Afinal não era uma vez

Red, a capuchinho que afinal é o lobo mau.

por Pedro Barbosa da Silva

As melhores histórias são aquelas que gostamos de ouvir de novo. Lancem-me um feitiço se eu estiver errado. A sério, tentem. Não ia ser algo assim tão surpreendente dado que, nos dias que correm, é relativamente normal ver a magia e os contos de fadas invadirem o mundo real… pelo menos em televisão.

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Elenco de “Era Uma Vez”

 

“Era Uma Vez”, “Grimm” e “A Bela e o Monstro” são três séries cujos enredos bebem da mesma fonte e que poderiam ter sido um flop. Estes produtos trazem de volta ao pequeno ecrã histórias e personagens “encantadas” que o grande público conhece desde a infância, e isto é um risco. Porque personagens como a Branca de Neve, a Bela e o seu Monstro fazem parte do nosso imaginário colectivo e, por isso, são sensíveis no que toca a adaptações, porque a comparação pode ser uma arma letal, e porque nem todos os espectadores estão dispostos a “engolir” a mesma história pela enésima vez sem temerem uma intoxicação diegética. Surpreendentemente, ou não, “Era Uma Vez”, “Grimm” e “A Bela e o Monstro” estão a ter um percurso bem-sucedido, mas só uma conseguiu dar uma consistente e impressionante dimensão às personagens e narrativa dos clássicos contos de fadas.

 

Elenco de “A Bela e o Monstro”
Elenco de “A Bela e o Monstro”

 

Não é de “A Bela e o Monstro” que eu estou a falar. Catherine, uma detective e a bela desta história, viu a mãe ser assassinada à sua frente e antes de conhecer o mesmo destino foi salva por Vincent, que pensou ser uma espécie de monstro, mas que afinal é um ex-militar presumidamente morto em batalha. Inspirada na série homónima dos anos 80, “A Bela e o Monstro” falha sobretudo em termos de credibilidade. A enternecedora história de amor entre um monstro que, apesar da sua aparência, consegue conquistar uma bela rapariga devido à sua personalidade e atraente instinto protector cai por terra nesta nova adaptação. A única característica “horrenda” que Vincent tem é uma cicatriz na cara que não é suficiente para impedir que Catherine se apaixone de imediato. Quando vêem Vincent no ecrã, as adolescentes, claramente o público-alvo deste produto, mais depressa ficam com a líbido em polvorosa do que se assustam. Este elemento aliado à previsível estrutura narrativa dos episódios faz de “A Bela e o Monstro” uma série que facilmente se torna vítima do zapping.

A Bela e o Modelo
A Bela e o Modelo

 

“Grimm” devia ser mais entusiasmante. Com uma premissa auspiciosa, um detective aparentemente comum cujo destino é combater criaturas mitológicas responsáveis por crimes que remetem para os contos dos irmãos Grimm, o maior interesse deste drama sobrenatural é descobrir qual o cenário e enredo de cada novo crime, ao invés do conflito da personagem principal. As soluções que Nick Burkhardt encontra para os seus obstáculos são normalmente fáceis ou muito centradas em Monroe, seu aliado. Apesar de esforçado, Nick acaba por se tornar um protagonista morno, perdido num universo cativante e grande responsável pela sobrevivência desta série que conta, para já, com duas temporadas.

 

Um crime de “Grimm” inspirado na história de Capuchinho Vermelho.
Um crime de “Grimm” inspirado na história de Capuchinho Vermelho.

 

A acção de “Era Uma Vez” centra-se no mundo real, representado pela cidade fictícia de Storybrooke, onde habitam várias personagens de diferentes contos de fadas, alheadas da sua verdadeira identidade e passado vivido na Terra Encantada, devido uma maldição lançada pela Rainha Má, madrasta de Branca de Neve. Apesar de entre os três produtos “Era Uma Vez” ser aquele com um enredo mais fiel aos contos de fadas como nós os conhecemos, ou pelo menos à versão da Disney, esta série consegue ser a mais inovadora e surpreendente. Os motivos são o cruzamento de enredos e a nova e consistente dimensão dada às famosas personagens. Em “Era Uma Vez” descobrimos, por exemplo, que o ódio da Rainha Má por Branca de Neve, antes de ser uma ode contra o insucesso de cremes antirrugas, esteve relacionado com o facto de, em criança, a doce e faladora princesa ter sido involuntariamente responsável pelo assassinato do grande amor da sua madrasta, um plebeu. Um dos twists mais interessantes desta série está relacionado com Capuchinho Vermelho, uma personagem originalmente bastante passiva, mas que aqui ganha contornos grotescos ao descobrir que o Lobo que assombra a sua história é, na realidade, ela própria.

Red, a capuchinho que afinal é o lobo mau.
Red, a capuchinho que afinal é o lobo mau.

 

“Era Uma Vez” correu o risco de se tornar demasiado confusa quando decidiu interligar histórias à partida tão distintas – alguma vez imaginaram ver Mulan e Bela Adormecida apaixonadas pelo mesmo príncipe? – mas funcionou. O universo desta narrativa é sólido, coeso e, até à data, surpreendente.

Numa época em que os finais felizes são cada vez mais escassos, não me admira a aposta e o sucesso de produtos que remetem para a temática dos contos de fadas. O segredo está no engenho da reinvenção e na adaptação à modernidade, sem desvirtuar os valores que compõem a natureza das personagens que originalmente habitam num mundo de fantasia. Enquanto isto acontecer, ninguém se vai incomodar que o popular “era uma vez…”, afinal não seja.

 

Pedro Barbosa da Silva é guionista de televisão, web e animação. Colabora com a Janela Urbana com uma crónica mensal sobre televisão.

 

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