As Ocupações de Filipe Branquinho
[wide]Flores, Pugilista

[/wide] Flores, pugilista 

16000 km separam Lisboa de Maputo, mas é só ligar o computador, abrir o Skype e do outro lado, Filipe Branquinho, fotógrafo e artista plástico moçambicano, finalista do prémio BES Photo 2013, já está à espera. De repente, é como se estivéssemos sentados a falar na mesma sala. A distância desaparece e os cheiros perfumados da África misturam-se no vento frio de Lisboa. Enquanto lá fora o sol ilumina um mundo cada vez mais pequeno, uma voz tranquila entoa um “Olá”. Assim começa a conversa da Janela Urbana com Filipe Branquinho.

 

Filipe, como chegaste à fotografia?

Cresci no meio de fotógrafos: o meu pai era jornalista, a minha mãe trabalhava no Instituto de Comunicação Social, e eles tinham como amigos e colegas de trabalho jornalistas, fotógrafos e fotojornalistas. Mais tarde, depois do meu pai morrer, a minha mãe foi viver com o Manolo Cabral, que é irmão do José Cabral, um dos grandes fotógrafos moçambicanos. Assim, ele tornou-se praticamente meu tio. Também tinha contacto com Ricardo Rangel, outro importante fotógrafo moçambicano, que era nosso vizinho da frente. Por isso, sempre tive, de alguma maneira, a Fotografia perto de mim. Tinha o equipamento, tinha as dicas, os livros, ia às exposições. Quando era miúdo, brincava com a Fotografia. Depois, aos 17/18 anos comecei a brincar mais a sério. Quando, enfim, foi estudar Arquitectura para o Brasil, fiz alguns cursos básicos. Na Universidade de Londrina, ia muito a um laboratório de Fotografia que havia no departamento de Artes, e comecei a estudar, a dedicar-me e a fotografar. Quando voltei para Moçambique já sabia que era isso que queria fazer, mas como era muito difícil trabalhar com Fotografia, continuei com a Arquitectura durante algum tempo, até não ter a oportunidade de trabalhar e fazer um dinheirinho com a publicidade. Investi em algum equipamento, e desde aí tem sido assim. Nunca mais parei.

 

Em Moçambique existe uma forte tradição de fotojornalismo, com fotógrafos como Ricardo Rangel, José Cabral, Kok Nam. De que maneira o teu trabalho segue e se destaca desta tradição?

 O maior ponto de contacto é Moçambique, o contexto e o cenário onde a gente fotografa. De facto, embora não me considere um fotojornalista, tenho um trabalho documental, que ajuda a mostrar a realidade do país, as pessoas. Mas apesar de haver sempre uma influência, também há uma preocupação que quase todos os fotógrafos têm, de contribuir para o cenário nacional da fotografia com a própria maneira de ver. Quanto à diferença, para mim está na minha maneira de fotografar, de usar a cor, de apresentar e trabalhar um tema. Nas fotos de Ocupações, por exemplo, faço retratos, porque há uma pessoa no centro da imagem, mas, aos poucos, vou mostrando também a cidade, as pessoas, como elas se vestem…Assim, faço um retrato que não tem a mesma dinâmica do fotojornalismo. De facto, conto uma história mas não é só de uma pessoa. Uma outra coisa que diferencia a nova geração de fotógrafos moçambicanos da anterior é que nós, tanto o Mário Pinto, como o Mário Macilau e eu, temos muita mais facilidade em divulgar o nosso trabalho. Eu estou na idade em que tens vontade de fazer coisas. Se o mundo responde isso é bom. Por exemplo, eu estou a fazer uma entrevista contigo no skype, o Rangel não teve esta possibilidade.

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Alfredo Simula,Continuo
Alfredo Simula,Continuo

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Li que te defines como fotógrafo e artista plástico. Como dialogam entre elas estas duas facetas de ti?

Estas fronteiras são muito difíceis de definir. Às vezes há encontros, às vezes não há. Obviamente, nem todo o trabalho comercial é artístico, embora me preocupe com questões de estética de imagem. No entanto, um trabalho a nível documental, que não seja fotojornalismo, posso considera-lo como fotografia artística. Não só pela maneira como o fotografo, mas também pela maneira como o apresento, onde o apresento. No fim de contas, acho que todo o meu trabalho de fotografia artística acaba por ser documental. Na ilustração, e em alguns outros projectos, fujo um bocado disso.

