Eu ainda preferia ser o Mogli…

Convidámos o Zé Manel (aka Darko) a enviar-nos uma crónica semanal, totalmente descomprometida, sobre tudo e sobre nada! Esta semana, sem mais nem porquê, foi até ao Alvaláxia para assistir à estreia do filme O Livro da Selva de Jon Favreau...

Esta semana, sem mais nem porquê, dei comigo a encaminhar-me até ao Alvaláxia para assistir à estreia do filme O Livro da Selva de Jon Favreau. O dia estava da cor do ânimo dos portugueses perante a falta de celeridade a que o seu país se estabiliza e eu tive cá para mim que apostar numa terapia de pouco rebusque poderia resultar num final de tarde mais harmonioso.

A verdade é que não só calculei bem a coisa como dei por mim a reflectir sobre tantas questões superiores ao simples ímpeto de me refugiar numa fábula “infantil”. Não teve que ver com o desfile de actores consagrados que sonorizaram os exímiamente esculpidos animais que contracenaram com o pequeno Neel Sethi, único actor presente fisicamente na película, nem tão pouco com as óbvias reminiscências infantis que nos são sempre endereçadas pelo universo Disney.

Ao longo do filme consegui sentir amor, consegui gargalhar, lacrimejar e por fim e não menos importante, pelo contrário, aprender. Alheio a esta premissa básica sobre o que nos legítima a auto-proclamarmos a nossa supremacia diante do restante sistema ecológico e sobre as consequências naturais dos nossos actos que nos animalizam mais do que gostamos de acreditar, encontrei-me a questionar a componente educativa na arte contemporânea.

Na realidade, não seremos nós eternas crianças a precisar de constante orientação? Ou animais que precisam de limar constantemente o seu lado mais instintivo de forma a conseguirem estabelecer uma ligação com os que não lhes são semelhantes?

Foi a partir daqui que percebi que o universo Disney tem o condão de conseguir simplificar mensagens de fundo essencial e torná-las comunicáveis de uma forma compreensível por todos, apelativa aos sentidos mais básicos mas acima de tudo extremamente educativa na sombra da sua óbvia componente lúdica. A partir daqui comecei a pensar sobre como se perdeu a necessidade de se educar através do que se partilha e constrói. A ausência de utilidade na obra, tornando-a fútil e descartável ou para um entretenimento express que poucas memórias deixa e nenhum ensinamento proporciona. Basta pensarmos no panorama televisivo actual ou nas letras das canções que ouvimos na rádio.

As meninas costumavam querer ser princesas e emancipar-se do castelo para por si conheceram o mundo, mas hoje preferem ter o melhor decote do Snapchat enquanto os país acham lindamente que o mundo tenha vista directa para as suas intimidades. Os músicos costumavam querer falar sobre esperança e amor próprio, sobre a voz das minorias e sobre amores que originem longas metragens, hoje preferem sexualizar toda a sua obra, apelando ao lado mais primitivo da humanidade e escrevendo versos sobre rabos e respectiva dimensão.

As ovelhas seguem o pastor, os pastores são o dinheiro e os meios de comunicação e esses, preferem multiplicar rendimentos, visualizações e likes do que dedicar o seu tempo a pensar numa forma de traduzir matéria informativa útil num momento de lazer. É que dá trabalho entrar na cabeça das pessoas e querer educá-las quando isso é tão pouco divertido para ambos os intervenientes. O sentido de missão nos dias que corre é nulo. As coisas importantes são demasiado aborrecidas e complexas para que possam ser explicadas para quem vive na apologia do “yolo”. Torna-se mais simples rentabilizar a estupidificação das massas mesmo que isso nos custe a profundidade cultural e emocional de toda uma geração vindoura.

Mas a Disney consegue, sempre conseguiu, e não é um ídolo de infância. É um mestre de sempre. Intemporal e didáctico. Oxalá ainda consiga concorrer com as cenas de nudez em horário nobre. Eu ainda preferia ser o Mogli do que ser “top”.