Marcos Marin, um artista no mundo

Na semana passada, a Janela Urbana encontrou Marcos Marin, artista plástico brasileiro e autor do novo troféu FESTin 2013.
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Na semana passada, a Janela Urbana foi à Galeria Espaço Arte Livre e encontrou Marcos Marin, artista plástico brasileiro e autor do novo troféu FESTin 2013. Perante o olhar divertido de Dalì, Pavarotti, e Frida Kahlo, todos imortalizados nos retratos optical do Marcos, passámos a tarde docemente à conversa, viajando pelo mundo fora, sem nunca sair de Lisboa. O FESTin, festival de cinema itinerante da língua portuguesa, não podia encontrar artista mais INternacional.

 

Foste convidado, pela segunda vez, a desenhar o prémio do FESTin Festival. Como nasceu esta oportunidade e o que significa para ti?

Para mim tem um significado emocional. O meu pai vem da indústria do Cinema no Brasil. Foi produtor e montador de filmes na Companhia VeraCruz, que foi a maior companhia de cinema brasileiro da década de 50. Por isso, nasci e cresci dentro deste meio e tenho muitos amigos que pertencem a famílias de actores de cinema. Um desses amigos é a Adriana Jardel. A Adriana é filha do grande actor brasileiro Jardel Filho e vive aqui em Lisboa. Foi ela que me apresentou aos directores do festival FESTin. No ano passado, precisavam de alguém que fizesse o troféu para a edição dedicada ao Brasil. Assim, surgiu o primeiro FESTin assinado por mim. A seguir, veio este. A diferença é que os outros troféus de festivais de cinema são, todos os anos, exactamente os mesmos, enquanto o do FESTin conserva uma identidade reconhecível do logo, mas muda todos os anos. Para mim, isto representa um desafio mas também uma oportunidade de criar mais. Este ano inspirei-me no país convidado de honra, que é Angola, e na sua arquitectura. O resultado obviamente é optical, brinca com a perspectiva, com a obliteração, com a ausência de material e a transparência.

O FESTin, celebrando o Cinema de expressão portuguesa, promove uma ideia de intercâmbio e partilha cultural. Sendo tu um artista brasileiro que vive na Europa, vives também essa experiência. Como é que isso se reflecte no teu trabalho?

Eu já cresci num ambiente que não era cem por cento brasileiro, nem totalmente lusófono: o meu pai deixou Espanha para ir para o Brasil, tenho metade da família aqui, metade da família lá e a minha mãe é de origem libanesa. Por isso, não tive esse medo de cruzar os oceanos e de ir para outro lugar. Sou um camaleão nacional, e sinto-me bem em qualquer lugar. Claro que isto tudo interfere no meu trabalho, como inspiração. Cada país é bem centrado em si e tem os seus artistas: os portugueses em Portugal, os franceses em França, os Italianos em Itália. Eu tenho o privilegio de poder brincar com tudo isto. As vezes até esqueço, no bom sentido, que sou brasileiro.

As tuas esculturas são expostas muitas vezes em praças e espaços públicos, como aconteceu em Lisboa, no Terreiro do Paço ( Rapto das Sabinas). Como vivem as tuas obras esta relação com o espaço que está a sua volta? 

A preparação para relacionar a obra e o ambiente onde está instalada é muito grande, porque o cúmplice do efeito optical é a luz. Preciso, então, de saber antes qual é a relação de sol e sombra ao longo do dia, as estações, qual é a iluminação nocturna do espaço, porque a escultura tem que brincar com a luz. Depois, preciso de sentir o ambiente, sentir as pessoas, como lidam com o espaço público em questão, quem lá vai, quem o frequenta. Daí vem a questão do tamanho, a questão da cor e a objectividade de que se deseja da escultura – que ela seja vista imediatamente, ou que seja uma surpresa, revelada em algum momento. De facto, à medida que andamos pelo espaço,  a escultura muda. Há um ângulo, uma projecção de luz diferente. Por exemplo, O Rapto das Sabinas tem 4 metros de altura, mas só dois centímetros de espessura, ou seja uma linha. Assim, quando estamos ao lado da escultura, ela desaparece completamente.

De qual destas obras públicas te orgulhas mais?

Até agora, a obra para espaço público de que mais me orgulho é a Princesa Grace. Quando foi exposta no parvis da entrada do Forum Grimaldi no Mónaco, eu mesmo me surpreendi, porque a obra cresceu. Não é muito alta, tem só 3 metros e meio, mas é bastante larga, e de facto é uma obra complexa, com mais de 800 furos em linhas.  Mesmo assim, ficou tão leve e tão grande ao mesmo tempo. Provocou muitas emoções, principalmente ao seu filho.

Uma constante do teu trabalho é a apropriação de ícones do nosso tempo, revistos numa linguagem Optical: Marilyn Monroe, Pessoa, Picasso, Amália, entre outros. O que significa para ti, trabalhar com a imagem de personagens incontornáveis?

É mostrar o que já existe de outra maneira, é uma apropriação, ou reapropriação, da imagem, através da lente optical. Mas enquanto eu brinco com isto, faço também uma homenagem à pessoa que retrato. Neste sentido, é um desafio, uma honra e uma grande responsabilidade porque as personagens que escolho geralmente têm ou tiveram uma influencia muito grande na história e nas pessoas. Mas desde que sincera,  a homenagem é um reconhecimento, uma maneira, aliás, mais uma maneira, de tornar perene alguém que deu tanto à Humanidade. Depois, acontece que há gente que vê só o modelo e há gente que vê só a obra de arte: e isto também é muito engraçado.

Durante a tua carreira, pudeste contar com o apoio de mecenas e apaixonados de arte, como Pierre Cardin, Stanley Ho e o Príncipe Alberto do Mónaco. O que isto significa para ti e para o teu trabalho?

Primeiro é um selo de aprovação. Também tive outros mecenas importantes, como a própria Unesco e a Cité des Arts, que me acolheu em Paris. Considero muitos dos meus mecenas como experts do Design e da Arte. Pierre Cardin, por exemplo, representa a excelência nestes campos e na História da Moda. O facto de ele acreditar em mim é muito importante e deu um impulso muito grande para possibilitar que eu continuasse a trabalhar, sobretudo na parte da obra monumental. Depois, os meus mecenas são pessoas que admiram quem trabalha muito, porque são grandes trabalhadores. Então, o facto deles acreditarem no meu trabalho, significou para mim um empenho, físico, mental e criativo muito grande, uma responsabilidade e um desafio.

Quais são os teus próximos trabalhos?

Agora estou a fazer um retrato da Leila Lopes, a ex-Miss Universo de origem angolana, que por acaso é também uma amiga minha lá de Nova Iorque. Depois estou envolvido num projecto grande que durará três anos, durante os quais irei fazer 52 esculturas de João de Deus, para estarem expostas a frente de cada escola dele, como arte pública.

 

Galeria Espaço Arte Livre | Avenida da Liberdade 65, 1º | tel. 213429173

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