NOS Primavera Sound – Dia 1

Texto: Viviana Martins
Fotografia: Luis Sustelo

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Já não conseguíamos dormir descansadinhos há um par de dias com aquele nervoso miudinho de voltar ao Parque da Cidade. Desde o ano passado, a nossa estreia no NOS Primavera Sound, em que fomos somente como espectadores, que este se tornou um dos nossos festivais preferidos. Paredes de Coura ainda se encontra no primeiro lugar da tabela, mas há qualquer coisa neste Primavera que nos faz pele galinha só de pensar no final de tarde na relva a ouvir (de certeza) uma boa banda e a comer umas pipocas oferecidas gentilmente por uma das marcas patrocinadoras (obrigada EDP) ou recordarmos uns Explosions in The Sky que quase nos levaram a lágrimas de tão transcendente que aquele concerto foi no ano passado. Ontem chegou finalmente o dia de rumar até ao Porto. Mal chegados ao recinto é impossível não reparar no bonito pórtico de entrada, o mais bonito que vimos até hoje. Com algumas novidades no recinto, mantém-se a essência do festival; o melhor ambiente, flores por todo lado, as maravilhosas mantinhas para a relva ou mais ao fim do dia para ajudar a esconder o frio, tudo decorado de forma simples mas cheio de beleza. Less is more. Vamos aos concertos. Neste primeiro dia de festival, só temos dois palcos a funcionar. Os da Cidade abriram as hostilidades no Palco NOS, o principal. Chegámos mesmo no final do concerto por isso corremos para o Palco Super Bock para não perdermos o arranque de Rodrigo Amarante. Cavalo tem tocado lá em casa desde o dia em que saiu para fora, ouvi-lo ao vivo era uma coisa que ansiávamos há muito. Desejo concretizado mas soube-nos a pouco. Foi bom ouvir a doce The Ribbon, dançar a eléctrica Hourglass e conhecer de perto o autor de um dos melhores álbuns do ano que passou. Seguem-se os Spoon no Palco principal e logo depois Sky Ferreira no Palco Super Bock.

Do concerto dos americanos Spoon destacamos The Way We Get By, que do pouco que conhecíamos da banda este foi um dos temas que mais gostamos de ouvir. Um concerto animado mas morno para uma banda que já anda na estrada desde os anos 90 – talvez o publico também não tenha ajudado com conversas paralelas na relva . Confessamos que Sky Ferreira nos causa uma certa comichão. É certo e sabido e não é de hoje que as estrelas rock tem por norma uma atitude irreverente e de certa forma rebelde, mas esta menina de 21 anos parece querer viver mais dessa atitude do que do que do talento propriamente dito. Isto é a nossa pequenina opinião, que ao pé da quantidade de fãs, em tremenda excitação que estavam nas primeiras filas, vale o que vale. Mas a medir pelos gritos, Sky Ferreira era muito esperada na noite de ontem. Arrastando-se (com estilo) de um lado para o outro palco, cantou-nos muitos dos temas que integram o seu ultimo álbum Night Time, My Time. Até acreditamos que a noite seja realmente o tempo dela, mas esta noite o compasso não acertou. A bossa nova é foda, é assim que Caetano Veloso começa o espectáculo. Se tínhamos uma imagem de um Caetano doce e tímido a cantar Sozinho, a partir da noite de ontem, essas memórias foram substituídas por um Caetano divertido, rockeiro e que ainda se mexe bem para a idade que traz no bolso. Leãozinho em versão reduzida ainda nos trouxe um bocadinho desse Caetano que falávamos ha pouco, mas os temas do seu novo álbum Abraçaço é que marcaram a noite. Caetano Veloso é o rei da musica brasileira e desse lugar ninguém o tira.

São muitos os que esperam as irmãs Haim. Um palco secundário completamente cheio recebe as meninas do momento. Bonitas e sempre com estilo em palco e de guitarras afinadas, Haim deram um dos concertos mais quentes da noite. Forever continua a ser a nossa favorita. Se haviam dúvidas se Kendrick Lamar se encaixaria bem neste festival, essas duvidas acabaram assim que o rapper californiano entrou em palco. Acompanhado por uma banda, o que é de aplaudir, Lamar fez do Parque da Cidade a sua casa. O artista mostrou-se muito comunicativo com o publico e isso fez as delicias dos fãs. Bitch Don’t Kill My VibeFucking Problems foram os mais celebrados. São muitos os que disseram que Kendrick trouxe o hip hop de volta (vêem-se muitos cartazes no público com declarações de amor) e nós concordamos, mas  vamos um bocadinho mais longe e dizemos que Lamar trouxe um novo hip hop que nunca antes se tinha feito. Este foi o melhor concerto da noite e de certo que ficará na história desta edição do NOS Primavera Sound. Kendrick Lamar é o maior e melhor do momento e prometeu cá voltar.