OLÁ, MUNDO

berlim I

Tópicos a serem discutidos: minha incapacidade em gerir o mundo; minha incapacidade diante da língua portuguesa; o propósito e a frequência desta coluna; o endereço do chaveiro mais próximo.

Texto: Caio Yurgel / Foto: Camila Gonzatto

Depois não digam que não vos avisei. Que, de Setembro em diante, vos narrarei um pedacinho do mundo visto a partir de Berlim embora o mundo e eu mantenhamos uma relação conturbada. Ano passado, por exemplo. Vinte e quatro meses vivendo em função de meu mestrado em literatura para, chegado o dia de oficialmente entregar a dissertação na universidade, em quarenta e sete vias protocoladas até às cinco da tarde, esquecer-me completamente de fazê-lo. Eram duas da tarde e eu permanecia em casa, de bermuda e camiseta (camisola?), a ponderar sobre o almoço e a existência (as duas maiores preocupações de qualquer pós-graduando em ciências humanas, nessa ordem).

E, súbito, o desespero: recolher notebook e livros, enfiá-los numa mochila; escovar os dentes e simultaneamente tirar a bermuda por sobre os tênis para poupar tempo; procurar as chaves do carro; atravessar a cidade em vinte minutos desafiando 70% das leis de trânsito; encontrar uma vaga no estacionamento da universidade; preparar-me para correr em direção à impressora mais próxima; olhar para baixo na hora de desafivelar o cinto de segurança para descobrir que, ao invés de ter tirado a bermuda e a substituído por calças, eu havia tirado a bermuda e a substituído por nada. Eram duas e meia da tarde e eu estava nu da cintura para baixo no estacionamento da universidade.

Ou quando o fiscal da alfândega no aeroporto de Lisboa perguntou-me qualquer coisa como “Vindes pela primeira vez a Portugal?” e eu percebi ali, naquele exato momento, que era incapaz de conjugar qualquer verbo na segunda pessoa do plural e, temendo revelar a extensão de meu péssimo domínio da língua portuguesa tal qual praticada do outro lado do oceano, fiz a única coisa que meu cérebro conseguiu propor, que foi respondê-lo em inglês, alegando desconhecer o idioma de Camões, embora o senhor fiscal da alfândega tivesse em mãos meu passaporte brasileiro.

De maneira que esta singela coluna mensal tratará não apenas de comentar um pouco a cena artístico-festiva-literária berlinense, como também buscará remendar meu relacionamento com o mundo e, sobretudo, com a língua portuguesa (e a isso retornaremos, se o mundo permitir e não lançar um automóvel desgovernado em minha direção). A proposta, aqui, é pelo diálogo, uma espécie de ponte Brasil-Berlim-Portugal para todos aqueles que se interessam por arte e literatura, que estão vivendo na Alemanha ou pretendem em breve fazê-lo ou mesmo que já o fizeram, ou ainda para aqueles que, como eu, não conseguem passar uma semana sem se trancar do lado de fora da casa.

Subscribe

Subscribe now to our newsletter

Ao clicares nesta caixa, concordas (SIM) com os nossa política de privacidade e armazenamento dos teus dados para (e somente) envio te publicações periódicas sobre os conteúdos que publicamos na Janela Urbana.