O que a Lisa Congdon me ensinou

"Reindeer"

por Soraia Martins

Não foi há muito tempo que me cruzei com as ilustrações da Lisa. Minto: já lá vão uns anos, mas a frescura e a novidade mantêm­-se de tal forma que raramente me apercebo que já lá vão anos. Anos, meus senhores. A minha obsessão diária por ilustração é tão irónica quanto me é possível imaginar, pois não sei desenhar ou pintar. Perdi­-me de amores pela escrita e por outros rumos (ainda) desconhecidos e a ilustração nunca entrou na minha vida para deixar marca. Com a Lisa foi diferente, claro. Aos 32, corria ainda o primeiro ano da histeria milenar, Lisa Congdon inscreveu-­se numa aula de pintura por tédio puro causado pelo emprego que mantinha. A criatividade pulsava-­lhe no sem número de vasos capilares que lhe percorrem o corpo e, pelos vistos, desenvolveu­-se (e bem) durante os cinco anos seguintes, ainda que em privado. Em 2005, Lisa Congdon fez o que valia muito a pena fazer numa altura em que o universo digital era ainda pouco povoado: juntou­-se ao Flickr e da partilha à venda de trabalhos foi um pequeno passo.

A Lisa ensinou­-me muitas coisas, mas a mais significativa foi que é preciso viver. É preciso saber viver. Só consegues fazê-­lo se fores fiel a ti própria, se fizeres o que realmente queres fazer e se ignorares q.b. as convenções sociais que te impingem diariamente. Foi isso que lhe permitiu desenvolver as criações maravilhosas que constituem o seu mui preenchido portefólio. Já perdi a conta à quantidade de pessoas com quem já colaborou em tantas áreas distintas como nuvens num céu de Outono: MoMA, Harper Collins Publishing, HP, Chronicle Books, Relish Magazine, Poketo, Urban Outfitters, The Bold Italic, Flow Magazine. Continuo? Family Fun Magazine, Cloud9 Fabrics, Storey Publishing e Hello Lucky. Acreditem ou não, há mais clientes que se sentiram suficientemente atraídos pelas suas ilustrações para a contratarem e isso traz­-me alguma paz de espírito, particularmente por habitarmos numa era em que os artistas são subvalorizados a um ponto que quase me entristece.

Como não podia deixar de ser, convenci­-a a conversar um bocadinho comigo para alimentar a minha eterna curiosidade e fui bem­sucedida na minha missão.

O que quero mesmo saber é: tens uma cor preferida ou nem por isso?

Vai mudando. Sinto-­me atraída pelo rosa néon, obviamente. Mas as minhas preferidas de sempre são o azul e o verde, e todos os tons subentendidos.

Sendo uma artista de renome internacional, sentes que fazes parte de uma, digamos, comunidade de artistas visuais espalhados pelo mundo? É importante para ti saberes isso existe, mesmo que seja só online?

Sem dúvida! Sinto uma sortuda por ser artista neste momento em que vivemos. A internet é a plataforma perfeita para conheceres pessoas e te relacionares­ com outros criativos. Nem imaginas a quantidade de amigos e relações que já construí na vida real por causa das redes sociais ou da comunidade em São Francisco e em Oakland, onde vivo. Apoiamo­-nos mutuamente e ajudamo­-nos, acima de tudo. Até já comecei um grupo com alguns artistas meus amigos que vivem do outro lado do país! Estamos a tentar conceber horários que nos permitam conversar, lançar ideias, mesmo distantes. Ser uma artista freelancer pode tornar­-se muito solitário. Por vezes chego a trabalhar sozinha no meu estúdio ou no computador durante horas a fio e, por isso, saber que não estou sozinha é um sentimento inexplicável e motiva­-me imenso.

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