers, roupa, as nossas criações em lojas ou ateliers. Acho que existe um bocadinho o estigma do “inatingível” porque é uma peça de um criador. Precisam de ir ver se é inatingível ou não. Há peças de vários valores. Além disso, também é uma coisa cultural: as pessoas andam vestidas na rua, vêm aqui porque é interessante e gostam de fazer parte, mas depois do desfile não há pessoas que nos façam sentir razão de existir. Quando chega a “hora H”, as pessoas acham cara uma peça de 200 euros de um criador português, mas depois vão pagar o dobro por uma marca internacional e já ouvi vários comentários desse género. Se é uma questão de confiança na qualidade, têm de ir ver as peças!

Fotografia: Modalisboa/Rui Vasco