Janela Internacional: Indonésia, uma arquitectura de contrastes

Foto: Bruno Gomes d'Almeida
Um português recém-formado em Arquitectura conta-nos a sua primeira experiência de trabalho na Indonésia.

[wide]

Foto: Bruno Gomes d'Almeida
Foto: Bruno Gomes d’Almeida

[/wide]

por Bruno Gomes d’Almeida

Quando se fala em Indonésia, das duas uma, ou nos vem à cabeça um destino paradisíaco com praias de água límpida e muitas pranchas de surf ou a pobreza de um povo que pouco tem para comer. É verdade que a Indonésia é assim, mas também é verdade que a Indonésia é muito mais.

Aos olhos de um português recém-formado em Arquitectura, cujo primeiro contacto com o mundo do trabalho é do outro lado do planeta, a Indonésia significa uma maratona de sensações que nunca mais acabam: visualmente existem as ruas de terra batida com casinhas de todas as cores, telhados de todos os formatos e regras que não existem, avenidas sem fim permanentemente transitadas, campos verdes que se perdem no horizonte e arranha-céus que rasgam as nuvens. Mas a Arquitectura não é apenas uma imagem, como uma fotografia. A Arquitectura vive‐se. É o cheiro a chá de jasmim, a arroz, a fumo, a flores e a fritos. É o barulho dos gritos das crianças que jogam à bola com um côco, de motas e motoretas, de rezas na mesquita e de animais desconhecidos. Arquitectura são apertos de mão, o limpar do suor que escorre pela testa, o pagar de uma refeição com dezenas de notas com muitos zeros e que pouco valem, e o projectar de ambientes construídos que saem dos dedos a medo.

Seria de esperar que, para alguém que sempre estudou na Europa, a diferença de realidades, de ambições e de sonhos com que nos deparamos na Indonésia fosse de toda a experiência o “maior choque cultural”. Que a falta de passeios, o conduzir‐se à esquerda num trânsito caótico, a poluição, o calor que se “agarra” a nós, os milhões de pessoas ou o facto destas pararem e pedirem uma fotografia connosco fosse confuso. Na verdade, é! Mas o ser humano habitua‐se a quase tudo. O mais difícil é ser um arquitecto num mundo sem regras, sem medidas, sem Câmaras Municipais ou obras embargadas por falta de requisitos obrigatórios. O mais difícil é trabalhar num mundo que não se conhece.

Yogyakarta fica sensivelmente no centro da ilha de Java e a experiência de projectar nesta cidade tem tanto de divertido como de frustrante. Como se explica, num mundo sem regras, que as escadas têm que ter todas o mesmo tamanho, os tectos têm níveis mínimos de altura ou que os quartos precisam ficar virados para Sul? Não se explica! No dia em que cheguei tive que desaprender o “básico” para aprender o básico. “Lava as mãos antes de vires para a mesa”. Se não há mesa nem sítio onde lavar as mãos (e, muitas vezes, nem talheres), come‐se com as mãos e come­‐se com as mãos sujas. Passou‐se o mesmo com as minhas noções de Arquitectura: foram desaprendidas.

A velocidade a que se constrói uma casa é alucinante, a rapidez com que a cidade cresce é atroz e, se imaginarmos que temos uma população de mais de meio milhão de pessoas dentro de uma cidade que aumenta aleatoriamente a cada dia, é fácil perceber que o resultado seja um labirinto arquitectónico onde não há mapa que nos oriente.

Contrastando com esta confusão de sensações que Yogyakarta desperta em nós, existem na periferia templos hindus e budistas cuja organização estrutural é minuciosa. Construções megalómanas que remontam ao ínicio do primeiro milénio depois de Cristo. O mais grandioso será Borobudur, inicialmente construído como templo hindu no século VII, actualmente o maior monumento budista do mundo. Património mundial da Unesco, Borobudur é feito de mais de dois milhões de blocos de pedra vulcânica e simboliza o caminho que o homem deve percorrer para alcançar a libertação segundo as crenças budistas.
Perto de Borobudur fica Prambanan, o maior centro religioso hindu do mundo. Com 45 metros de altura e esculpido até ao mais ínfimo detalhe, encontra-­se um pouco desgastado pela frequente actividade sísmica na ilha de Java. Ainda assim, é um hino à Arquitectura, à Escultura e ao ser humano.
Qualificaria Yogyakarta como um misto de selva, confusão urbanística e templos milenares. Remonta‐nos para o desconhecido que o mundo foi um dia e para o conhecimento a que temos acesso nos dias de hoje. Formalmente, é mais aliciante pela rapidez com que uma obra toma forma, que propriamente pelas suas construções. Mas a vida da cidade, o frenesim dos seus habitantes, os constantes afazeres, os entraves linguísticos, o projectar para uma cultura tão própria, para uma religião tão diferente, para maneiras de pensar tão díspares, tornam o trabalho do arquitecto naquilo que ele deve ser: um desafio.
Em quatro meses como arquitecto “indonésio”, a falta de rotina tornou‐se rotina e trabalhar com tantos contrastes transformou-‐se em harmonia. A Arquitectura tornou‐se num objecto com uma mensagem que comunica connosco. E não é assim que deve ser? Se concordarmos que um determinado espaço deve ter vida própria, “personalidade” própria e ser memorável, toda esta arquitectura vai de encontro a tudo isto.

Deixa-nos o teu comentário: