Zoë Melo

Zoë é o nome simpático que apresenta esta brasileira que já foi modelo profissional, correu mundo, viveu em Portugal e hoje, a partir de Los Angeles nos Estados Unidos, propõe-se “tocar” o mundo com o eco-design...

Zoë é o nome simpático que apresenta esta brasileira que já foi modelo profissional, correu mundo, viveu em Portugal e hoje, a partir de Los Angeles nos Estados Unidos, propõe-se “tocar” o mundo com o eco-design. Zoë promove produtos sustentáveis que marcam o futuro do design na TOUCH, um showroom onde estão representados vários projectos de designers portugueses.

Janela Urbana: Consultora de Design, modelo profissonal ou activista ambiental. Quem és tu Zoë Melo?
Zoë Melo: Já não sou modelo. Actualmente sou consultora de design de produto. Trabalho com designers, associações sem fins lucrativos e com empresas interessadas em desenvolver políticas sustentáveis ou práticas de eco-design. Sou proprietária da TOUCH, em conjunto com o meu sócio Peter Scherrer do Studio Mousetrap . Na TOUCH comissario, desenvolvo produtos e projectos de design social e eco-design. A actividade da TOUCH apoia associações ambientais através do 1% for the planet, um programa criado por uma organização sem fins lucrativos americana.

Nos anos 80 e 90, vivi em Nova Iorque, em São Paulo e em Lisboa. Em Lisboa trabalhei com o Filipe Faísca , com a Ana Salazar , e fui modelo da Central Models . Também trabalhei para o Manuel Reis no Frágil e na Loja da Atalaia.

Em 1998, voltei aos Estados Unidos e mudei-me para Los Angeles. Continuei a trabalhar como modelo, mas em 2000 fiz a minha última sessão fotográfica com a fotógrafa Veronique Vial. Depois disso, fiz uma grande mudança na minha vida, não queria voltar ao universo da moda, mas gostava de continuar a trabalhar na área da criação. Queria encontrar um novo significado para o meu trabalho, numa área menos efémera e, como sempre tive paixão pela arte e pelo design industrial, graças a ter trabalhado com pessoas estimulantes como o Manuel Reis, com designers e arquitectos, exercitei os meus interesses e desenvolvi um forte sentido estético.

Tinha um novo desafio, o design, e precisava de conhecer o negócio, por isso, empreguei-me no melhor showroom de Los Angeles, onde trabalhei durante alguns anos. No showroom IN~EX, trabalhei com grandes marcas como a Moroso, Molteni, Ycami, Anta, Danskina, entre outras. Depois saí para fundar a minha própria empresa, a CZ Works, com o arquitecto Charles Swanson. Na CZ comecei a desenvolver produtos e a comissariar exposições, sobretudo, com peças únicas, produtos feitos à mão e ecologicamente correctos, além de projectos de design de interiores. Em 2005 conheci Enrico Bressan dono da Artecnica e tornei-me representante da marca, com a responsabilidade de introduzir a sua linha de produtos no Brasil, em especial, a linha do designer Tord Boontje. Após esta experiência, fui convidada a dirigir o departamento de desenvolvimento de produtos da Artecnica, onde trabalhei durante 2 anos. Fui responsável pelo desenvolvimento de produtos de designers como Tord Boontje, Hella Jongerious, Irmãos Campana, Joris Laarman, Steven Burks, Takashi Isheguro, entre muitos outros.

Em 2007, achei que tinha chegado à altura de implementar a minha visão pessoal e fundei juntamente com o meu sócio a TOUCH.

Fazendo um balanço do teu percurso profissional, qual foi o projecto que te deu mais prazer desenvolver?
É difícil eleger um. Como modelo gostei muito de fazer as Manobras de Maio, fiz um desfile com o Filipe Faísca e foi fantástico, muito divertido.

