Pedro Limão, um admirável e delicioso recanto no Porto

Foi num daqueles passeios errantes pelas ruas do Porto - que tão frequentemente nos conduzem a lugares inesperados em locais também eles altamente ‘improváveis’ - que descobrimos o Pedro Limão, um espaço surpreendente e genuinamente inovador na sua original fórmula que em tudo se diferencia - e bem! - do actual panorama da restauração tal como o conhecemos.

Por Joana Jervell

Foi num daqueles passeios errantes pelas ruas do Porto – que tão frequentemente nos conduzem a lugares inesperados em locais também eles altamente ‘improváveis’ – que descobrimos o Pedro Limão, um espaço surpreendente e genuinamente inovador na sua original fórmula que em tudo se diferencia – e bem! – do actual panorama da restauração tal como o conhecemos. Após 8 anos de experiência nesta área, trabalhando não só em Portugal como no estrangeiro, e manifestamente inconformado com o modelo clássico e rígido praticado pela generalidade dos restaurantes, Pedro decide materializar a sua urgente vontade de explorar novos rumos na restauração e o resultado é um ‘non restaurant’, onde se vivem experiências gastronómicas (obviamente!), mas não só… Até porque há muito mais para descobrir uma vez atravessada a discreta porta deste seu peculiar espaço, inevitavelmente diferente desde o primeiro momento e onde literalmente, como nos diz Pedro, ‘primeiro estranha-se e depois entranha-se’. Não resistimos, naturalmente, ao desafiante convite e comprovamos não só a necessidade como o genuíno sentido e importância de abraçar um conceito como este. E sem falar na comida, que nos deixou rendidos…

Explica-nos o que se entende por um ‘non restaurant’?

Antes de mais trata-se de um local onde as características de serviço são muito diferentes daquelas que se vivem naquela que é a ‘realidade’ de um restaurante. Aqui não há lista nem preços… Quando as pessoas cá vêm pela 1ª vez fazemos questão de as deixar à vontade para valorizarem esse aspecto da maneira que quiserem e acharem mais adequada. Com o tempo e quando se cria uma relação de alguma regularidade há uma conversa informal sobre o que é efectivamente o ‘valor mais justo’. Daí termos criado um valor de referência – 30€ – sendo que este não surgiu da nossa parte mas sim daquilo que as pessoas foram deixando. Convém realçar que, sendo este um projecto flexível a todos os níveis (também é nesta vertente que nos diferenciamos dos restaurantes ‘convencionais’) se por exemplo tivermos uma reserva para um jantar de grupo em que nos estipulam um valor aproximado/menor do que esse, tentamos adaptar o menu, retirando um prato, alterando algum ingrediente, enfim… A ideia é as pessoas estarem aqui o tempo que quiserem, tal como se estivessem em casa de amigos ou de família. Podem circular à vontade, vir ter comigo enquanto cozinho – a cozinha é aberta – , fazer-me perguntas, fazer intervalos entre os pratos se assim o desejarem e nesse sentido não existem tempos estipulados para cada prato. Acredito que estas particularidades, sobretudo para uma pessoa que já viajou bastante e teve experiências consideráveis nesta área, têm um valor elevado. As pessoas a partir do momento em que aqui entram podem ficar até ao fecho, são elas que fazem o ritmo e se estiverem com pressa eu ando mais rápido, senão ando mais devagar. Tenho as coisas controladas e estruturadas para que um jantar possa demorar 5 horas ou 1 hora e meia.

O efeito surpresa, ao não existir uma ementa fixa, faz parte do conceito. Podes, no entanto, desvendar-nos um pouco a cozinha que aqui se pratica?

A ideia é as pessoas não terem conhecimento prévio do que vão provar e estarem receptivas à surpresa. Contudo, temos a preocupação de perguntar às pessoas se querem saber qual o alinhamento dos pratos ou se preferem ir descobrindo à medida que os vão saboreando. Regra geral, servimos entre 5 a 6 pratos, o vinho está incluído (e é à discrição!), havendo também o café e o digestivo. Os pratos são normalmente compostos por um molho-base que combina bem com o ingrediente principal, e por um acompanhamento de hidratos e outro vegetal. Também temos menus totalmente vegetarianos, que aliás fazemos bastante.

Tento usar o mais possível produtos portugueses e também recorro bastante à produção biológica. A inspiração é mediterrânica com especial incidência nos nossos produtos locais.

Pelo que sei nem sempre és tu a cozinhar…

Na maioria das vezes, sou, mas às vezes alternamos e fico eu a servir às mesas, ficando a cozinha a cargo de um amigo meu que é também chef. Trabalhamos com 4/5 pessoas fixas que vão rodando ao longo da semana mas há dias em que não estou no Porto ou não me apetece cozinhar. E nesses casos fica outra pessoa na cozinha, eu fico mais a conversar com os clientes. É o que vai acontecer amanhã por exemplo uma vez que eu estarei a fazer isto que faço aqui mas em Lisboa, para um aniversário.

