Samba Sem Mim

Caio Yurgel, o nosso correspondente em Berlim, acabou de publicar, pela editora brasileira Benvirá, o seu primeiro romance, Samba Sem Mim, uma história de exílios, onde o sentimento de não pertencer a nenhum lugar encontra, na cidade alemã, o reflexo da sua existência. Para os leitores da Janela Urbana, apresentamos um pequeno excerto do livro, enquanto esperamos um “Samba Sem Mim” publicado por cá.

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Das duas pessoas que se deve conhecer em Berlim, uma é uma montanha de carne e correntes postada de braços cruzados diante de um prédio em movimento, rebites de ferro feito constelações ao redor de narinas e ouvidos, flores que germinam das costas de suas mãos e espalham-se como arame farpado corpo afora, enforcam seu pescoço e cobrem metade de seu rosto. Atrás do homem há uma porta e atrás da porta há uma promessa, a promessa de algo eternamente inacabado. Diante do homem há uma fila de idiomas confusos e químicas baratas que o homem faz sumir com um aceno, a flor nas costas de sua mão flutua no escuro por um instante e retrai-se outra vez debaixo de sua axila, debaixo do brilho de sua jaqueta de couro, diante do sorriso de Anka.

O homem encara Anka e descruza os braços, encara Anka sem trair o controle de seu olhar, encara Anka e as estrelas em seu rosto refletem os faróis de um carro que dobra a esquina. Com os dedos o homem percorre o comprimento de seus longos cabelos grisalhos, ao redor dos dedos anéis em forma de caveira, no canto da boca a sugestão de um sorriso. Anka dá um passo em frente e planta na bochecha do homem um beijo que não é mais que a extensão de seus lábios e a leveza de seus pés. O homem dá um passo para o lado e Anka é engolida pelo vácuo de um ritmo que parece nascer de sua caixa torácica, um animal enjaulado em busca de vingança. O mundo lá fora deixa de existir. Todos aqui somos animais em busca de vingança.

As luzes por um segundo acesas apagam-se, deslizam pelas paredes, estilhaçam garrafas vazias no chão, explodem em mais azuis e vermelhos do que qualquer retina poderia dar conta, o teto é tão alto que é como se fosse o próprio céu. As leis da física aqui são outras, o tempo se perde no labirinto de corredores e inferninhos, a escuridão reflete em nádegas tão expostas quanto o concreto do piso, suores brotam feito pérolas dos pescoços de desconhecidos. Anka paga por uma garrafa de água o que ela não pagaria por um livro, toma um gole e joga a cabeça para trás, o grave é uma flecha que atravessa seu corpo e tudo o que existe é esse momento e quando esse momento acaba há outro mais.

Ela pede uma segunda garrafa de água e circula pela pista de dança, um pouco de água escorre pelos cantos de sua boca e a batida da música é indissociável da batida de seu coração. Não há espelhos no banheiro. A única medida de beleza é o olhar do outro, mas o outro não está nem aí. A única medida de beleza é a química barata que faz de todos os momentos o momento. Os dedos de alguém encontram os dedos de Anka e entrelaçados eles dançam, o mesmo alguém grita qualquer coisa incompreensível no ouvido de Anka e em resposta Anka sorri, mesmo que houvesse compreendido amanhã já teria esquecido, não há espelhos no banheiro e ela está com sede. Ela se vira para dizer que já volta mas já não há ninguém ao seu lado. Ela sobe até o bar que possui dois céus e apenas um deles é artificial, mas qual. Do outro lado das venezianas abertas o vermelho cobre a manhã em Berlim. Sobre a cidade paira uma camada fina de desalento, a angústia de tantas coisas ainda por fazer. Árvores tentam colorir a primavera mas tudo o que têm para oferecer são seus galhos ainda secos. Guindastes congestionam o horizonte como nuvens de chuva em uma previsão do tempo. As pessoas vêm a Berlim e vão de Berlim e ao lado de Anka um rapaz brinca com o suspensório colorido de outro rapaz, puxa, ameaça soltar, solta, os dois riem, as venezianas se fecham e ninguém mais sabe que horas são, Anka ri também. Quem vem para ficar em Berlim logo descobre que em Berlim deve-se aprender a não dormir, a trocar o almoço pelo café da manhã, a jogar água gelada no rosto e imaginar seu reflexo em um espelho inexistente, emergir do subterrâneo no meio do dia e tomar o S-Bahn até o trabalho, no caminho abrir um livro ou olhar pela janela e torcer para que a química barata dure mais uma hora ou cinco.

 

Mais informações em sambasemmim.tumblr.com

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