Também gostei de desenvolver a “Beads and Pieces”, uma colecção de taças de cerâmica da designer Hella Jongerious para a Artecnica, integrada no programa da marca “Design com consciência”. Fui responsável pela coordenação integral do projecto, o que me permitiu viajar várias vezes para o Peru e trabalhar com os artesãos locais. Motivou-me, sobretudo, implementar um projecto de design num país em vias de desenvolvimento, foi um desafio colossal, mas muito gratificante. O meu papel era o de uma produtora, que precisava compreender a visão do designer e, em simultâneo, o talento dos artesãos, juntando ambos os valores na criação de um produto final, o mais fiel possível ao projecto idealizado. Penso que a compreensão do valor de ambos, designers e artesãos, foi essencial para obter o melhor rendimento criativo. No final, senti-me realizada, porque consegui alcançar o inimaginável. Este projecto foi de facto um verdadeiro exemplo de intercâmbio cultural no contexto global. O projecto recebeu o prémio de “Melhor Acessório” durante a ICFF em Nova Iorque, 2006.

Por último a TOUCH, é muito divertido, é provavelmente o que me dá mais prazer, porque é o trabalho com que sempre sonhei. O contacto com as pessoas envolvidas é muito directo, o que é fundamental e constitui a cultura que procuramos imprimir à nossa marca. Sinto que somos uma equipa, que estamos juntos neste desafio, adoro trabalhar com os designers, com os artesãos, e todas as fases do projecto são importantes para mim. Acredito que a marca TOUCH representa o futuro, um futuro no qual as empresas terão de compreender que têm de melhorar os seus serviços e produtos, para poder comunicar e relacionar-se com os seus clientes. Não precisamos de muitos produtos, precisamos sim de histórias que nos relacionem, produtos com uma narrativa mais rica e um sentido próprio.

És uma profissional com um pensamento global, como defines a cidade de Los Angeles enquanto “casa” para o teu trabalho actual?
Los Angeles é hoje a minha base. Esta cidade deu-me a oportunidade de recomeçar, de reinventar-me pessoal e profissionalmente. É uma cidade muito cosmopolita o que me permite contactar permanentemente com todo o mundo. É também uma cidade muito avançada e inovadora no campo da tecnologia e, sendo empreendedora, LA abre-me muitas oportunidades. Para além disso, é uma cidade tão grande que me garante um certo anonimato, o que aprecio e me ajuda a focar no que realmente interessa, os meus próprios projectos.

O quê e a quem pretendes “tocar” com o teu projecto actual? Quais as principais expectativas e desafios para a TOUCH?
Queremos “tocar” várias comunidades:
Chegar à comunidade dos designers e engajar o nosso discurso. Um bom exemplo disto, são as nossas “DinnerTalks” (conversas ao jantar), um jantar com 12 convidados para uma conversa à volta da mesa sobre design.
Queremos “tocar” os consumidores, mostrando-lhes que existem excelentes produtos de design, resultantes de grandes projectos e com uma boa história para contar.
Queremos “tocar” os retalhistas para acrescentarem à sua oferta produtos que são mais do que apenas uma forma.
Por último, queremos chegar aos nossos vizinhos, à comunidade onde a TOUCH se insere.

Expectativas? Espero e estou convicta que podemos ter sucesso e marcar a diferença. Desafios? Bem, não planeamos uma crise financeira tão grave como a que estamos a atravessar, por isso, conseguir atravessar a tempestade sem abrandar muito o ritmo é o nosso maior desafio actual.

Fala-nos acerca dos designers com quem trabalhas, como seleccionas os teus talentos e que perfis de designers ou de produtos gostarias de conhecer no futuro?
Depois de ter trabalhado com alguns dos mais importantes designers industriais contemporâneos, senti a necessidade de restabelecer contacto com os designers emergentes da América do Sul e de Portugal. Senti que a minha experiência internacional poderia contribuir para acelerar a sua entrada no mercado.

Selecciono os designers com que trabalho com base na história que eles têm para contar, os materiais que usam, as técnicas que aplicam e como são produzidos os seus produtos. A função e a forma também são determinantes, por isso, a chave da selecção está na combinação de todos estes elementos para a criação de uma história final. Penso que o meu trabalho vai para além da curadoria, a minha experiência em desenvolvimento de produtos permite-me compreender e contribuir para o processo de criação de forma mais abrangente. Também conheço o mercado e sei quando um produto é adequado ou, pelo contrário, quando precisa de ser ajustado. Apoio a criação da “embalagem” e ajudo a promover os produtos. O processo de criação de um produto é bastante complexo e por vezes exige muito tempo.

