Janela Internacional: La Réunification des deux Corées

A companhia Louis Brouillard, dirigida pelo dramaturgo-encenador Joël Pommerat, inaugura o ano de 2013 com a sua nova criação, La Réunification des deux Corées, em cartaz na Sala Berthier do Théâtre de l’Odeon, em Paris.

[wide] Foto de Ensaio, Elisabeth Carecchio[/wide]

Maria Clara Ferrer, dramaturga e encenadora brasileira, vive em Paris, onde ensina Etudes Théâtrales na prestigiada Sorbonne. Todos os meses, vai subir para nós o pano da cena teatral da capital francesa. Esta é a vez de La Réunification des deux Corées, de Joël Pommerat.

A companhia Louis Brouillard, dirigida pelo dramaturgo-encenador Joël Pommerat, inaugura o ano de 2013 com a sua nova criação, La Réunification des deux Corées, em cartaz na Sala Berthier do Théâtre de l’Odeon, em Paris.

Já há dez anos que acompanho o trabalho de Joël Pommerat, sem dúvida alguma, um dos mais talentosos encenadores deste inicio de século XXI. Enigmáticas e familiares, as suas peças surpreendem infalivelmente pela sua assinatura estética. Em parceria com o cenógrafo e iluminador Eric Soyer, Pommerat soube resgatar a dramaticidade da escuridão, e inventar um teatro de penumbra, marcado pela estética cinematográfica. Compenetrado e absorvido, o espectador de teatro, libera-se do antigo dilema de ter que optar pela escuta ou pela visão, pelo texto ou pela imagem. A tela do cinema rasga-se e o milagre teatral acontece.

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Foto: Elisabeth Carecchio
Foto: Elisabeth Carecchio

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A cada ano, espero a nova criação de Pommerat como cinéfilo que almeja a estreia do próximo David Lynch, ou do próximo Almodovar, ou como criança que conta os dias do ano para o circo voltar à sua cidade. Pois o circo chegou.

Subo arquibancadas desconhecidas e quando chego ao topo me deparo com uma outra arquibancada. Separado como as duas Coréias, o público instala-se num dispositivo bi-frontal. O teatro transforma-se em vale. Entre duas colinas de espectadores, surge o palco: estreita e cumprida passarela da vida.

Silêncio. Escuridão.

Foco de luz. Uma mulher confessa a uma presença invisível, incarnada por uma voz off, que ela deseja separar-se do seu marido, porque apesar de uma relação perfeita há vinte anos, sempre houve entre eles «uma ausência de amor». Quando a voz lhe pergunta o que ela entende por amor, a mulher diz não poder definir, porque é impossível definir uma coisa que sempre foi ausente.

Escuridao.

Mais tarde, numa outra cena, uma mulher inesperadamente, como quem levanta cedo para ir trabalhar, abandona o lar e o marido, repetindo, como única explicação, que o «o amor não basta».

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Foto: Elisabeth Carecchio
Foto: Elisabeth Carecchio

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O tom esta dado. A peça fala de amor, ou melhor da nossa crença e da nossa descrença no amor, como um estudo comportamental do nosso modo de amar e desamar. Joël Pommerat sabe ser atual, sem ser superficial. Optando por uma dramaturgia fragmentada, o autor lapida sem medo os clichés do amor, ultima religião universal de que herdou o século XXI.

Desfilam cenas da vida conjugal. Tocantes. Cómicas, Chocantes. Complexas. O caleidoscópio gira. Um casamento interrompido na porta do cartório, um casal que contrata uma baba para tomar conta de filhos inventados, uma prostituta que exige que o ex-cliente venha jantar em sua casa todas as noites, um marido que visita diariamente sua mulher, amnésica e internada numa clinica, tentando insaciavelmente relembra-la dos vínculos que os ligam… Os atores são alquimistas, sabem a dose certa de cada emoção.

Ao longo dessa experiência intensa, paira misterioso o título ao qual o texto faz uma única alusão: «Quando nós nos encontramos era perfeito (…) como se a Coréia do Norte e a Coréia do Sul abrissem as suas fronteiras e se reunificassem, e as pessoas que durante anos foram impedidas de se ver se reencontrassem. Era uma festa, sentíamos que estávamos ligados e que nossa relação vinha de muito longe…», diz o marido a mulher sem memória.

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Foto: Elisabeth Carecchio
Foto: Elisabeth Carecchio

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Apenas uma pista para nos sugerir que o íntimo nunca esta desvinculado do político, do público. Iluminando rachaduras e rupturas das nossas historias de amor, Joël Pommerat traça na nossa memória a geografia afetiva dos nossos tempos.

Silêncio. Escuridão.

Revoada de aplausos.

Felizmente, a peça fica em cartaz até dia 3 de março. Vale a pena sair da janela, atravessar mares e montanhas para vivê-la!

Em cena no Théâtre de l’Odeon em Paris, até 3 de Março.

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