The Fashion World of Jean Paul Gaultier: From the Sidewalk to the Catwalk

Texto: João Telmo

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Jean Paul Gaultier podia nunca ter saído de Arcueil, Val-de-Marne e nunca ter-se mudado para Paris para trabalhar com Pierre Cardin. Jean Paul Gaultier podia nunca ter inventado saias para homens e nunca ter transformado aquilo a que comummente chamamos de underwear e torná-lo outerwear. Gaultier podia nunca ter-se apropriado dos tecidos listados, das golas à marinheiro, das riscas azuis e brancas e elevá-los à categoria de haute couture. Gaultier podia, até, nunca ter sido considerado, unanimemente, como o enfant terrible da moda francesa. Podia nunca ter inventado perfumes exóticos com invólucros arrojados de seios proeminentes e peitorais possantes. Jean Paul podia, inclusive, nunca ter feito a justaposição entre streetwear e alta costura.  De facto, Gaultier podia não ter feito muita coisa na sua longa e extremamente bem sucedida carreira encetada em 1971. Mas a verdade é que o fez de forma exemplar e irrepreensível, deixando, desde sempre e para sempre, os fashionistas e os trendsetters a babarem-se de comoção e reverência para aquele que é, inexoravelmente, um dos maiores artistas do século XX.

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The Fashion World of Jean Paul Gaultier: From the Sidewalk to the Catwalk em exibição no Barbican Centre em Londres
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The Fashion World of Jean Paul Gaultier: From the Sidewalk to the Catwalk em exibição no Barbican Centre em Londres

The Fashion World of Jean Paul Gaultier: From the Sidewalk to the Catwalk em exibição no Barbican Centre em Londres é a primeira grande exposição e retrospectiva dedicada ao couturier francês, um dos mais importantes e relevantes fashion designers das últimas décadas. A exposição assemelha-se a uma instalação teatral em 2 pisos com mais de 165 peças de cutting-edge couture e figurinos ready-to-wear, que são uma dissecação e escamoteação do universo provocador, über smart e ousado de Gaultier. Os leitmotifs da retrospectiva são aqueles que Gaultier tem vindo a ampliar e a apurar desde o início da sua carreira: o interesse incessante nos temas sociais, a questão da identidade e género (genderfuck), e a beleza que nasce a partir da diferença. A exposição apresenta figurinos de filmes e de performances, incluindo peças icónicas como os cónicos corpete e soutien que Madonna envergou durante a sua Blond Ambition Tour em 1990, figurinos desenhados para Kylie Minogue, Grace Jones e Lady Gaga, assim como peças criadas especificamente para os filmes de Pedro Almodóvar (Kika), Luc Besson (The Fifth Element), entre outros.

Numa forma de celebração do engenho, astúcia e sagacidade do designer francês, The Fashion World of Jean Paul Gaultier constrói a coreografia das influências que marcaram a evolução criativa do enfant terrible: desde as ruas de Paris à estética punk Do It Yourself, às fantasias de ficção científica. A exposição está dividida em 8 secções, sendo que cada uma delas está categorizada como: The Odyssey of Jean Paul Gaultier, Punk Cancan, Muses, The Boudoir, Metropolis, Eurotrash, Skin Deep and Urban Jungle. A retrospectiva exibe, igualmente, uma quantidade considerável de fotografias realizadas em colaborações entre Gaultier e Miles Aldridge, David LaChapelle, Peter Lindbergh, Pierre et Gilles, Herb Ritts, Stéphane Sednaoui, Cindy Sherman e Andy Warhol, assim como footage de passarela, concertos, vídeos de música, filmes e performances de dança. A secção da exposição Muses apresenta modelos, músicos e performers que serviram de inspiração ao criador, desde Naomi Campbell, Kate Moss e Erin O’Connor, a Beth Ditto e Ditta Von Teese. A retrospectiva apresenta, ainda, excertos de filmes e séries de televisão dos quais Jean Paul Gaultier fez parte, como a britcom Absolutely Fabulous ou o programa de televisão Eurotrash.

O acervo de Gaultier é impressionante, comovente e absolutamente jawbreaking. A obra que tem vindo a construir nas últimas 4 décadas é digna de passadeira vermelha, muito champanhe, coroação e flashes de câmara fotográfica a penetrarem a pele nas mais diversas direcções.

É caso para usar expressões idiomáticas e afirmar que o enfant terrible, definitivamente, mettre la main à la pâte. É caso para dizer: oh là là! É caso para nos metermos no próximo avião para Londres e cavalgarmos até ao Barbican. É caso para ir de kilt, camisola às riscas e chapéu de marinheiro. É caso para nos apaixonarmos por Jean Paul Gaultier e luxtime.su.