Sabemos que trabalhas na TOUCH com pelo menos dois projectos de eco-design português, a Re-volta das Embalagens da Blindesign e o News do Studio Veríssimo, estes projectos são um sucesso? Pensas trabalhar com outros designers portugueses?
Conheci o Cláudio Cardoso do Studio Veríssimo em 2006 no Japão, durante o 100% design de Tokyo. Na minha última viagem a Lisboa fiquei a conhecer a sua parceira, a Telma Veríssimo,  e decidimos começar a trabalhar juntos. Gosto muito do trabalho desta dupla, é divertido, criativo e muito bem estruturado.

A Blindesign, descobri no espaço YRON, durante a minha última viagem a Lisboa no ano passado. A Sílvia Escórcio deu-me o contacto da Rita Melo e da Rita Carrilho, falámos de imediato e levei comigo algumas peças da Re-volta das Embalagens para a uma viagem a Milão, durante a Feira de Design. Usei as minhas malas Re-volta das Embalagens durante toda a estadia e a reacção das pessoas foi surpreendente, todos queriam uma mala e vinham perguntar-me onde as tinha comprado. Desde então, temos tido uma colaboração fantástica, a Re-volta das Embalagens é um óptimo projecto, valorizo a missão social dos seus objectos de design e acredito que a Blindesign tornar-se-á um projecto sustentável. É um prazer apoiá-lo. O custo e a produção dos produtos ainda são grandes desafios, vendemos para um número limitado de lojas, porque a produção é pequena, mas os consumidores estão a começar a perceber o valor dos produtos e as vendas da Re-volta das Embalagens estão a aumentar. Em Abril, as lojas da MOMA em Nova Iorque irão expor e vender doze dos nossos produtos, portanto, estamos muito contentes com esta conquista.

Para além destes dois projectos, também trabalhamos com a Rita Botelho e com a  Raquel Soares, ambas portuguesas. A Rita é uma jovem designer com muito talento, a sua colecção “second chance” é uma excelente ideia, os matariais que usa na produção dos seus produtos não são reciclados, mas ela reutiliza produtos já existentes, dando-lhes novo uso. Estes produtos já estão na cadeia de produção, por isso, ela poupa no desenvolvimento, na energia e em todos os recursos de produção desta colecção.

A Raquel é outro talento muito especial, é designer de jóias, arquitecta e, por coincidência, também era modelo… por isso a nossa afinidade foi quase imediata. Trouxe algumas das suas peças de joalharia para a TOUCH e, ao visionar um vídeo que ela produziu para uma das suas exposições, vi um candeeiro muito simples e bonito, pedi-lhe logo o protótipo. Actualmente estamos a pensar transformar este candeeiro num projecto de “design social”, entregando a sua produção a uma comunidade de artesãos da América do Sul.

Existem outros designers e projectos Portugueses com quem adoraria trabalhar: Design for Future, The Home Project, Pedrita, Sandra Guerreiro, entre outros. Portugal tem designers de muito talento e espero um dia vir a colaborar com todos deles de alguma forma.

Viveste em Portugal durante algum tempo, o que sentes pelo nosso país e como caracterizas o design e os designers Portugueses, tendo em conta as principais tendências do design, em especial, no contexto do eco-design?
Eu sou apaixonada por Portugal e todas as pessoas que me conhecem sabem-no, não é nenhum segredo. É um dos lugares do mundo onde mais me sinto em casa. Tenho grandes amigos portugueses e isso cria uma grande ligação ao país.

O contacto que tenho mantido com as novas gerações de designers portugueses é muito estimulante. Têm ideias novas e considero o seu trabalho muito competitivo ao nível do mercado internacional. As criações dos designers portugueses são líricas, poéticas, exactamente como o Portugal que eu conheço, em simultâneo, trabalham muito bem os materiais disponíveis, conjugando os seus contextos culturais e sociais.

