O ritual da Sensação

A apostar numa maior interacção e imersão do público nas obras que cria, o artista, originário de São Paulo, chega agora a Lisboa com um projecto ambicioso: criar o seu primeiro templo ecuménico em espaço aberto. Uma iniciativa a par do festival Pedras d’Água organizado pelo Centro Em Movimento (C.E.M.) e que, por certo, despertará o público português para as suas crenças e ideias fixas.

Fotografia: Nick Gurney

Num trabalho influenciado por uma infância relacionada directamente com a religião e a sua formação colegial, há uma complementaridade que surge da sua adolescência e da vontade desta romper com os seus valores. “Foi quando me comecei a interessar por política, principalmente pelo anarquismo e anarco-comunismo, que comecei a dar mais atenção à maneira como as religiões dominam e controlam a mente das pessoas”, diz Stephan Doitschinoff. O resultado é uma linha ilustrativa com referências base do estudo de diversas religiões, orientais e ocidentais, aliadas à analise da psicologia colectiva e individual, bem como a mecanismos de controlo mental.  A cobrir paredes, telas, esculturas e, mais recentemente, instalações e performances, é um trabalho que já o levou a receber condecorações, uma das quais a de Artista Revelação 2009 no Brasil.

Contudo, é na sua noção de limites que Stephan Doitschinoff se distingue de outros tantos artistas. Capaz de levar a cabo projectos de grande dimensão, foi através do seu trabalho nas comunidades rurais de Lençóis que começou a obter maior projecção . Ao revelar uma vila deste município completamente coberta pelos seus murais, incluíu ainda o cemitério e a igreja, sempre respeitando as crenças locais e as suas representações religiosas num trabalho desenvolvido com a comunidade. Agora em Portugal, depois de uma igual pesquisa das tradições e características folcloricas portuguesas, prepara-se para neste templo não só as representar como dar-lhes vida numa performance de encerro da exposição.

Em conversa com a Janela Urbana, Stephan Doitschinoff revela um pouco da ideia e do seu próprio trabalho.

Janela Urbana: Como é que surgiu a ideia para um trabalho destes em Portugal?
Stephan Doitschinoff: Foi um convite. Já estava em contacto com o Carlos Alcobia (curador independente) e aí, quando estávamos em São Paulo, no meu estúdio, começamos a falar na pesquisa das festas populares e nas que eu já tinha feito há algum tempo para o meu projecto na Baía. E falamos muito sobre as festas populares, o folclore local e as influências que vieram de Portugal para o Brasil.E nessa mesma época surgiu o convite do C.E.M. através da Paula Petreca, para eu vir aqui e interagir com a arquitectura da Mouraria.

E confirmaste essas influências quando aqui chegaste a Portugal?
Foi muito interessante. A cultura no Brasil, as festas populares, é uma mistura do católico com a cultura africana. Mas mesmo esta já veio impregnada pela cultura portuguesa porque eles chegaram lá 150 anos antes de chegarem ao Brasil. E então já vem um pouco misturado. Claro que ainda há diferenças, porque nós ainda temos a cultura indígena, da Amazónia, e tem essa diferença. Mas há uma semelhança mesmo assim, porque mesmo essa cultura pagã é pré-cristã e por isso tem semelhanças com as culturas pré-cristãs, africanas ou indígenas.

Como é que fizeste a tua pesquisa em Portugal pelas raízes dos folclores e tradições?
Então, a pesquisa foi algo que eu fiz logo assim que cheguei a Portugal e foi muito interessante. Para fazer o que fiz nos museus nos últimos três anos em exposições anteriores, pesquisei no interior do Brasil. E para fazer esta performance achei muito importante fazer o mesmo processo. É essencial ir à raiz, à região, conhecer as pessoas, os artesãos mais ligados às máscaras ibéricas e trajes tradicionais. Estivemos ainda em contacto com pesquisadores das marcaras e das tradições, como o Dr. António Tiza.

Qual foi a ideia que surgiu para  tua performance? Como é que a vais executar?
A ideia deste convite era de criar uma intimidade religiosa com um ambiente fechado. Trabalhar com o tecto, as paredes e o chão. Portanto, a minha ideia é criar um espaço ecuménico, um templo que não vai ser dedicado a nenhuma religião ou instituição específica. Irá estar uma escultura de cimento no altar, uma pintura de mural e a instalação de bandeiras estampadas. E este templo, vai ser a inversão de um templo cristão, que normalmente tem um símbolo de uma orbe – um mundo – com uma cruz em cima. A representação do domínio da religião sobre o mundo da natureza, o instinto, as sensações. Aqui é o contrário. Por exemplo tens o altar com a representação de uma planta com corpo humano, uma sexualidade bem representada, e um genuflexório em frente. É um culto ao retorno ao natural, à natureza, ao corpo, à sensação e ao sentimento em vez do pensamento e da racionalidade.

…em relação à performance final?
A performance vai ser o diabo! (risos) A performance é uma segunda parte deste trabalho e será a continuação de uma primeira performance que fiz em São Paulo o ano passado e que vou apresentar na Faculdade de Belas Artes no dia 5 de Julho. E essa performance será a mistura do meu universo com o universo das festas pagãs tradicionais, resultado da pesquisa que realizei aqui em Portugal. Estou a trabalhar com alguns artesãos e artistas de Lisboa, e ainda com uma estilista e costureira para fazer as esculturas, as máscaras e os fatos, que as pessoas vão estar a vestir e a usar .

Qual é a principal mensagem que queres transmitir com este trabalho?
A mensagem principal é a reflexão, a brevidade e a inconstância das coisas e da importância de revermos as nossas crenças periodicamente. Principalmente as que temos mais certezas. É por isso que jogo com temas de Vida, temas universais e que na cabeça de muitos são verdades inflexíveis. Acho importante colocar esse tipo de reflexões e afirmações para estimular o pensamento, a conversa, o debate. Neste trabalho o público vai entrar dentro da obra e pode interagir com ela ao colocar oferendas no altar e ao participar na procissão. E isso também faz parte da minha pesquisa. O processo do que acontece dentro de um templo religioso e de como as pessoas se comportam e interagem dentro dele. As pessoas que acompanham a arte contemporânea hoje em dia nunca acompanharam um ritual, por exemplo, de uma igreja. E ali elas participam como se estivessem seguras e protegidas por uma camada de contemporaneidade. E isso é algo que só se apercebem quando postas em confronto com o que fazem.

Como é que chegaste a esta relação com as temáticas religiosas e ao explorar destes conceitos?
Eu tive uma infância muito religiosa e por isso sempre foi algo que esteve por perto. Mas foi quando me interessei por política, na minha adolescência, que comecei a dar mais atenção À maneira como as religiões dominam e controlam as pessoas. Inicialmente foi para entender esse controlo e esse fascínio das pessoas, de como é fácil e eficaz controlar através de um símbolo e código de regras, e a partir daí fui estudando diferentes religiões, orientais e ocidentais, e comecei a achar semelhanças entre elas. Fiquei maravilhado com a complexidade e riqueza dos arquétipos e símbolos e da forma como agem na psique humana.

Qual é a tua relação com a religiosidade?
Eu acredito que é tudo natural. As pessoas dão muitos termos de sobrenatural, enquanto para mim é tudo o mesmo, natural. A minha visão é bem simples, bem básica.

Obrigado

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