Marco Tullio Giordana, um cinema com História(s)

Estivemos à conversa com um dos mestres do cinema italiano.
[wide]Marco-Tullio-Giordana, créditos: Joana Linda [/wide] Foto: Joana Linda

No dia 12 de Dezembro 1969, no centro de Milão, a Banca Nazionale dell’Agricoltura estava cheia de pessoas quando, às 16h37, explodiu a bomba que deu inicio a um dos períodos mais negros e sangrentos da recente História italiana. Até hoje, a Justiça não conseguiu pôr um ponto final sobre este trágico evento, conhecido como Strage di piazza Fontana (Massacre da Praça Fontana). O que está por detrás desta tragédia que desencadeou os anni di piombo (anos de chumbo) em Itália, anos de medo e violência?

Marco Tullio Giordana, um dos maiores realizadores contemporâneos italianos, tentou responder à pergunta a sua maneira: fazendo um filme, Romanzo di una Strage, que na semana passada abriu o 8 ½ Festa do Cinema Italiano. A Janela Urbana foi falar com o realizador. O que nasceu desta conversa foi bem mais que uma simples entrevista*.

Romanzo di una strage fala de um momento particularmente doloroso da história italiana.  O que significou para si fazer este filme?

Sou de Milão e tinha 19 anos quando detonou a bomba. Estava num eléctrico, a trezentos metros de distância. Por isso, estive mesmo lá, vi as consequências, a chegada das ambulâncias,  os carros da polícia, o estado de confusão. Tudo isto me impressionou muito, naturalmente. Nunca tinha visto nada assim e continuei a sonhar com isso durante muitos anos. No entanto, nunca pensei ter que fazer um filme sobre este tema. Até que percebi que os jovens não sabiam absolutamente nada sobre o assunto.. Então, pensei que tinha de transmitir o que sabia, o que tinha estudado, o que tinha percebido e, também, a minha visão de testemunha ocular, de pessoa que sabe como era o espírito do tempo, a atmosfera, as sensações e percebi que poderia fazer uma reconstrução, não só pesquisando nos livros, mas inspirando-me  numa emoção pessoal.

[wide]

Romanzo di una Strage
Cena do filme Romanzo di una Strage.

[/wide]

Poucos sabem, aqui em Portugal, que o título Romanzo di una strage vem de um artigo que Pasolini escreveu em 1974. Não é a primeira vez que usa as palavras do cineasta e intelectual italiano para um titulo de um filme seu. O que de Pasolini têm mais os seus filmes?

Tive muita sorte porque, quando era rapaz, Pasolini ainda era vivo, e as suas intervenções, seja como jornalista, seja como poeta, cineasta e intelectual, foram um guia para mim. Esta foi a sua lição. Em  primeiro lugar, que um intelectual não pode pertencer a nenhuma facção política. Certamente haverá uma simpatia, mas não pode falsificar a verdade só porque convém a este ou outro partido. Tem que ter absoluta independência. Em segundo lugar, ensinou-me a provocação, mas não para destruir. Pasolini era alguém que tentava compreender a realidade, explicá-la aos outros, interpretá-la para a mudar para melhor. Esta lição ficou dentro de mim, como um modelo para depois aplicar no meu trabalho.

Muitas vezes, nos seus filmes, a atenção para a recente História italiana encontra a narração de pequenas histórias de gente normal. Como convivem estas duas narrativas?

Sempre pensei na imagem de uma pedra que, lançada na água, cria muitos círculos concêntricos. Houve filmes em que segui os círculos e outros em que segui a pedra. Por exemplo, em La Meglio Gioventù (A Melhor Juventude) segui os círculos, enquanto que em Romanzo di una Strage tentei filmar o momento em que a pedra entrava na água. Aqui a macro-história está em primeiro plano, enquanto que noutros filmes se encontra no pano de fundo: há um continuo corrigir de foco, levando para o primeiro e segundo plano os elementos da história que nos condicionam. De resto, afinal, vivemos as nossas vidas que são feitas de amores, relações, paixões pessoais, não tão directamente influenciados pela História. Aliás, às vezes, estão completamente independentes dela, mas vivemos sempre num contexto, num mundo. É uma cor, uma nuance, e acho muito importante contar, além das personagens que para mim são a coisa mais importante, também o pano de fundo onde estas vivem as suas histórias.

Os seus filmes contam a realidade, tentando sempre ir além do lugar comum, do pensamento pré-construído. É isto que faz o artista? E o Cinema?

Os artistas devem usar a liberdade. Por isso, eu não compreendo os que se regimentam, que adoptam um único ponto de vista, quando, pelo contrário, deveriam abrir-se. O dever deles, no grande afresco que deveriam pintar, é permitir que todos se percebam, se identifiquem e se compreendam. De facto, apesar de não poder substituir o conhecimento científico com o intuito do artista, se não houvesse a grande Música, a grande Pintura, a grande Literatura, não teríamos nenhuma ideia do nosso passado. Por que é que pensamos conhecer bem a Rússia do século XIX, como se fosse a nossa casa? Porque lemos Guerra e PazCrime e CastigoOs Irmãos Karamazov. Aquele mundo, de facto longínquo,  pertence tão fortemente à nossa formação graças à Arte. Assim é no Cinema. Quando era rapaz, por exemplo, via avidamente todos os filmes do neo-realismo, porque me contavam o que tinha acontecido poucos anos antes e faziam com que eu o percebesse melhor de que com os relatos dos pais e dos adultos. O cinema tem esta grande força: transformar em património pessoal eventos muitos remotos, e, a mim, parece que é assim que deve ser utilizado. Mas, de facto, no Cinema há muitos géneros e cada um faz o que pensa saber fazer. Senão, seria como entrar num restaurante e ter que comer todos os dias o mesmo prato.

Considerando os novos formatos que encontramos na net, como vê o Cinema de amanhã?

Com a redução dos formatos, penso que se torne muito mais importante a transmissão de conteúdos, do que o aspecto mais formal da imagem. Mas este é um momento de transição, onde nada está codificado, nada está esculpido na pedra. Provavelmente esta revolução levará a uma nova forma de qualquer coisa. De facto, hoje qualquer pessoa pode fazer um filme. Apesar da internet ainda não ter os instrumentos para que aquele filme se transforme em Todo o Vento Levou, pode permitir às pessoas de o fazer, de se exprimir, e esta é já por si uma coisa muito muito importante.

[wide]

Marco Tullio Giordana no 8 1/2 Festa do Cinema Italiano. Foto: Joana Linda
Marco Tullio Giordana no 8 1/2 Festa do Cinema Italiano. Foto: Joana Linda

[/wide]

*Entrevista em lingua original

Romanzo di una strage racconta un momento particolarmente doloroso della Storia italiana. Cosa ha significato per lei fare questo film?

Prima di tutto io sono milanese. Avevo 19 anni quando è scoppiata la bomba e stavo su un tram a trecento metri di distanza. Quindi, sono stato proprio lì, ho visto le conseguenze, l’arrivo delle ambulanze, le macchine della polizia, lo stato confusionale. La cosa mi ha molto impressionato, ovviamente, non avevo mai visto niente di simile, e ho continuato a sognarla per molti anni. Però non ho mai pensato di dover fare un film su questo argomento. Finché non mi sono reso conto che i ragazzi più giovani non ne sapevano assolutamente niente. Allora ho pensato che dovevo trasmettere quello che io sapevo, che avevo studiato, che avevo capito, e anche la mia visione di testimone oculare, di persona che conosce lo spirito del tempo, l’atmosfera, le sensazioni, e che avrei potuto ricostruire, non documentandomi sui libri, ma attingendo a un’emozione personale.

Pochi sanno, in Portogallo, che il titolo  Romanzo di una strage è tratto da un articolo di Pasolini del 1974. Non è la prima volta che prende in prestito le sue parole. Cos’altro di Pasolini c’è nei suoi film?

Sono stato molto fortunato perché, quando ero ragazzo, Pasolini era vivo, e i suoi interventi, sia come giornalista, che come poeta, cineasta, intellettuale, sono stati una guida per me. In primo luogo, la sua lezione è stata questa: che un intellettuale non può appartenere a nessun schieramento politico. Certo, avrà una simpatia, ma non può falsificare la verità, solo perché conviene a questo o a quel partito. Deve avere assoluta indipendenza. In secondo luogo, mi ha insegnato la provocazione, ma non in senso distruttivo. Pasolini era qualcuno che cercava di capire la realtà, di spiegarla agli altri, di interpretarla per poterla cambiare in meglio. Questo insegnamento mi è rimasto dentro,  come modello da applicare poi al mio lavoro.

Spesso, nei suoi film, l’attenzione per la recente Storia italiana incontra il racconto di piccole storie di gente normale. Come convivono queste due narrative?

Ho sempre pensato a quest’immagine: di un sasso che buttato nell’acqua crea tanti cerchi concentrici. Ci sono dei film in cui ho seguito i cerchi, e dei film, invece, in cui ho seguito il sasso. Per esempio, ne La Meglio Gioventù ho seguito i cerchi, invece, in Romanzo di una strage, ho cercato di filmare il momento in cui il sasso entrava nell’acqua. Qui la macro-storia è in primo piano, mentre magari in altri film è sullo sfondo: c’è un continuo correggere il fuoco, portando in primo piano e in secondo piano gli elementi della Storia che ci condizionano. Poi, del resto, noi viviamo la nostra vita, che è fatta di amori, relazioni, passioni personali, che non sono così direttamente influenzati dalla Storia, anzi, talvolta, ne sono completamente indipendenti, però viviamo sempre in un contesto, in un mondo. È un colore, una sfumatura, e penso sia molto interessante raccontare non solo i personaggi, che per me sono la cosa più importante di tutte, ma anche lo sfondo in cui vivono le loro storie.

I suoi films mostrano e raccontano la realtà, cercando sempre di andare oltre il luogo comune, il preconcetto. È questo che fa l’artista? E il cinema?

Gli artisti devono usare la libertà. Per questo io non capisco quelli che si irreggimentano, che adottano un unico punto di vista, quando invece dovrebbero aprirsi. Il loro compito è, nel grande affresco che dovrebbero dipingere, di permettere a tutti di comprendersi, di identificarsi e di capire. Del resto, anche se l’intuito che caratterizza l’artista non può sostituirsi allo strumento scientifico, se non avessimo la grande Musica, la grande Pittura, la grande Letteratura, non avremmo nessun’idea del nostro passato. Perché pensiamo di conoscere la russia dell’Ottocento bene, come se fosse stata casa nostra? Perché abbiamo letto Guerra e Pace, Delitto e Castigo, I Fratelli Karamazov. Quel mondo, in fondo lontanissimo, ormai appartiene così fortemente alla nostra formazione grazie all’arte. Così nel cinema. Quando ero ragazzo, per esempio, guardavo avidamente tutti i film del Neorealismo, perché mi raccontavano quello che era successo pochi anni prima e me lo facevano capire meglio che non i racconti dei genitori e delle persone adulte. Il cinema ha questa grande forza: far diventare patrimonio personale degli avvenimenti che sono molto remoti, e a me sembra che vada usato in questo senso. Però, di fatto, nel cinema esistono tanti generi e ognuno fa quello che crede di saper fare. Altrimenti sarebbe come entrare in un ristorante e dover mangiare ogni giorno lo stesso piatto.

Alla luce dei nuovi formati che popolano la rete, come vede il cinema di domani?

Con la riduzione dei formati mi sembra che diventi molto più importante la trasmissione di contenuti rispetto all’aspetto più propriamente formale dell’immagine. Tuttavia, questo è un momento di grande transizione dove niente è codificato, niente è scolpito nella pietra. Probabilmente questa rivoluzione porterà a una nuova forma di qualche cosa. Comunque, oggi chiunque può fare un film. Anche se la rete ancora non ha gli strumenti perché quel film diventi Via col Vento, può  permettere alle persone di farlo, di esprimersi, e questa è già una cosa molto molto importante.

Deixa-nos o teu comentário: