The Grand Budapest Hotel de Wes Anderson

Esta Primavera estreou The Grand Budapest Hotel, a obra-prima de Anderson, um filme que acumula toda a originalidade, a grandeza e os rasgos de genialidade dos filmes anteriores, mas que o eleva a pièce de résistance.

Ver um filme de Wes Anderson é ser catapultado com toda a veemência e acutilância para uma gramática estética que preenche, ocupa e se instala e, acima de tudo, injecta uma vontade súbita de pintar as paredes da casa recém arrendada de amarelo e laranja, e encetar um modo de vida que permita envergar diariamente fatos de treino da ADIDAS vermelhos e fazer com que a prole siga os passos. Se a filmografia de Anderson for dissecada com minúcia e precisão, podemos chegar à não assim tão brilhante conclusão de que houve, inexoravelmente, desde o começo da sua carreira, uma significativa capitalização dos argumentos, da direcção de arte, da direcção de actores e da realização. Rushmore, o segundo filme de Anderson circa 1998, protagonizado pelos dois actores fetiche do realizador do Texas, o narigudo e compacto Jason Schwartzman e o eternamente cool Bill Murray, é já um marcante início do estilo e cunho únicos que Anderson tem vindo a burilar e a apurar até aos dias de hoje. E depois temos os enredos macarrónicos e intrincados, carregados por um tom über surrealista e cáustico, como em The Royal Tenenbaums ou The Life Aquatic with Steve Zissou, ou as histórias naïve, mas soberbamente apaixonantes, de Moonrise Kingdom e de Fantastic Mr. Fox. Ou a realização irrepreensível e geométrica de The Darjeeling Limited, que acompanha uma viagem desmesuradamente insensata e desnorteada à Índia dos 3 actores com as características nasais mais particulares e proeminentes do estrelato americano: Owen Wilson, Adrien Brody e, o já repetente, Jason Schwartzman. A preocupação e desassossego de Anderson com a direcção de arte é tão contundente que em The Darjeeling Limited as malas de viagem carregadas pelos 3 hermanos durante o périplo indiano numa locomotiva foram concebidas de propósito no âmbito do filme pela marca Louis Vuitton, e assinadas por Marc Jacobs com a ajuda do realizador, para fazerem pandã com os fatos dos actores e com as cores do comboio. É mestria. É talento. É Wes Anderson.

Esta Primavera estreou The Grand Budapest Hotel, a obra-prima de Anderson, um filme que acumula toda a originalidade, a grandeza e os rasgos de genialidade dos filmes anteriores, mas que o eleva a pièce de résistance. O filme é inspirado em escritos de Stefan Zweig e conta a história de um concierge do Grand Budapest Hotel Monsieur Gustave H. (Ralph Fiennes), na ficcional e longínqua no tempo República de Zubrowka, que, durante uma altura de guerra, alia-se a um dos seus empregados do hotel, Young Zero Moustafa, numa peregrinação alucinante para provar que não foi o autor de um homicídio. A história é contada sob a forma de analepse a um hóspede do presente (Jude Law) através das memórias desse mesmo empregado (Tony Revolori), que, entretanto, se tornou o concierge do hotel. O enredo desenvolve-se de uma forma bastante exótica e inusitada, o que era já de esperar, mas desta vez Anderson fá-lo de uma maneira que joga à macaca entre o sublime, o excelso e o inigualável. O ponto forte do filme está na precisão da realização, no capricho e atenção que são concedidos a cada plano, com a câmara a ziguezaguear por entre as cenas, criando tableaux vivants que só comprovam a estética revigorante e astuta de Anderson.

Roxo, lilás, amarelo, vermelho. Bigodes, perucas, sapatos, objectos. Figurinos inesperados.  O detalhe e os pormenores são tão elevados que quase conseguem ultrapassar o conceito de perfeição, se é que a concretização de perfeição realmente exista. O formalismo técnico de Anderson atingiu com The Grand Budapest Hotel uma consubstanciação notável, coadjuvada pela interpretação escorreita e inatacável de Fiennes. O filme foi todo rodado na Alemanha e tem banda sonora de Alexandre Desplat, que já tinha trabalhado com o realizador em Fantastic Mr. Fox e Moonrise Kingdom. E para além de toda esta conjuntura por si só exremamente encantadora, o filme é ainda composto por um elenco de bradar aos céus. Tilda Swinton, completamente disforme na interpretação de uma velhaca podre de rica. Willem Dafoe a dar corpo a uma espécie de grindhouse murder, com direito a mota estilosa rockabilly. E Ralph Fiennes, em modo concierge meticuloso e hiper aprumado, numa interpretação ímpar e, provavelmente, a melhor de toda a sua carreira. E depois temos: Mathieu Amalric, Edward Norton, Jason Schwartzman, Bill Murray, Harvey Keitel, Adrien Brody, Owen Wilson e toda uma parafernália de outros actores e figurantes que compõem, até agora, O filme de 2014.

A verdade é que Wes Anderson se excedeu. O vocabulário estético que criou com os filmes anteriores é derrubado pela excelência de The Grand Budapest Hotel, que vai, naturalmente, tornar-se uma obra de culto. Desta vez é mesmo para não perder. Num cinema perto de si.

João Telmo
Contribuidor |

O João é encenador, figurinista, performer e... às vezes escreve para nós.