Olga Noronha: um novo olhar sobre a joalharia

Com apenas 23 anos e prestes a integrar pela 2ª vez o “Sangue Novo” da ModaLisboa, já em Março, Olga Noronha não deixa ninguém indiferente às suas impactantes “jóias-esculturas” que se fundem e interagem com a anatomia humana.

por Joana Jervell

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Com apenas 23 anos, numerosas exposições e colaborações no curriculum, e prestes a integrar pela 2ª vez o “Sangue Novo” da ModaLisboa, já em Março, Olga Noronha não deixa ninguém indiferente às suas impactantes “jóias-esculturas” que se fundem e interagem com a anatomia humana. Actualmente a frequentar o 2º ano de Doutoramento na Universidade de Goldsmiths em Londres, Olga atribui uma inovadora abordagem e sentido ao universo da joalharia e nós fomos descobri-la.

Como defines uma jóia tua? Qual o denominador comum que procuras desenvolver nas tuas criações?

Começo por pensar numa peça que possa ser usada, afinal foi sempre esse o objectivo daquilo a que chamamos joalharia. No entanto, o termo “usável” para mim é muito ambíguo… Tento com as minhas peças explorar posicionamentos e áreas menos comuns, e enfatizar ou eufemizar extensões do corpo. No fundo, o acto de usar uma peça, seja ela de que tamanho ou valor fôr, é já por si só uma forma de a exibir. O corpo torna-se assim como que uma showcase que, não sendo estática, conjuga o seu movimento com a vida implícita do “objecto de arte”.

 

E desta forma conseguiste elevaste o conceito de joalharia a toda uma “nova dimensão artística”! Em que momento é que te apercebeste que querias associar esta linguagem/conceito ao teu trabalho?

O meu pai é cirurgião ortopedista e a minha mãe é também médica e, apesar de eu ter decidido enveredar por uma carreira artística, sempre tive contacto com materiais médico-cirúrgicos. Há cerca de três anos comecei a observar mais atentamente as ferramentas e técnicas cirúrgicas e a interrogar-me até que ponto poderia ou não conjugar o pragmatismo científico e o conceptualismo da arte, particularmente a joalharia. E foi assim que surgiu este projecto… um novo conceito de joalharia, que explora a fusão entre anatomia e medicina, tendo como ponto de partida a manipulação de objectos e materiais utilizados a nível médico e cirúrgico, de forma a criar objectos/esculturas/jóias intimamente relacionadas com o corpo humano. O que pretendo é, sobretudo, que os objectos se comportem como se estivessem em “diálogo” com o corpo onde são colocados.

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E o que é que mais te seduz neste diálogo tão íntimo entre jóia-corpo? Claramente o trabalho de pesquisa sobre o corpo humano é algo que te fascina verdadeiramente…

Sim. Tendo em conta os presentes e futuros avanços a nível bio-tecnológico que permitem a um objecto penetrar e perfurar a pele e o tecido subcutâneo celular, e também a possibilidade de inserção de outros materiais a um nível mais profundo no interior do corpo, tenciono transformá-lo numa superfície passível de ser manipulada e reconfigurada.

Na minha mais recente exposição, “Joalharia Medicamente Prescrita”, apresento 6 níveis de jóias, organizando-as pela sua visibilidade, em que introduzo o conceito de joalharia subcutânea, exo-dérmica, exo-corporal e intra-corporal. A intenção desta investigação foca-se no desvio do conceito de valor e luxo, para um debate sobre ciência médica e body-design, iniciando a produção de objectos requintados e impactantes, mas ao mesmo tempo dando origem a fortes comentários sociais, gerando assim uma discussão sobre a nova direcção dos rituais sociais, a relação entre design e ciência e sobre os problemas que surgem quando a estética se liga a ética.

 

Até que ponto é importante para ti suscitar essa inquietação e provocação no público?

Gosto particularmente de desafiar-me a mim mesma. Sempre que escolho um tema inicial para algum projecto ou colecção automaticamente “obrigo-me” a optar pelo percurso mais difícil, por considerar que as espectativas irão aumentar e a probabilidade de me subestimarem será também muito maior. E, por estranho que pareça, ser subestimada é algo que me dá um certo gozo porque consequentemente a probabilidade de surpreender aumenta!

E sim, com o meu trabalho espero sempre uma reacção do espectador, seja ela boa ou má… desta forma acarinho as dúvidas e todas as surpresas que com elas podem surgir.

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Fala-nos dos materiais “menos convencionais” com os quais trabalhas…

Para além dos habituais materiais de joalharia (ouro, prata, pedras preciosas e semi-preciosas), utilizo materiais de orto-protesia como polizar, laminado, plastozote e polipropileno; depois, agulhas, fios de sutura, próteses de substituição articular, próteses de silicone mamário, entre muitos outros.

 

Quais os artistas/criativos que mais admiras e cujo trabalho te inspira?

Damien Hirst, Naomi Filmer, Gerd Rothmann, Christoph Zellweger, Revital Cohen, Hussein Chalayan, Alexander Macqueen , Gareth Pugh, Alexander Wang, Nick Knight… Todos eles são para mim grandes fontes de inspiração pelo investimento criativo que fazem em aspectos sempre inovadores e vanguardistas, sejam estes diferentes pontos de vista sobre o mesmo quotidiano ou representações objectificadas inesperadas.

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Há alguém em especial que gostasses particularmente de “vestir” com as tuas jóias?

Daphne Guinness, pela sua incrível identidade que se reflecte na ousadia de se mostrar tal como se sente.

 

O que é mais gostas na tua profissão?

Poder dar asas à minha imaginação, sem limites previamente impostos, e com a actual colecção ajudar a superar fobias e constrangimentos no uso de ortóteses e próteses desprovidas de beleza e estética. Resumindo,  gosto de colocar a minha criatividade ao serviço do bem-estar e prazer da humanidade.

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Sendo tão incrivelmente jovem, como te sentes neste momento da tua vida tendo em conta o que já alcançaste?

Amo o que faço e encaro o meu trabalho como um hobbie a tempo inteiro… E sem dúvida que ver que há quem vibre com o meu trabalho dá-me cada vez mais força para continuar. O meu pior e mais exigente cliente sou eu mesma, e ao ver que os resultados são positivos isso faz-me querer ser continuamente mais e melhor.

 

Onde se podem adquirir as tuas peças?

Fora das exposições, a forma de as adquirir é entrando em contacto comigo uma vez que eu trabalho, regra geral, por encomenda.

 

Foto: Marta Guimarães
Olga Noronha | Foto: Marta Guimarães

 

Como te defines em 3 palavras?

Apaixonada pelo que faço, metódica e persistente.

 

Quando não estás a trabalhar onde te podemos encontrar e a fazer o quê?

À beira mar, em plena abstracção e silêncio.

 

Ultimamente andas obcecada com algo em particular?

Terminar o doutoramento, terminar o doutoramento, e terminar o doutoramento!!!

 

Planos para um futuro próximo?

No fundo quero tentar chegar o mais alto possível em diferenciações curriculares. Ambição não me falta e sou 100% apologista do “lutar para vencer” porque afinal “quem corre por gosto não cansa”. Neste momento, um dos meus principais objectivos é provar, através da investigação artístico-científica, que o corpo se pode adaptar a materiais e formas distintas ainda mais belo depois de ser “reparado”.