SHO(R)T: Alípio Padilha

Alípio Padilha © Stefania Silengo
Alípio Padilha é uma fotógrafo que vive em Lisboa e fotografa em Lisboa. Assume-se como uma voyeur e talvez por isso e pela sua curiosidade de ver o mundo "ao contrário", ou talvez isso signifique de uma forma de interpretação muito pessoal, resulte o seu trabalho, com tão específico e assim, tão especial.

Fotografia: Stefania Silengo

Alípio Padilha é uma fotógrafo que vive em Lisboa e fotografa em Lisboa. Assume-se como uma voyeur e talvez por isso e pela sua curiosidade de ver o mundo “ao contrário”, ou talvez isso signifique de uma forma de interpretação muito pessoal, resulte o seu trabalho, com tão específico e assim, tão especial. Fotógrafo, foto-jornalista, chamem-lhe o que quiserem, certo é que, o que surgiu como um “fruto proibido”, levou o seu nome a andar por ai espalhado em alguns dos melhores retratos e cliques que temos em Portugal.

Qual é a tua primeira memória?

Dobrar-me e olhar para trás de mim, por entre as minhas pernas. E ficar surpreendido com um ponto de vista diferente, invertido. A realidade aparecia-me diferente. Era segredo. Não contava a ninguém achava que era uma descoberta minha.

O que é que querias ser quando tinhas 12 anos?

Jornalista. Entrei para a rádio local e comecei a perceber que a área da comunicação e jornalismo era a que me interessava. Mais tarde isso concretizou-se e a ilusão desfez-se.

Uma palavra que odeias, e uma que amas…

Há muitas tanto de um lado como do outro, mas aqui vai uma escolha. Subserviência é um palavra que não gosto sequer de ouvir pelo que significa. Penso que Portugal ainda sofre muito desta doença. Uma forma de controle de limite à liberdade individual de manipulação para que sejamos de uma forma e não de outra. Curiosidade é, pelo contrário, uma palavra que gosto muito pelo que significa, pelas possibilidades que provoca e, até pela fonética rebuscada “Curiosity killed the cat but satisfaction brought it back”.

Uma coisa que nunca vestirias…

Não me lembro de muita coisa até porque fui mudando sempre de opinião. Mas não vestiria; nunca vesti, roupa feminina a menos que fosse para me rir às gargalhadas de mim próprio o que é coisa saudável também. Mas cores fluorescentes, e demasiado estampadas ou esse psicadelismo que está de volta, não me atraem de todo. Mas, pelo que disse há pouco, estamos sempre a mudar. Como um bom voyeur, quero passar despercebido.

O que tens na tua mesa de cabeceira neste momento?

“O Meu Amante de Domingo” da Alexandra Lucas Coelho. Gostei muito do “E a noite roda” da escrita desta jornalista/escritora. Descobri-a melhor, depois do discurso que fez na Gulbenkian quando recebeu o prémio APE onde esta mulher critica frontalmente o poder político. É um dos textos que vou buscar ainda em conversas entre amigos do mais completa e frontal (ainda por cima porque foi, por ela dito, tendo ao seu lado membros do governo). Gosto da escrita dela e das imagens claras que me faz construir. A revista Granta também anda sempre lá. Mas, recentemente reli um livro que li pela primeira vez muito novo: Um clássico do Eça, “A Cidade e as Serras”. Lido agora, achei-o estrondoso. Hoje continua a fazer tanto sentido, ainda por cima para alguém como eu que tem um educação rural e, entretanto, se tornou un flâneur em meio urbano. Foi tal a ligação com aquele livro que, numa visita que fiz a uma exposição ao Grand Palais, andei por lá nos Campos Elísios à procura do nº 202, e depois fui a Tornes à Fundação Eça de Queirós conhecer o cenário que inspirou o escritor.

A coisa que mais te enche de orgulho…

O olhar da minha avó para mim, a mulher que mais me inspirou, inspira e há-de inspirar! Amor sem condições. Ou quando vejo fotografias minhas impressas. Seja em jornais, seja em programas, seja em telas ou em discos. As primeiras foram no disco do Sérgio Godinho “Nove e meia no Maria Matos”. Não revelo o que senti realmente quando fui a correr comprar o disco assim que saiu. Mas quis ficar ali sozinho a aproveitar aquele momento.

Se a tua vida fosse uma cena de um filme qual seria?

Ena! São tantas as boas imagens com que me identifico. Poderia agora recorrer a qualquer cena dos filmes do Wong Kar-Wai, do Win Wenders, ou do Chris Marker, mas vou buscar uma das mais antigas memórias do cinema que anda comigo desde tenra idade, também de um clássico. Ainda hoje sinto o mesmo que senti quando vi e revi esta cena em VHS.

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