É tempo de Temps D’Images

Pablo Fidalgo, O estado salvaxe. Espanha 1939.

O tempo passa inexoravelmente para todos, os anos sucedem-se, as coisas acabam. Porém, há coisas que na impermanência de tudo o que existe conseguem manter-se, marcando as nossas vidas, ano após ano. Uma delas é o Temps D’Images, o evento que, a cada Outono, volta pontualmente a escrever uma página importante da agenda cultural da capital.

Criado em França em 2002 pelo canal televisivo Arte e por La Ferme du Buisson e logo espalhado por toda a Europa, o Temps D’Images é um festival dedicado ao diálogo entre artes performativas e imagens em movimento. Com este conceito, em 2003 chegou a Portugal e, desde então, nunca mais parou de crescer.

Hoje, 11 anos depois, o Temps D’Image Portugal afirmou-se já como realidade imprescindível no panorama cultural de Lisboa. A recente edição, a decorrer por estas semanas, é mais um exemplo disso. “15 espectáculos, 4 instalações, 2 conferências e 89 filmes, no espaço, no palco, no ecrã e no microfone“, mas também – é preciso acrescentar -, 13 locais diferentes e 16 diferentes programadores.

Perante tão hercúleo trabalho, tivemos de falar com António Câmara, director do festival, para percebermos como é que tudo isto se faz.

O que caracteriza esta décima primeira edição do Temps D’Images?

Todos os projectos que nós vamos apresentar são projectos novos, são estreias, criações que foram feitas para o Temps D’Images. Talvez isso seja o que mais me orgulha, porque o Temps D’Images, além de ser um terreno da experimentação, do risco e da liberdade, este ano, pela primeira vez, podemos assumir que é um terreno da novidade.

Na programação há uma forte presença de artistas portugueses. Porquê?

É uma escolha deliberada. O que no Temps D’images se tenta fazer é escolher artistas portugueses, que têm normalmente pouco espaço de palco, pouco espaço de ecrã, naturalmente tentando encontrar um equilíbrio entre os reconhecidos e os não reconhecidos ainda. De facto, se não for o Temps D’Images, não há muitos outros lugares para jovens artistas,  que muito dificilmente conseguiriam ter um espaço de prestígio cultural na cidade.  E, naturalmente, o Temps D’Images, que tem principalmente um financiamento nacional, desde quase o inicio, sempre esteve muito mais direccionado para a criação portuguesa do que para a criação estrangeira.

Falando do início, o que mudou desde a primeira edição?

Quando comecei o Temps D’Images em 2003-2004, eu tinha dois espaços: o CCB e a Cinemateca. Sou formado em Cinema e quando fui pedir em Paris para fazer o Temps D’Images em Portugal, a política do festival era concentrada em dois fins-de-semana, num único espaço e sem cinema. Eu achei, logo desde o inicio, que, se o Temps D’Images era uma relação entre o Palco e a Imagem, o Cinema tinha em si próprio, lá dentro, uma relação entre Palco e Imagem. Assim comecei: com dois espaços, 4 espectáculos, duas instalações e um ciclo de cinema. Hoje, temos uma programação muito mais extensa, que extravasa o tempo e o espaço próprios de um festival.  E uma série de programadores que comigo fazem o Temps D’Images. O TDI continua a não ter uma assinatura minha e é isto que o faz plural também, porque é programado por uma série de pessoas que dirigem alguns teatros, outros espaços, outros museus, outros galerias.

Qual é o balanço destes últimos onze anos?

Apesar das coisas terem sido muito melhores a nível de financiamento, – estamos, por exemplo, num dos nossos mais baixos orçamentos-, acho que o Temps D’Images se  incrustou na cabeça das pessoas. É um projecto que veio e se sedimentou, que os artistas pensam quando fazem as suas novas obras, e que os espaços e os responsáveis dos espaços muito acarinham. Portanto, apesar do financiamento ser agora um grave e grande problema, penso que o Temps D’Images  teve um crescimento proporcional à nossa cidade e que será muito difícil de matar.

Como vês o Futuro do Temps D’Images Portugal? 

Eu não queria tornar o Temps D’Images muito maior do que aquilo que é. O que queria era ter mais dinheiro para dar aos artistas, queria dar mais condições financeiras para criação, e acima de tudo, assegurar uma circulação europeia que, essa sim, deve ser financiada pela Europa ou pelos nossos parceiros europeus. De resto, estou feliz.

 

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