“Mambos de outros tipos”, faixa a faixa

Hoje sai o último trabalho dos Throes + The Shine, Mambos de outros tipos. Enquanto esperamos pelo concerto de apresentação, dia 3 de Maio no MusicBox, a Janela Urbana apresenta o álbum faixa a faixa, pela voz (escrita) da própria banda.

Hoje sai o último trabalho dos Throes + The Shine, “Mambos de outros tipos”. Enquanto esperamos pelo concerto de apresentação no dia 3 de Maio no MusicBox, a Janela Urbana apresenta o álbum faixa a faixa, pela voz (escrita) da própria banda.

 

Tuyeto Mukina

Esta música surge em primeiro lugar no disco e, por coincidência, foi a primeira música a ser passada para fita. Gravamo-la em Junho ou Julho de 2013 e surgiu de um conjunto de riffs que o Marco trouxe preparados de casa, acabando por estruturar-se muito naturalmente num ensaio com a banda inteira. Foi uma das primeiras tentativas focadas de mudarmos um pouco a sonoridade em relação ao primeiro disco e deu-nos vontade de tentar em mais temas. No geral houve uma procura em amadurecer as canções, tanto a nível instrumental como lírico. Houve um acordo entre a banda que as letras teriam de ser compostas de uma forma menos espontânea e mais pensada. Enquanto que no Rockuduro a maior parte da composição lírica aconteceu no estúdio, nas gravações do Mambos de Outros Tipos o mesmo já não se verificou, salvo uma ou duas excepções. O Diron e o André acabaram por andar de bloco na mão a escrever em casa, na rua, na faculdade, nos transportes públicos, onde a inspiração surgisse.

Mambo

Aqui há uma ponte entre o antes e o depois. Há uma música que foi deliberadamente estruturada em duas partes. O inicio é totalmente análogo ao Rockuduro, esparso e cru, sem grandes floreados. No entanto, quisemos que a música se expandisse na segunda metade e utilizamos uma instrumentação muito mais rica a partir desse momento, com imensas guitarras eléctricas e acústicas, órgãos e diversos reforços de voz. A dualidade de começos e finais com humores diferentes sempre foi uma forma muito própria de compormos e aqui não foi grande excepção, apenas tentamos dar ainda mais ênfase a esse aspeto. Isto também se transporta para as letras, sendo uma abreviação de Mambos de Outros Tipos, que procura transmitir ao longo da música que as pessoas podem gostar das diversas facetas que tentamos representar neste tema. Ou abanas a cabeça que nem um roqueiro, ou a bunda que nem um mwangolé.

No Kimbo\Na Aldeia

Foi uma das que tiveram um nascimento mais tardio e, de certa forma, complicado. Mas adoramos o resultado final. Todo a primeira metade centrada nos sintetizadores nasceu naturalmente num ensaio com apenas dois ou três membros da banda e em estúdio debatemos imensas ideias para o que seria o final e acabamos por explorar coros (pela primeira vez na banda) e percussão aliadas a uma guitarra loopada e disparada por um Line 6 DL-4. Para além de tudo isto, houve um esforço por focar a letra num espetro social mais consciente, transmitindo algumas das experiências da infância do Diron e do André. Houve uma procura por um paralelismo entre as dificuldades que algumas pessoas sofrem atualmente, com o que o Diron passou durante a sua infância em Angola. Mas apesar da fome, dos pés descalços e dos banhos de chuva, ainda recorda muitos momentos que deixam saudade dessa altura. Isto leva a que seja um dos temas mais alegres e positivos que fizemos até hoje e estamos ansiosos por o começar a tocar ao vivo.

Dombolo

A Dombolo é o primeiro single deste novo disco e é uma das musicas que surgiu de uma jam em ensaio e que pouco ou nada mudou desde a primeira vez que a tocamos. Partiu de uma brincadeira entre o Diron, o Igor e o Marco. Numa onda de vamos fazer um puro Kuduro. O facto é que todo o conjunto voz-ritmo-synth nos deu uma pica tremenda e saímos desse ensaio com o verso feito, com um instrumental mean e umas letras a puxarem os galões da agressividade do Kuduro mais clássico. No seguinte já estávamos a terminar a música com a banda inteira, criando uma segunda metade de alto contraste em relação à primeira. Em estúdio foi extremamente divertido de a gravar, com bastantes brincadeiras nos sintetizadores e um abuso do bassno Yamaha CS-3 e no Nord Lead 2. Ultimamente andamos a experimentar abrir os concertos com este tema e tem sido algo que temos gostado imenso, queremos mesmo tornar esta música num dos nossos trunfos de eleição ao vivo, dado o gozo tremendo que temos ao tocá-la.