Então além deste espaço, tens outros projectos paralelos. Conta-nos um pouco sobre isso…

Sim, não é só este o meu projecto e ando muito de um lado para o outro. Vou com frequência a casa de clientes que durante este tempo vieram cá muitas vezes, gostaram e começaram a chamar-me para ir a casa deles. Foi algo que aconteceu naturalmente, pois nunca fiz qualquer tipo de publicidade a este tipo de serviço. Actualmente tenho 3 grupos fixos que uma vez por mês me chamam. É algo que vai continuar a acontecer e é muito interessante entrar na cozinha de alguém, não saber onde estão as coisas, é um exercício que motiva. No fundo o Pedro Limão é como que um ‘andar modelo’ para o trabalho que podemos fazer, funciona como uma montra.

E qual a reacção inicial das pessoas quando aqui entram, tendo em conta a reduzida dimensão do espaço?

As pessoas que entram aqui pela 1ª vez estranham imenso o espaço, assustam-se! Somos naturalmente cuidadosos nessas situações, conversamos com as pessoas pondo-as à vontade e explicando o conceito. Servimos logo o vinho e colocamos alguns petiscos na mesa mas por vezes reparo que isso não é suficiente… Às vezes é preciso chegar ao segundo prato para que comecem a ‘relaxar’.

O espaço é, de facto, pequeno, e quem olha a olho nu para não acredita no que vai acontecer depois, na metamorfose que ocorre.

Dadas as limitações físicas é crucial haver uma enorme organização na parte da produção e do serviço, e é isso que me permite não só estar a cozinhar como também vir às mesas falar com as pessoas. Tudo o que eu não consigo fazer na hora acabo por desenvolver durante o dia com calma, vou às compras, os produtos são sempre frescos, para depois à noite estar relaxado, usufruir e ter o tal tempo que preciso para conviver com os clientes.

Qual o ambiente que quiseste dar?

A decoração é basicamente a decoração que tenho em minha casa. Há algumas pinturas minhas, no quarto de banho há o ‘Livro do Desassossego’ de Fernando Pessoa e recentemente fiz também uma edição de autor de poemas.  Por isso além de virem jantar podem igualmente ler os meus poemas… que não têm nada a ver com cozinha! É uma espécie de mini sala de jantar de ambiente muito familiar.

E qual o horário?

A partir de Março estamos abertos de Terça a Sábado, sendo que apenas abrimos ao jantar. Normalmente começamos às 20h mas, e uma vez mais reforçando o carácter versátil do Pedro Limão, se houver alguém que queira fazer um lanche tardio e queira vir às 18h30 não há problema… Só aconselho as pessoas a não virem muito depois das 22h.

Que outro género de eventos são organizados aqui?

No início tínhamos uma estrutura mensal de workshops pois é algo que gosto muito de fazer. As pessoas vinham a 4 sessões por mês. Agora não é tanto assim, essa iniciativa parte mais dos interessados: fazem-nos uma proposta, combina-se um dia, um tema e acontece. Começamos do zero, aprendem-se técnicas básicas (desde cortar a cebola e o alho), depois crescemos no menu, desenvolvemos 4 a 5 pratos e é algo que dura cerca de 3/4 horas, geralmente das 19h até à noite.

Após este ano e meio de actividade qual o feedback recebido?

As pessoas voltam e recomendam aos amigos. A publicidade que fazemos é praticamente nula, apenas via facebook e pouco mais… Às vezes sou quase ‘insultado’ porque me dizem que não conseguem encontrar o telefone na página (está no ‘About’, já agora!… e no fim deste artigo).

O que frequentemente acontece é que amigos trazem amigos, parte desse grupo traz outros amigos e é neste sistema que as pessoas nos vão descobrindo. Fora os curiosos que passam à porta e querem conhecer o espaço.

Em breve vamos mudar-nos para um novo espaço no Porto, o conceito será semelhante mas haverá outras surpresas interessantes que não posso revelar…

Claramente estaremos atentos! E para terminar, não resisto em perguntar: como surgiu o nome Pedro Limão?

Há uns anos atrás comecei a assinar os meus textos como Pedro Limão, surgiu-me da acidez da minha escrita… Até que uma amiga minha sugeriu-me chamar o espaço de Pedro Limão, pois remete não só a essa ligação com a gastronomia, já que se usa muito o limão na cozinha, como também é um nome que fica no ouvido. A verdade é que tem resultado bastante bem e acabou por ficar instituído não só para aqueles que me conheceram após este projecto, que foram muitos, como também para as pessoas da minha esfera mais pessoal.

Pedro Limão – Oficina de Cozinha
Rua Dr. Barbosa de Castro nº4
Porto

Reservas: 916836546.
Aqui fica o aviso: às Sextas e Sábados torna-se fundamental reservar mesa (durante a semana é mais fácil).

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