FETICHISTA DE INTERIORES

A nova crónica de Caio Yurgel. Tópicos a serem discutidos: uma visita à IKEA; o sentido da vida; um abajur cinza.

(Tópicos a serem discutidos: uma visita à IKEA; o sentido da vida; um abajur cinza.)

Texto: Caio Yurgel

Foto: Camila Gonzatto

 

Minha primeira atitude doméstica em Berlim foi curto-circuitar um eletrodoméstico. Minha segunda foi ir à IKEA.

A IKEA é uma universidade. A IKEA difunde sabedoria. Por suas portas adentramos cheios de planos e sonhos; de suas portas emergimos anos mais tarde cínicos e desiludidos. O sol nos ofusca, sequer sabemos mais como atravessar uma rua. Nossa juventude ficou para trás. Estamos agora sobrecarregados com informações e produtos que nem sabemos como foram parar em nossas mãos – queríamos apenas um emprego e saímos com um título de mestre em filosofia e dois escorredores de talheres que estavam em promoção. Ao invés de diplomas: instruções de montagem. Nenhum dos dois parece cumprir muito bem sua função – em épocas de crise há de se fazer um esforço extra. Ao menos as almôndegas suecas do refeitório da IKEA são quase tão baratas quanto as almôndegas genéricas do refeitório da universidade. A diferença de preço é uma simples questão semântica: paga-se mais pelo nórdico direito de se consumir tremas e consoantes repetidas. Köttbullar.

E também: gosa vädd, berlevåg, solsta pällbo, ödmjuk – entidades metafísicas que não significam coisa alguma, ou não mantêm qualquer relação com a realidade que identificam (“ödmjuk” é sueco para “humildade”, e refere-se, obviamente, a uma caneca de café). A IKEA não existe. A IKEA é uma ficção criada por Borges em 1944. Em Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, o escritor argentino evoca um suposto complô entre intelectuais que almejavam criar um mundo chamado Tlön. O mistério aumenta à medida em que artefatos tlönianos começam a ser desvendados, até o ponto em que a própria Terra já está em vias de tlönizar-se. Como um mostruário da IKEA.

Destituído de posses berlinenses, vi-me obrigado a comprar um escritório inteiro, de mesas a cadeiras, de lâmpadas a tapetes. Espalhados pela sala, os móveis atingem seu objetivo: simulam a autenticidade de uma atmosfera caseira. E, tanto mais me acostumo a ver meus móveis onde estão, tanto mais eles me parecem autênticos. Embora sejam falsos, um pacote comprado pronto e reproduzido a algumas dezenas de quilômetros do mostruário que lhe deu origem. Tlönizo-me: apesar de meu esforço por autenticidade, o escritório permanece artificial; apesar de sua artificialidade, o mostruário da IKEA parece real.

Os mostruários da IKEA possuem algo que nossas casas recém-mobiliadas ainda carecem: uma narrativa. Nas páginas de seus catálogos extremamente bem produzidos encontramos parágrafos dedicados a conjurar a atmosfera e o caráter de salas e cozinhas, filosóficas linhas sobre o sentido da vida: O segredo da vida em casa é criar espaços que deixam o dia a dia acontecer, espontaneamente. É fazer tudo o que quer. Tudo o que gosta. E permitir que a sua família faça o mesmo. Pois quando a casa está em sintonia com a sua vida, a vida torna-se ainda melhor, prometem as clarividentes primeiras páginas do catálogo de 2014. E não é justamente isso mudar-se para outra cidade: preencher seus cômodos com narrativas que nos façam sentir em casa?

Dentre as muitas coisas que comprei na IKEA está um pequeno abajur cinza (lampan). Com frequência, caminhando pela cidade, vejo o mesmo abajur em apartamentos desconhecidos. Por vezes paro e fico olhando pela janela, pensando nas histórias que aquele abajur teria para contar. Então percebo estar parado no meio da calçada a olhar fixamente para dentro de uma casa desconhecida. Alemães não apreciam que sul-americanos olhem fixamente para dentro de suas casas. Ficam nervosos. Como se nós viéssemos de Tlön.

 

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Acabei esquecendo de comprar um substituto para o eletrodoméstico que curto-circuitei. Melhor assim. Assim já tenho uma desculpa para voltar à IKEA.

 

 

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