 

E como se reflecte o teu trabalho de ilustrador nas tuas fotografias (e vice-versa)?

Entre Fotografia e Ilustração há, à partida, uma coisa em comum: a minha formação em Arquitectura. De facto, apesar de não ter terminado o curso – fiz até ao 4º ano – trabalhei em Arquitectura durante algum tempo e aprendi a olhar o espaço. Isto reflecte-se tanto na Fotografia como na Ilustração: a forma como o trabalho é apresentado, os backgrounds, a linha, a textura do material. É verdade que a Ilustração é mais solta e abstracta e, às vezes -comer feijão todos os dias cansa, não é?- é uma forma de fugir da Fotografia, mas há muito em comum. Pouco a pouco considero-me também um retratista na Fotografia. E depois há a questão da maneira como exploro a cor. Na fotografia tento procurar a personagem, desde o tom da pele, a roupa que veste, a cor do fundo. No Desenho existe a mesma preocupação.

 

Com o teu projecto Ocupações, foste nomeado para o Premio BES Photo 2013. O júri motivou assim a sua escolha: “Usando Maputo como ponto de partida, e o retrato como ímpeto, Filipe Branquinho capta o tecido urbano e a forma como os seus espaços são habitados, não apenas pelas pessoas, mas também através de sua arquitetura.” Explica-nos melhor o papel da Arquitectura e da Cidade nas tuas imagens.

Acho a cidade de Maputo uma cidade bonita. Ocupações foi uma maneira de a fotografar mas, também, de fotografar as pessoas. As pessoas mostram a cidade, e a cidade mostra as pessoas. Mas, também, fotografei estes espaços por que estão a mudar rapidamente. Muitos dos edifícios históricos, símbolos da arquitectura de uma determinada época, já estão a ser reabilitados. Então fotografá-los era uma maneira de fazer um registo de como isso estava. Alguns espaços que fotografei já não estão iguais, já estão diferentes. Em Ocupações o que eu queria era ir mostrando a cidade, a arquitectura de Maputo, fazer um documento que preservasse a imagem e as pessoas dessa época. Quanto mais tempo passa, mais sentido isto vai ganhando.

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Sr.Orlando Sambule, Seguranca
Sr.Orlando Sambule, Seguranca
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Qual é o processo que te leva a tirar uma fotografia, a escolher uma imagem?

No street photography, vês uma imagem interessante, tens uma ideia de um trabalho na cabeça, captas esta imagem. Mas, para mim, hoje em dia, se tenho uma ideia, preciso de conviver com o meu assunto. Tenho de ter a ideia muito estabelecida, para depois ir atrás. Eu acho que é necessário que o assunto já não seja uma surpresa, é preciso estar à vontade com ele. Esta é uma coisa que toda a técnica não te vai dar: a intimidade com o que estas a fotografar, seja uma cidade ou uma pessoa.

 

A imagem que mais representa o Moçambique de hoje.

 É difícil dizer. Uma imagem que me vem à cabeça para Moçambique é isto: recursos minerais. Algo a ver com isto. Carvão, gás, petróleo. Se calhar um grande pedaço de carvão. (risos)

Para Maputo, talvez uma foto que conseguisse apanhar os vários prédios que estão a aparecer, qualquer coisa do género do skyline. Outra imagem seria uma foto do aeroporto. Não são só as pessoas que vêm de fora. Em Moçambique já se viaja muito hoje em dia, há uma outra dinâmica entre as províncias.

 

O que vês pela frente? Fala-nos dos teus novos projectos.

São dois projectos muito diferentes de Ocupações mas que, de alguma maneira têm algo a ver. Ambos são documentais: um deles trata da questão dos transportes colectivos, o outro tem a ver com o centro antigo da cidade.

 

Fica o desejo de ver mais fotos, mais histórias, mais Moçambique.

 

Exposição Galeria Bozart| até 23 de Fevereiro