Mesa de Mistura – A “retromania” chegou aos anos 90

Foto: João Bacelar
O Davide Pinheiro é jornalista, dj e, recentemente, invadiu a blogosfera com a sua Mesa de Mistura. Convidámo-lo a partilhar connosco as opiniões sobre música.
[wide]
Foto: João Bacelar
Foto: João Bacelar
[/wide]
O Davide Pinheiro é jornalista, dj e, recentemente, invadiu a blogosfera com a sua Mesa de Mistura. Convidámo-lo a partilhar connosco as opiniões sobre música. 
A acção gera reacção e quando o rock voltou a ganhar tempo de antena no final dos anos 80, havia uma agenda implícita de desalojamento de uma música tida como plástica que sinalizava uma época que então se finava. Dos Wham aos Duran Duran passando por Madonna, bandas de Seattle como Dinosaur Jr. e Jesus Lizard e outras musicalmente parentes como os Pixies, trataram de destronar um edifício de baterias electrónicas. Quando estes nomes surgiram, já a pop se deixava contaminar pela música electrónica de dança que então se desenvolvia em cidades como Detroit ou Chicago.
À entrada para a década de 90, a semente do que viriam a ser os anos seguintes já estava no solo: Seattle era a meca do rock, o trip-hop nascia em Bristol, o hip-hop cobria-se de flores, o techno descia à cave e o house gerava óptimas canções. Vinte anos depois, é justo reconhecer que os anos 90 estão de volta. Com uma diferença. Apesar de bandas como os Metz decalcarem exemplarmente o som antigo da Sub Pop e os The Men recuperarem as guitarras picadas dos Dinosaur Jr., a relação é puramente estética. O ideal loser da época – a incapacidade de lider socialmente com um mundo ainda pré-Internet mas já em franca aproximação ao Big Brother de George Orwell – perdeu-se assim como todos os valores ideológicos defendidos por Kurt Cobain, o natural ícone pop desse tempo.
Um processo revivalista que parece um decalque do que sucedeu há dez anos quando o pós-punk lançou as bases para o que viria a ser a recuperação dos anos 80 durante a década 00. Os Strokes, recorde-se, emulavam os Television, os Interpol os Joy Division, os Black Rebel Motorcycle Club os Jesus & Mary Chain e os LCD Soundsystem os Talking Heads. Todas com uma marca autoral forte, é certo, mas apontadas a uma época. Dez anos depois, a marcha tem o mesmo ritmo mas é mais variada – do rock ao house, passando pelo hip-hop, R&B ou cena rave – a “retromania” tem tentáculos compridos e não dispensa guarda-roupa: casaco de cabedal, flanela, calças rasgadas e botas de cowboy estão nas montras para equilibrar os sentidos. Os ouvidos não são mais que os olhos.

Deixa-nos o teu comentário: