“Hoje”, o Tiago voltou

Tiago Guedes em “Um Solo”. © Xana Bandola

Lisboa e Torres Novas já o aplaudiram, só falta o Porto. Finalmente, depois de anos de espera, volta uma das vozes mais importantes da dança contemporânea portuguesa, com um trabalho novo e a tal ponto inscrito no presente, que do presente toma a inspiração e o nome. À conversa com Tiago Guedes, sobre o caminho que o levou até Hoje.

 

Desde a tua peça anterior até  Hoje passaram 5 anos. Porquê esta pausa?

Tive um trabalho criativo muito muito forte, que começou em 2001, quando tinha 24 anos. A certa altura, como comecei muito jovem, senti que não tinha os alicerces necessários para continuar. Sempre senti que precisava de tentar perceber o que me interessava, o que andava a fazer. Em 2008, na altura de Coisas Maravilhosas,  senti que estava a trabalhar sem ter a verdadeira pulsão de o fazer, sem sentir a necessidade de o fazer. Não sendo para mim o trabalho criativo um trabalho de rotina, mas um trabalho de pulsão, quando efectivamente se tem a necessidade de trabalhar, achei que era uma boa altura para me afastar e focar-me artisticamente em outro tipo de projectos. Foi aí que, em 2009, criámos a primeira edição do Festival Materiais Diversos.  E tem sido muito bom, porque pus o meu pensamento artístico e criativo ao dispor de outros projectos, e, também, porque pude reflectir sobre o que é que, hoje em dia,  faz sentido para mim, e o que eu próprio, enquanto artista, quero fazer.

Mudou a tua maneira de pensar a dança neste últimos 10 anos?

Mudou. O meu trabalho inicial era um trabalho quase em oposição a tudo o que tinha aprendido na escola,  quase uma reacção a um trabalho mais formalista, onde o movimento é a coisa central. No meu trabalho convocavam-se muitas outras áreas: o teatro, a performance, a arquitectura, sendo que o corpo era um corpo no espaço a convocar diferentes universos. A grande mudança foi uma espécie de regresso ao corpo e ao movimento, uma espécie de testar esta minha formação, enquanto bailarino e coreógrafo, sendo que eu já me afastei dela, e como é que era aproximar-me agora. Com menos conceitos, com menos pudores, não estando agarrado ao resto do meu outro trabalho, não tive de continuar onde acabei, e pude começar uma coisa nova.

 

De onde surgiu Hoje, como nasceu?

A peça deu muitas voltas. Começou por ser um projecto onde eu queria analisar como é que o nosso corpo muda, quando estamos em situações sociais de ajuntamentos como,  por exemplo, as manifestações. Queria tentar perceber o que é que nos faz sair dos nossos sítios mais individuais para nos juntarmos em grupo, e que tipo de mecânicas são estas das pessoas sentirem uma necessidade de estar em grupo, mas também uma necessidade enorme de isolamento. A peça veio do que eu vejo como actor da realidade social em que vivemos. Eu acho que a Arte é iminentemente politica. Quando os artistas estão engajados socialmente, como eu sou, inevitavelmente o que se faz terá um traço qualquer do que está a acontecer hoje em dia. Queria que estas questões sociais se transformassem em escrita coreográfica, que a escrita coreográfica bebesse um pouco desses mecanismos, mas sem, com isso, fazer uma peça descritiva e documental a cerca do estado actual da sociedade.

Desde as primeira peças, o teu trabalho tem uma relação muito forte com os objectos. Como foi trabalhar com os colchões de Hoje

Nas minhas peças, os objectos sempre foram convocados para dar outros significados. Neste espectáculo, partimos da ideia de encontrar um material que significasse uma espécie de chão instável. Daí chegaram os colchões. Os colchões têm várias significações. Por um lado, temo-los como matéria, o chão instável, mas também como monólitos, como edifícios, mas no sentido figurado: o edifício democrático que hoje em dia está sempre em constante ruído. Depois temos os próprios significados do colchão, que é o sitio ligado a uma coisa mais pessoal, onde muitas vezes, no meio da confusão toda, encontramos uma espécie de refúgio. Portanto, estes colchões são colchões, mas gosto mais de pensar que são uma matéria moldável, uma matéria super sólida, mas na verdade super frágil.

 

Nas tuas primeiras peças, além de coreógrafo, também eras intérprete. Em “Hoje” trabalhas com um grupo de bailarinos. Como é que é estar fora do palco?

Eu gosto de estar fora. Quando és intérprete e coreógrafo estás mais engajado, estás mais dentro, mas é uma posição bem complicada, porque tens de sair e, se sais, falta sempre uma coisa lá. É difícil estar dentro e fora ao mesmo tempo. Desde a minha última peça que decidi estar fora. Há um lado se calhar menos autoral, a nível do movimento, que é construído pelos intérpretes, mas, por outro lado, há uma visão do todo. Tens mais controlo, e ao mesmo tempo, a peça tem uma vida mais própria, que não depende só de ti. É uma relação mais emancipada.

Nos últimos anos, com o Festival Materiai Diversos, levaste a dança e as artes performativas para fora das grandes cidades. Como foi este desafio?

Foi um desafio interessante. Quando fiz aquela pausa em relação ao meu trabalho, achei que seria muito interessante canalizar a programação artística num contexto muito especifico, desenvolvendo um projecto onde a comunidade estivesse envolvida desde o início, mas o eixo fosse a dança contemporânea, projectos com um nível artistico muito elevado. Como Lisboa não precisava de mais um festival, decidi fazer isso no sítio de onde sou, na minha região, prestando, desde o início, muita atenção às pessoas, com projectos comunitários, participativos, e muito voluntariado no Festival, como se fosse uma festa. O balanço é muito positivo. É um bom desafio, esta ideia que eu gosto muito de defender. Há um certo tipo de projectos que não têm de ser elitistas, muito pelo contrário. Tem é de se saber como é que as pessoas chegam a eles.

Hoje está no Teatro Nacional São João no Porto, nos dias 13 e 14 de Dezembro.

 

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