No Fly Zone-Unlimited Mileage, arte sem fronteiras.

No Fly Zone-Unlimited Mileage, no Museu Colecção Berardo.
[wide]O.R.G.A.S.M. Kiluanji Kia Henda[/wide]

FOTO: O.R.G.A.S.M., Organization of African States for Mellowness, KILUANJI KIA HENDA, 2011. Cortesia Galleria Fonti, Nápoles e Galeria Arte Contemporânea Africana, Luanda e São Paulo.

No centro de uma parede pintada de azul, irónica alusão à bandeira europeia, doze estrelas amarelas, todas iguais, cristalizam-se a volta de Africa. Do outro lado da parede, um vídeo conta uma história parecida com outras que já nos contaram: O.R.G.A.S.M., uma O.N.G. africana, precisa de nós para salvar os pobres habitantes de uma cidade em risco: Paris. Assim começa, revertendo completamente o ponto de vista, a exposição No Fly Zone-Unlimited Mileage, no Museu Colecção Berardo. No amplo e imaculado espaço expositivo, é-nos mostrada outra África, através das obras de seis artistas, protagonistas da cena artística angolana contemporânea. Este é “um espaço de reflexão e experimentação, antes da Trienal de Luanda”, diz Fernando Alvim, curador da exposição, juntamente com Suzana Sousa e Simon Njami. Reflexão sobre a arte angolana, sobre a sua história e a história do seu povo. Mas não só.

 Depois de O.R.G.A.S.M., continuamos o percurso da exposição com as fotos de Kiluanji Kia Henda, que retratam estátuas oficiais tiradas dos seus pedestais e deixadas entre velhos carros de combate, enquanto que na cidade outros pedestais estão habitados por estátuas vivas. A seguir, encontramos Paulo Kapela, referência incontornável para a nova geração de artistas angolanos. A sua obra destaca-se como um altar, onde figuras públicas convivem com amigos de Kapela, numa representação de símbolos, ideologias e crenças. História e política convivem outra vez.

[wide]
Vistas de exposição. Créditos de David Rato – MCB
Vistas de exposição. Créditos de David Rato – MCB
[/wide]

Na parede do outro lado da sala, responde-lhe Cara-Show, de Yonamine, que, a partir de recortes do Jornal de Angola do ano de 1976, apresenta, numa perspectiva desconstruída, o passado mais recente. Por fim, a propaganda torna-se anti-propaganda, o público torna-se privado, e o complexo, descomplexado. A reflexão de Yonamine acompanha-nos, ainda, entre outras Histórias, as da Alemanha e do nazismo, até à sala seguinte.

[wide]
Vistas de exposição. Créditos de David Rato – MCB
[/wide]

Aqui, as fotografias do Edson Chagas, retratos de homens sem cabeça e identidade, desorientados numa urgência de consumos globais, fixam-nos sem nos olhar. A reflexão faz-se universal. As galinhas empalhadas na obra Thirteen Hours, de Binelde Hyrkan, já são humanidade. Como num conto de Orwell, os seus gestos e os seus olhares são assustadoramente os nossos. Finalmente, na última sala, a obra de Nástio Mosquito, devolve-nos à Africa e à narrativa que o imaginário ocidental construiu sobre ela, através do cinema, da arte e da banda desenhada. Nunca Tintin, pareceu tão estúpido.

[wide]
OIKONOMOS, EDSON CHAGAS, 2011. Cortesia do Artista
OIKONOMOS, EDSON CHAGAS, 2011. Cortesia do Artista
[/wide] [wide]
Vistas de exposição. Créditos de David Rato – MCB
[/wide] [wide]
My African Mind, NÁSTIO MOSQUITO
MY AFRICAN MIND, NÁSTIO MOSQUITO, 2009. Cortesia Colecção Rui Costa Reis Compilação de Arte Africana Actual
[/wide]

O cerco fechou-se. O panorama está pintado. A arte angolana está viva, a olhar para nós.

Deixa-nos o teu comentário: