O Museu do Louvre são dois

Na planície gelada de Lens, cidade da província de Pas de Calais, no norte da França, entre pequenas casas ordenadas em filas todas iguais, emerge, das brumas matinais, uma estrutura estranha. Aqui, há pouco mais de um mês, numa data fácil de relembrar, o 12/12/12, renasceu o que, durante cerca de 200 anos, conhecemos como um do mais importantes museus do mundo: o Louvre.
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Na planície gelada de Lens, cidade da província de Pas de Calais, no norte da França, entre pequenas casas ordenadas em filas todas iguais, emerge, das brumas matinais, uma estrutura estranha. Aqui, há pouco mais de um mês, numa data fácil de relembrar, o 12/12/12, renasceu o que, durante cerca de 200 anos, conhecemos como um do mais importantes museus do mundo: o Louvre. Na capital francesa, o velho pai, o Louvre original, olha para ele com trepidação e orgulho, enquanto espera que mais um descendente nasça, em terras ainda mais longínquas.

 

Entretanto, mais perto, o primogénito já está a mudar a vida da pequena cidade de Lens. Desde o começo foi este o objectivo das entidades envolvidas no projecto. Na origem de tudo, está a vontade de levar a cultura para onde faz mais falta, com a convicção de que só a cultura pode trazer uma riqueza durável, quer para a alma, quer para os bolsos. Assim, um território sofrido como o de Lens, marcado pelo passado mineiro e a crise económica, é chamado a ressurgir. No plano de fundo, a paisagem ainda mostra as feridas recentes, as chaminés de tijolo, os raios onde viajavam os carrinhos cheios de carvão, mas, em primeiro plano, hoje está o Louvre e, com ele, um futuro cheio de esperança. Finalmente, a gente de Lens pode espelhar-se nesse futuro, assim como se espelha na fachada do seu museu.

 

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Louvre Lens
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A arquitectura

O projecto, do atelier Imrey Culbert e dos arquitectos do SANAA, Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, já vencedores do prémio Pritzker e autores do New Museum of Contemporany Art em Nova York e do Serpentine Gallery Pavilion em Londres, mantém-se fiel a esta forte vocação pública. Enquanto as estruturas laterais do Louvre-Lens reflectem a cidade e o céu espesso do norte, a entrada do museu, um hall central de vidro de 3600 m², completamente transparente, funciona como uma praça, onde os visitantes podem passear, encontrar-se e, se tiverem vontade, até tomar um café. Daqui articula-se o museu, por um total de 7000 m² de espaço vocacionado para a exposição de obras de arte e para a cultura. Na cave do hall está a reserva das colecções, aberta ao público; a leste, começa a Grande Galerie, seguida pelo Pavillon de vidro; a oeste, a Galerie das exposições temporárias e La Scène, o auditório. Todos os edifícios, de um só andar, interagem harmoniosamente entre eles, como barcos que se encontram casualmente, enquanto navegam sobre as águas calmas de um rio.

 

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Hall
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Cave
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O parque

O complexo arquitectónico vive em conjunto com a natureza que o rodeia, num universo líquido, onde os confins entre os elementos desaparecem. Céu e Terra tocam-se no museu Louvre-Lens e no Parque, projectado por Catherine Mosbach. “Nem parque público, nem floresta periurbana: trata-se de um pioneiro museu-parque”, afirma orgulhosamente a paisagista francesa. De facto, as pegadas da história são evidentes, no solo e na vegetação. A entrada do antigo complexo mineiro ficou onde estava, os trilhos sobre os quais o carvão era levado das fossas até à gare transformaram-se em caminhos, e as minas, ainda evidentes no terreno, passaram a integrar o projecto, como elementos de referência espacial. Enquanto o passado revive no presente, arquitectura e paisagem, através da natureza delicada, dialogam entre eles e convidam os habitantes da cidade a apropriar-se do espaço. Por isso, o acesso ao parque é gratuito, e aberto ao publico além dos horários do museu.

 

 

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Parque
Parque
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O Museu

Esta é a ocasião de o Louvre reconsiderar a sua missão e experimentar coisas impossíveis dentro da complexa organização do museu de Paris”, argumenta Henri Loyrette, director do Louvre “pai”. A experimentação começa pela Grande Galerie,um espaço aberto de 3000 m², ondeobras chave das colecções originais, durante os próximos 5 anos, estarão expostas segundo princípio cronológico, numa verdadeira galeria do tempo, onde todas as civilizações, desde as origens da escrita até meados do sec. XIX, dialogarão entre elas. Aqui, encontram-se grandes nomes da História da Arte: Perugino, Delacroix, Raffaello, Botticelli. A seguir, o percurso museográficocontinua no Pavillon de Verre, um espaço de aprofundamento que propôs, através de uma exposição temática anual, um olhar diferente sobre as obras. Por fim, na Galeria das Exposições Temporárias, o Louvre-Lens organiza, cada ano, duas novas mostras. Para a abertura foi escolhida, Renaissance. Révolution dans le arts en Europe 1400-1530, em exposição até 11 de Março 2013, onde podemos admirar, entre mais de 250 obras, a Sant’ Anna de Leonardo da Vinci, O arco de Triunfo do Imperador Maximiliano I, de Albrecht Dürer, e os retratos de Michelangelo.

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Há dez anos, o Louvre-Lens parecia uma aposta insensata, mas hoje já é uma realidade. Um museu moderno nasceu do antigo, com exposições, programas pedagógicos, projecções. Nada lhe falta, desde a participação de artistas contemporâneos de renome, como Ange Leccia e Yayoi Kusama, até o restaurante com chef duas estrelas Michelin. Hoje, em Lens, a cultura dá esperança. Na cidade adormecida na bruma matinal, a arquitectura diáfana do museu emerge entre árvores magras a destacar-se no branco do céu, enquanto os primeiros visitantes se aproximam entusiastas através do parque.

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