Food Porn

Dentro da explosão de blogues de comida, programas televisivos de gastronomia, concursos internacionais de culinária e fotografia especializada na arte da cozinha, uma nova tendência surgiu: a Food Porn.

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Fotografia: Filipe Lucas Frazão (Chilli com Todos) e Joana Alves (Le Passe Vite)

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A Food Porn, ou Pornografia de Comida, é uma tendência inalienável das redes sociais e do fenómeno mundial da culinária de todos para todos. Não há certezas sobre onde nasceu ou quem criou o seu nome, mas sabe-se que quem olha para as fotos deste género fotográfico sentirá as glândulas salivares a trabalhar e o cérebro com tendência para respostas de compulsão. É ingénuo pensarmos que não somos afetados pelo impacto das imagens, porque a reação que provocam no cérebro é automática e está cientificamente comprovada. A Food Porn, ou a exímia arte de fotografar comida para ser cobiçada, colocou o verbo “babar” no pódio do léxico universal.

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Fotografia: Joana Alves

As raízes desta tendência remontam, pelo menos, a meados da década de 1990 quando alguns chefs internacionais publicavam os seus livros de cozinha em parceria com fotógrafos ilustres, abrindo caminho a um fenómeno que vinte anos depois aconteceria de forma massificada: a fotografia de comida, amadora ou profissional, ao dispor de todos. Em 1996 foi publicado o livro «Cooking with the seasons», livro seminal sobre a parceria entre um grande chef e um grande fotógrafo, onde o set fotográfico dava primazia à apresentação do prato. Era uma época em que o empratamento e a apresentação não estavam ao alcance de todos e o food styling era um estilo em voga: comida muitas vezes apresentada como arte, de empratamento refinado, fotografada de uma perspectiva similar àquela que costumamos ter quando vemos um prato de comida (de cima para baixo), mas ao mesmo tempo montada de uma forma que inevitavelmente criava um fosso entre o comum dos mortais e aqueles que cozinhavam e fotografavam com conhecimento. Este livro, da autoria do chef francês Jean-Louis Palladin e do fotógrafo Fred Maroon ainda hoje é uma referência para fotógrafos de comida e designers, cozinheiros e aspirantes a cozinheiros. Trata-se de uma publicação rara onde Jean-Louis (como era mundialmente conhecido) preparava o prato num rasgo de criatividade e colocava rapidamente a comida ou ingredientes em placas de acrílico como se fossem obras de arte. Maroon teria que fotografá-las de imediato. A comida não podia mudar de posição senão deixaria um rasto de molho ou gordura no acrílico e o pó do estúdio começaria a assentar e a fazer-se notar no acrílico também. Jean-Louis era genial nas suas criações e Maroon tinha de ser genial a captá-las naquelas condições.

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Fotografia: Joana Alves

Em geral as fotografias de comida publicadas em livros de receitas giravam em torno da originalidade ou experiência do cozinheiro e a apresentação da comida no prato ou na mesa era captada tal como o comensal olha para a mesa, a partir de cima.  Penso que nessa altura a fotografia de comida poderia comparar-se ao retrato clássico: era um registo quase formal para a posteridade. Mais recentemente Jamie Oliver foi um dos cozinheiros introduziu mudanças na forma de olhar e fotografar comida. Oliver preferia ser fotografado descontraidamente na cozinha ou junto dos ingredientes, apresentando-os como combustível pronto a entrar na boca fácil de reproduzir em casa de qualquer pessoa. O jovem cozinheiro inglês viajava pelo mundo para comer (daqueles sonhos que todos temos), falava apaixonadamente da gastronomia de outras culturas e cozinhava ingredientes frescos e da época, passando a ideia de que cozinhar de forma inteligente faz de nós pessoas bem mais fixes e interessantes. Com ele surge uma tríade de sucesso: emancipação, criatividade e autonomia na cozinha. Conquistou uma gigante franja da população que se mantinha afastada dos tachos ou que cozinhava comida pré-confecionada – os mais jovens e os homens – e abriu um precedente na forma como as publicações de cozinha (revistas inclusivé) passaram a fotografar e a tratar a comida. Para Oliver era importante valorizar os ingredientes como eles são, naturais e espontâneos. Mas claro que nada disto seria possível sem a parceria com o fotógrafo de comida David Loftus.

Enquanto que na publicidade e no food styling dos livros de culinária a comida não tinha (e não tem) necessariamente que ser bem cozinhada para a fotografia porque o que se pretende é uma foto com a finalidade comercial X ou Y, na Porn Food o processo é diferente. Neste género a comida fotografada faz explodir os sentidos a ponto de a sentirmos dentro da nossa boca. Ela foi cozinhada para ser comida, deixando-nos arrebatados pela sua tentadora aparência. Fotografa-se comida bem preparada e apresentada, verdadeira, muitas vezes já mordida e com marca das dentadas como se o naco estivesse ali para nós. A foto tirada de cima ainda é um dos planos privilegiados, mas hoje a tendência são os registos dinâmicos e íntimos, usando ingredientes frescos acabados de sair da horta e colocados de forma mal amanhada em cima de uma mesa, com o ar mais saudável e rural possível, ao mesmo tempo que se usa e abusa de close ups de pedaços suculentos e camadas empilhadas no prato em jeito de abundância lasciva sem qualquer pudor. Quanto mais sucos e molhos e polpas houver, ou quanto mais carnudo, acessível e sensual for o produto, mais pendentes ficamos a olhar para a imagem e maior será a resposta emocional do nosso cérebro. Ficamos viciados e a aguar.

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Fotografia: Filipe Lucas Frazão

As redes sociais tiveram um papel fundamental na divulgação da Porn Food que cada um fotografa em casa, no restaurante das batatas com paprika, no café de esquina das panquecas de Nutella ou na montra de loja carregada de cupcakes. Fotografar e partilhar comida de forma aleatória e intencional passou a ser uma tendência depois da democratização da arte da cozinha feita pelos imensos programas televisivos sobre gastronomia, concursos de culinária e blogues de comida que passaram a existir. Profissionais, amadores e comuns amantes de comida fotografam ou replicam fotos de outros na internet, fazendo da comida um dos assuntos mais procurados e partilhados desde sempre no Google. Se em Junho de 2012 procurar por ‘food porn’ no Google gerava 18 milhões de resultados, hoje a mesma dupla de palavras gera mais de 300 milhões.

É possível que a Food Porn se tenha tornado num género autónomo com os programas de cozinha da inglesa Nigella Lawson. É uma hipótese. Em 1999 ela arranca o seu primeiro programa televisivo, «Nigella Bites», e alcança sucesso imediato. Conhecida pelo estilo sensual que tanto agrada aos homens como às mulheres, Nigella passou a ser reconhecida como a rainha do Food Porn. A sensualidade do olhar direto, a forma como conversa com o telespetador e se movimenta pela cozinha, e as volumosas curvas do seu corpo fizeram de Nigella a nova diva do avental. Quando se pensa em comida e sensualidade o nome dela é consensual.

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Fotografia: Filipe Lucas Frazão

Os blogues de comida, por sua vez, ganharam um espaço imenso no universo digital. Nos últimos anos, em resposta ao crescente interesse por comida, por saber cozinhar e gastronomia do mundo, o cidadão comum passou a mostrar no seu blogue os seus dotes culinários e a fotografá-los, ou simplesmente a replicar fotos de blogueres, chefs e outros curiosos nas suas redes sociais. A partilha de imagens de comida transformou-se num fenómeno à escala mundial, a ponto de muitos blogueres desconhecidos passarem a assinar livros de culinária tal passou a ser o número de seguidores que ganharam na web. Foram criados  prémios de crítica só para os blogues de comida, e naturalmente que a este nível as parcerias entre cozinheiro e fotógrafo aumentaram e solidificaram-se. O nível da qualidade visual dos blogues aumentou, foi-se adaptando às características do momento e de cada sociedade, competindo com milhares de adversários nacionais e internacionais. Hoje há milhões de blogues de comida e outros tantos milhões de blogues de cozinha onde o autor prepara o prato, partilha a receita e fotografa, enquanto que noutras situações o autor cozinha enquanto que a fotografia fica  a cargo de alguém experiente em imagem, ou pode simplesmente tratar-se de um blogue agregador de fotografias pornográficas de comida repescadas de outros blogues como o famoso e exagerado Foodorexia. Há imensos estilos e formas de fazer conteúdos, no entanto há blogues que se diferenciam pelo bom casamento que fazem entre histórias reais,  intimidade com o leitor, receitas de qualidade, exaltação do campo com grande qualidade fotográfica e bem fazer com originalidade. Estes dão-nos muito mais do que uma receita bem cozinhada e bem fotografada. A título de exemplo destaco os internacionais premiados «Beyond the Plate», «Green Kitchen Stories» ou «Manger», e os portugueses «Chilli com Todos», «Le Passe Vite» ou «Gourmets Amadores», entre tantos outros.

Tal como na pornografia, a Food Porn exagera os atributos do produto mas este não deixa de ser real e existir para ser devorado, nem que seja com os olhos. Nem sempre a lascívia própria da pornografia está presente nos blogues que referimos, mas neles não falta a cobiça inerente à boa mesa e ao prazer da comida. Alguém consegue resistir?

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Fotografia: Joana Alves
Fotografia: Filipe Lucas Frazão
Fotografia: Filipe Lucas Frazão
Carla Isidoro

Iniciei a minha carreira em 1995 e depois de ter acumulado anos de experiência em jornalismo e feito investigação para agências de análise de tendências e consumo, optei por criar os meus serviços: consultoria e gestão de comunicação para empreendedores, negócios inovadores, agentes culturais e artistas que marcam a diferença no mercado onde se inscrevem.

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