Duas Passagens Natalinas

Enquanto 2014 nos arrasta rapidamente em direcção ao Futuro, ainda encontramos, perdidos por aí, os vestígios do Natal recém passado. Um deles é a crónica do nosso correspondente em Berlim, Caio Yurgel que, da cidade finalmente iluminada pelas festas, nos conta os desafios de um brasileiríssimo "Papai Noel", a braços com uns vizinhos muitos pouco "natalinos".

Texto: Caio Yurgel

Foto: Camila Gonzatto

 

Do outro lado da porta havia um carteiro com uma expressão natalina no rosto. Não há pior expressão para um carteiro que uma expressão natalina. É como ver um Papai Noel com dor de barriga. Antes mesmo que eu pudesse enunciar um bom dia (eram três da tarde) já havia uma pilha de pacotes sobre meus braços. Assina aqui, resmungou o carteiro, que sem dúvida precisaria estar em três lugares simultaneamente se desejasse vencer a lista de entregas do dia. Eu assinei. Eram sete os pacotes, e nenhum endereçado a mim. A matemática não parecia estar a meu favor. Tentei compartilhar meu receio com o carteiro, expliquei-lhe em meu alemão renascentista que em menos de uma semana embarcaria rumo ao Brasil, e que talvez fosse mais sensato se deixássemos as encomendas com outrem. Mach nicks, respondeu ele em seu sotaque berlinense, reduzindo a um par de palavras aquilo que me teria exigido ao menos uma dúzia para exprimir, Du schaffsts. Desenrasca-te, pá; te vira, parceria. E, enquanto ouvia os passos do carteiro sumindo escada abaixo, cheguei à conclusão de que era bem isso mesmo que acontece quando são três da tarde e és a única pessoa em casa no prédio inteiro. É isso que acontece quando são três da tarde e deverias estar trabalhando – seu maldito freelancer – mas ao invés estás a ponderar se é cedo demais para abrir a primeira garrafa de vinho do dia.

Arranjei teutonicamente os embrulhos sobre o baú da sala e, depois de abrir a primeira garrafa de vinho do dia, decidi que residia ali uma excelente oportunidade. Pelos próximos dias eu seria o Papai Noel do prédio, e teria portanto ocasião de conhecer cada um de meus silenciosos e ordeiros vizinhos, o que faziam da vida e o que os trazia a Berlim. Até arrumei um pouco meu apartamento, para dar aos vizinhos a impressão de que eu conduzia uma vida virtuosa e organizada. Descobri inclusive que debaixo de uma pilha de roupas havia uma poltrona, motivo de celebração suficiente para justificar a segunda garrafa de vinho do dia. Sentado ao lado dos pacotes, à espera do primeiro vizinho a bater em minha porta, comecei a imaginar cenários e diálogos, já havia convertido a situação toda num episódio de Friends germânico: Freunde. E talvez num universo paralelo minhas fabulações teriam tornado-se realidade, mas apenas se esse universo paralelo fosse uma comédia romântica norte-americana. A verdade é que um a um os sete donos dos sete pacotes vieram buscar suas encomendas, um a um apresentaram-se e disseram a que vieram, agradeceram e desejaram-me um feliz Natal. Foram todos muito educados e simpáticos, o que não impede que o resultado tenha sido frustrante: sei sobre eles agora o mesmo que sabia uma semana atrás. O que talvez seja uma boa moral da história em épocas de especiais natalinos para a televisão: não é desta vez que a tua alma-gêmea se sentará no assento ao teu lado no avião.

Os Pacotes
Foto: Caio Yurgel

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Berlim é uma cidade iluminada por sombras. Os postes de luz emitem um brilho difuso, feito uma constelação a milhões de quilômetros de distância. É o suficiente para que as pessoas não colidam pelas calçadas, porém nunca se sabe se quem vem na direção oposta é uma mãe com uma criança de colo ou um zumbi que acabou de retornar dos mortos. O mistério faz parte do charme local.

É por isso que o Natal invade a cidade com tanto gosto: enfim Berlim brilha. Sua iluminação econômica recebe o reforço de vermelhos e azuis, laranjas e violetas. As árvores, cujas folhagens foram abatidas pelo frio, são agora coroadas por enfeites luminosos. O cheiro doce de Glühwein confunde-se com a iluminação a gás das feirinhas de Natal. As vitrines estão iluminadas e há mais gente na rua. E, com tanta luz ao redor, fica fácil de ver mesmo à distância que o zumbi que vinha na direção oposta era na verdade um hipster com jeans rasgado e cabelo calculadamente despenteado.

 

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