A primeira vez que tive contacto com produtos de eco-design portugueses foi em Milão, na exposição Re-Made e fiquei impressionada. Na altura estava ocupada com outros projectos profissionais, mas senti logo a necessidade de voltar a Portugal para actualizar-me sobre os talentos locais. Sou amiga da Cristina Filipe da PIN e ela apresentou-me ao Fernando Brízio, um designer que muito admiro. Já tinha visto os seus produtos na galeria KREO em Paris e apaixonei-me pelo seu trabalho meticuloso, significativo e refrescante.

Através da TOUCH acredito que poderei colaborar com estes e outros designers, retribuindo de alguma forma o que Portugal me deu. Quero mostrar o trabalho dos designers portugueses ao mundo, contar as suas histórias, apresentar os seus materiais e promover os seus projectos.

Para além das visitas regulares para conheceres designers, fazer turismo ou reencontrar amigos, gostarias de vir a trabalhar com ou no nosso país, quem sabe através de uma TOUCH Portugal?
Adorava ter a TOUCH em Portugal, para já a marca está a afirmar-se no mercado, mas o nosso objectivo é de conseguir expandi-la a outras cidades do mundo. A TOUCH não é apenas um showroom, é também um espaço para recolher informação sobre design social e eco-design, é um laboratório de ideias, projectos e pessoas.

Por agora… penso que poderei começar por agendar um DinnerTalk em Lisboa.

Tendo em conta o teu trabalho na área do eco-design, como avalias o impacto desta disciplina no âmbito global do design? Quais são os maiores desafios que os eco-designers enfrentam no presente?
Acredito que estamos a começar uma nova era, na qual nos vemos obrigados a mudar, a repensar o nosso modo de vida e a racionalizar a forma como utilizados os nossos recursos. Penso que o eco-design está para ficar… não temos outra opção. Existem empresas que estão a usar o eco-design como estratégia superficial de auto-promoção, mas em paralelo existem outras empresas e designers que percebem que é fundamental integrar os aspectos social e ecológico nas suas agendas. A tecnologia disponível permite-nos repensar a forma como fabricamos os nossos produtos, o aquecimento global é uma realidade e acho que acabar radicalmente com o consumo não é a solução. Precisamos, sim, de encontrar formas de renovar energia, de reciclar e de reeducar-nos. Sustentabilidade e responsabilidade social devem ser conceitos e práticas presentes no nosso dia-a-dia. Por isso, quero que a TOUCH seja uma plataforma de produtos que comuniquem todos estes aspectos no seu próprio processo de design.

Existem muitos desafios, estamos a atravessar uma crise financeira mundial, mas encaro este facto como uma oportunidade. Finalmente vemos-nos forçados a criar produtos mais duráveis, a gastar menos e a considerar o nosso impacto real no meio ambiente. Acredito que os consumidores são cada vez mais selectivos e exigentes. Existem demasiados maus exemplos de design no mercado, por isso nada mais natural do que consumir menos e produzir menos. Na TOUCH estamos focados, avançamos calmamente, mas chegámos para ficar, porque somos um negócio saudável, onde todas as pessoas envolvidas são bem recompensadas e felizes.

Neste contexto, a educação também é fundamental. Colaboro com a StraaT uma organização brasileira que promove a formação na área do desenvolvimento de produtos de “design social”. Já desenvolveram projectos com a  Droog Design e com The Design Academy of Eindholven, em parceria com comunidades de artesãos. No ano passado, desafiei dois estudantes americanos e uma designer canadiana, que me haviam contactado para estagiar e trabalhar, a terem uma experiência real de trabalho e a desenvolverem um produto baseado na metodologia da StraaT. Após terem frequentado o programa de seis semanas de formação, onde tiverem oportunidade de viver e conviver com artesãos, regressaram com uma nova perspectiva sobre o design e sobre a produção em massa. Actualmente, estes três profissionais, pretendem desenvolver o seu trabalho em projectos com objectivos sociais.

Por último, acredito que chegou à hora de repensarmos a forma como vivemos, de nos reinventarmos enquanto pessoas e de incorporarmos práticas mais sustentáveis no nosso trabalho e na nossa vida.

www.zoemelo.com


11914 Washington Blvd.
Los Angeles, ca 90066
T. (001) 310 397 3575
www.do-not-touch.com

Tags from the story
, ,

Deixa-nos o teu comentário: