Riscas, o dress code dos rebeldes

Um verdadeiro surto de riscas. Foi isso que aconteceu nas colecções para esta Primavera/Verão e algo nos diz que se vai arrastar até ao próximo Inverno. Mas esta coisa das riscas parece-nos demasiado familiar. Fomos averiguar de onde vieram – e não, não foram os marinheiros.

por: Madalena Pombo e Mariana Afreixo

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Os ingleses usam fatos às riscas, os Irmãos Metralha usam fatos às riscas e nem o Wally consegue passar despercebido numa multidão, graças à sua t-shirt às riscas vermelhas. É já uma velha tendência mas, de vez em quando, as riscas voltam com mais força e invadem as colecções que desfilam nas principais semanas de moda. Esta Primavera/Verão é um desses casos. As riscas transformam-se em mil versões diferentes e voltam a reinar, como umas das principais tendências. Em Dolce & Gabbana vimo-las horizontais, verticais ou como base de padrões figurativos; na primeira colecção de ready-to-wear de Raf Simons para a Dior, surgem contrastantes, em vestidos de corte simples e em Balmain, bicolores, em silhuetas gráficas.

AS RISCAS DO PECADO

Se é verdade que aplaudimos o regresso das riscas nas colecções Primavera-Verão, houve um tempo em que vesti-las era um verdadeiro passaporte para sarilhos. Tudo começa no século XIV, em Paris, quando dois monges carmelitas regressam da Terra Santa, envergando um hábito às riscas brancas e castanhas, que simbolizava as marcas do fogo divino na capa do Profeta Elias. As riscas não foram muito bem recebidas, já que interrompiam a harmonia quase monocromática da época e infringia os ensinamentos das sagradas escrituras: “Não usarás roupas feitas com dois tipos de tecido (Levítico 19:19). Assim, o Papa Bonifácio VIII acabou por bani-las dos hábitos religiosos. As riscas eram símbolo de transgressão e ficaram, durante muito tempo, reservadas para os presidiários, bobos da corte e prostitutas.

 LA MARINIÈRE

Em 1858, o governo francês introduziu a famosa camisola de riscas azuis e brancas na farda oficial da marinha. Na sua versão inicial, era composta por 21 riscas, em homenagem ao número de vitórias de Napoleão. Mas a derradeira vitória aconteceu em 1917, quando a revolucionária Coco Chanel, depois de uma visita à costa francesa, criou uma colecção de inspiração naútica, introduzindo a famosa “marinière”.

RISCAS PARA SEMPRE

Depois de séculos de marginalização, foi Coco Chanel que deu a absolvição às riscas e que as trouxe de volta ao guarda-roupa das pessoas oficialmente decentes. Decentes mas, ainda assim, rebeldes. Nos anos seguintes, as riscas massificam-se graças a ícones de moda como James Dean, Marlon Brando, Audrey Hepburn, Brigitte Bardot e Edie Sedgwick. Nos anos 60, aparecem nos figurinos do cinema francês New Wave, associadas ao estilo parisiense da actriz Jean Seberg no filme “À bout de souffle” e de Jeanne Moreau em “Jules et Jim”. Nos anos 70 e 80, surgem em padrões coloridos, horizontais, verticais, oblíquas, nos códigos de barras, nos produtos de supermercado desde 1974, no fato do protagonista de Beetlejuice, filme de Tim Burton, de 1988 e voltam a ser as musas inspiradoras de outro criador – Jean Paul Gaultier, enfant terrible da moda francesa.

Hoje em dia, as riscas perderam o encanto da transgressão e até a avozinha mais conservadora é capaz de as usar. Esperemos que este regresso em força não volte a fazer delas um fashion don’t nas temporadas seguintes.

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