London Calling

por: João Telmo

As perucas azul eléctrico, longas e aos caracóis descansam, nervosa e alinhadamente, nas cabeças feita de espuma de polistireno, pousadas no toucador pintado a cor-de-laranja choque encimado por um espelho hexagonal pejado de fotografias e recortes de jornais matinais e vespertinos. Dentro do quarto exíguo, bafiento e sem janelas em Aldgate East, uma, duas, três, quatro, cinco criaturas encetam o ritual semanal de composição de teste de imagem, produzido sempre por ultra-maquilhagem, técnicas de DIY e conjugações improváveis de acessórios, casacos, saias, calças e sapatos plataforma. Circunstâncias acidentais, perigosas. Criaturas devassas, proibidas, apoplécticas.  Uma, duas, três, quatro, cinco acotovelam-se, irritam-se e lutam pela melhor perspectiva concedida pela área insuficiente e escassa do espelho que, à medida que as horas no relógio de plástico pendurado na parede contígua passam, parece tornar-se cada vez mais diminuto e incapaz de dar vazão à solicitação bélica e ziguezagueante pelos seus serviços. Os casacos e as calças de ganga com lavagens sandwash, vintage, indigo e antique têm correntes, colheres de sopa, garfos e ganchos dourados minuciosamente cosidos às camadas de tecido extra, de padrão escocês, pièd-de-poule e xadrez tartan. Os lenços são aos quadrados, às bolas e às riscas. Os ténis são da FILA, da Reebok ou da ADIDAS e as botas Dr. Martens às flores pluricromáticas com biqueira de aço. Uma, duas, três, quatro, cinco saem de casa. O relógio marca as 23H11m. É mais uma noite de folia no Club for Heroes em Baker Street e estamos em Londres em Março de 1983.

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O multifacetado Victoria and Albert Museum da capital britânica faz a curadoria de uma exposição denominada de “Club to Catwalk: London Fashion in the 1980’s” que pode ser vista até final de Fevereiro e que explora a manifestação ruidosa e criativa londrina na área da moda nos anos 80. Foi uma década que permitiu catapultar e introduzir sob uma lupa de lente hiper-ultra convergente a carreira de novos e talentosos estilistas e que viu emergir profusamente a cena musical e o clubbing. Nessa altura, a London Fashion Week foi toda repensada e remodelada de forma a poder dar espaço e visibilidade consistentes aos talentos emergentes e aos novos designers. O que era mostrado nas passarelas chegava à imprensa internacional e as encomendas dos sítios mais impronunciáveis do globo terrestre começavam a surgir. O governo britânico fazia questão de promover activamente a indústria. Surpreendentemente, o sector da moda encontrou, nessa altura, em Margaret Thatcher uma harmoniosa confederação e aliança, tendo a primeira-ministra afirmado que “a moda é importante por que aumenta a qualidade de vida quando as pessoas se dão ao trabalho de se vestirem bem, proporcionando, igualmente, o emprego de muitas, muitas pessoas”. Os estilos presentes na exposição são tudo menos thatcherianos, apesar da abundância de botões dourados, casacos em tweed e penteados com laca extra queijo.

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A exposição está dividida em dois pisos e apresenta mais de 85 coordenados de designers como Betty Jackson, Katharine Hamnett, Wendy Dagworthy, John Galliano e Vivienne Westwood. Alguns dos figurinos expostos chegaram mesmo a ser usados por seres iconoclastas da cena musical e teatral britânica dos anos 80 como Adam Ant, Leigh Bowery, Steve Strange ou Boy George. A exposição explora a relação simbiótica entre o que era apresentado nas passarelas e o que era usado nos clubes de dança como o Heaven, o Taboo, o Blitz ou o Camden Palace. Na cena clubbing permitiam-se os desavergonhados excessos, a extravagância, os caprichos, os disparates. Cheirava a licra, a poliéster, a cabedal, a poliamida, a pêlo falso, a fazenda e a poliuretano elastométrico. Tudo junto no mesmo outfit, na mesma pessoa, na mesma divisão anatómica. Encorajava-se um novo tipo de androginia, uma renovada forma de olhar para o corpo e de o adornar. Na exposição podemos encontrar por galerias as categorias inventadas para definir a parafernália de novos estilos que surgiram na altura: English Eccentrics, New Romantic, New Punk, Body Map, Rave, New Goth, Glam Fetish e Camp. E, no fim, somos brindados com a projecção do filme Taboo, onde é apresentada footage exclusiva e privilegiada passada nos anos 80 no clube de dança, algures em Russel Square, que dá nome ao filme.

Uma, duas, três, quatro, cinco dançam em frenesi na pista multi-género, über matizada e ultra-radioactiva e rodam veementemente as perucas azuis. Ele, ela, eles, elas desfilam, coreografam, fotografam, maquilham-se. São os ‘80’s, é Londres e as trends acontecem a cada nova batida na cabine do disc jockey.