Wazekele

Foi a última a ser gravada e a que surgiu através de um processo que nunca havia sido feito por nós. Optámos por tentar compor uma música com instrumentos que não nos eram familiares e que fosse feita puramente em estúdio a nível de composição. O mais engraçado é que acabou por passar por imensas fases diferentes e a primeira coisa a ficar foi o final, tendo os xilofones iniciais sido feitos a seguir, com uma bela parelha entre o Igor e o Claudio Tavares (produtor do disco) em tudo o que é percussão nesta canção. No entanto, a parte mais divertida acabaram por ser as vozes, com o Diron a carregar as dicas de mensagens e alguns improvisos pelo meio e terminando com os coros (uma bela ideia do Igor) a serem gravados pelo Diron, pelo Igor e pelo Marco, numa tarde de muita risota e boa disposição (haviam de ver a cara do Claudio durante o tracking!)

Triba Triba

A Triba Triba acaba por pertencer muito à malha sonora da Tuyeto Mukina, de uma forma consciente e propositada. Também acabou por sofrer um enriquecimento brutal em estúdio, com imensos overdubs e muito ear candy a ser gravado e composto on the fly. Foi uma adaptação muito grande para nós começar a repensar as músicas sem tanta distorção, por exemplo, o que acabou por abrir as portas a brincadeiras com harmonias que se calhar não funcionariam tão bem em texturas mais saturadas. A energia pura faz parte do que gostámos de fazer, mas foi refrescante abordar o mesmo tipo de swing, mas com trabalhos melódicos mais doces. Mesmo a nível lírico houve uma reformulação do que fazíamos antes, com algumas questões relativas ao posicionamento social sentido pelo Diron e pelo André bem explícitas nas estrofes de cada um, mas sem descuidar a cadências nos ritmos e linhas vocais que complementassem de forma muito acentuada as restantes melodias.

Tambora Bom

É a mais antiga que está neste disco. Já aparece nos nossos concertos desde 2012, tendo sido a primeira que compusemos em conjunto com o Brandão durante o Verão desse ano. Talvez por isso seja a mais semelhante ao que fazíamos no Rockuduro. No entanto, existiram muitas mudanças dentro da gravação. A estrutura base manteve-se, mas muitos detalhes e overdubs deram outro caráter à canção e elevaram a energia que tem, o que a torna uma das nossas preferidas ao vivo atualmente.

Maka

É, a par da Wazekele, a mais distante da nossa sonoridade inicial. Não há guitarras nem um traço rock marcado. Houve uma exploração de sintetizadores e quisemos dar um sentido mais hipnótico e circular à musica, com um refrão mais extenso e vocalizações que acabam por se sobrepor umas às outras. Foi uma experiência nova, uma vez que fizemos bastantes brincadeiras nos computadores com esta canção, algo que não aconteceu de todo no Rockuduro. Reflete um pouco o que este disco é nas nossas cabeças: um veículo de experimentação pessoal, onde cada um de nós tentou sair um pouco das zonas de conforto e explorar pontos distantes dos nossos hábitos, tentando chegar a um consenso final. Foi complicado aqui e ali, mas muito recompensador e divertido.

Tufuete

Foi a ultima música a surgir na sala de ensaios. O Marco e o Igor alinhavaram a estrutura num único ensaio e não houve muitas alterações estruturais a partir daí. Em estúdio acabamos por enriquecer as melodias principais com harmonias de apoio e com bastantes overdubs para darem um bocadinho mais de textura e dinâmica aos versos e aos refrões. As vozes surgiram depois, mas são um dos pontos mais fortes do tema, pelo menos para nós. O refrão e o crescendo que surge antes dele é uma manobra que não temos em mais nenhum tema e acaba por ser um dos momentos mais divertidos nestes novos concertos (se forem a algum, reparem no Igor a cantar em playback com o André. É bonito de se ver, juramos!).