NOS Primavera Sound – Dia 3

Texto: Viviana Martins & Luis Sustelo
Fotografia: Luis Sustelo

– o –

E pronto. Chegámos ao último dia do festival. O dia das despedidas, do cansaço e da saudade que já se começa a sentir mesmo antes de acabar. Apesar disso tudo, ontem esperava-nos um dia bem mais tranquilo do que os anteriores e só tínhamos uma coisa em mente, The National. Prometemos tentar ser imparciais neste assunto e antes dos National (como se ouve dizer) houve muita coisa para ver. You Can’t Win, Charlie Brown, das nossas bandas portuguesas mais queridas, abriu o dia no Palco NOS. Todo a gente sentada na relva a desfrutar do bonito quadro que se compôs ao som de temas como I’ve Been Lost, Over The Sun / Under The Water ou Be My World. Foi um final de tarde “à Primavera” com uma viagem a todos os trabalhos da banda. Se existe algum tipo de música que possa caracterizar em som o que se vê no Parque da Cidade são estes amigos. É amor o que sentimos por eles, não vale a pena. Ficámos embalados com os YCWCB, por isso foi difícil abandonar a relva e partir para outro concerto. Entretanto, Lee Ranaldo & The Dust começaram logo ali ao lado. O Palco Super Bock esteve bem composto para receber Lee Ranaldo talvez com a esperança de reencontrar um pouco de Sounic Youth. De guitarra bem afinada e acompanhado pelo resto da banda, Lee percorreu o seu trabalho com temas como The Last Night On Earth, Black Out e The Rising Tide. Um concerto calmo, sem grandes momentos altos. No Palco ATP, é hora de ver os canadianos Yamantaka // Sonic TitanNão esperávamos muito deste grupo. Para sermos sinceros, não os conhecíamos de todo. Apresentam-se como uma banda psicadélica de ópera noh-waeve. Não fazemos a mínima ideia sobre o que isso significa, mas foi um concerto interessante em termos visuais – todos os elementos tinham as caras pintadas e deu para recordar o filme da nossa infância, Mulan (somos dos anos 90, lembram-se?). Se foi o concerto da nossa vida? Mentiríamos se o afirmássemos. Foi uma experiência agradável.

Seguem-se os Neutral Milk Hotel, uns dos cabeça de cartaz do festival. Aqui vamos ser muito sinceros, não entendemos como é que em pleno século XXI uma banda não se deixa fotografar, nem emitir o concerto em directo nos ecrãs laterais, muito mais num festival em que há pontos de onde não se consegue ver bem os concertos. Cada artista tem essa liberdade, e ainda bem que assim é, mas há coisas que pronto, não conseguimos digerir bem. Outros assuntos de parte, houve quem gostasse muito do concerto, nós já com o nariz torcido e sem apreciarmos muito o tabalho da banda, achámos o concerto mediano mas competente. Passando por maior parte dos êxitos da banda, como Two Headed Boy, Everything Is, Angel Eyes e In The Aeroplane. A seguir, tivemos John Grant. Gostamos muito deste músico e, desde o concerto no São Jorge, em Dezembro passado, ainda gostamos mais. A simpatia e simplicidade de John chega a ser amorosa e impossível de não admirar. John começou o espectáculo com temas da sua época mais clássica, mais calminha. No arranque ouviu-se a maravilhosa Marz. De Pale Green Ghosts, o álbum em que salta para os sons da electrónica, ouviu-se Vietnam, a hilariante Greatest Motherfucker e Black Belt. Já aqui dissemos que gostamos muito do Johnmas a ansiedade pelo que vinha a seguir foi maior e saímos do concerto antes do seu fim, para nos pormos a caminho do Palco NOS onde os The National estavam quase quase a entrar.

Não há como esconder: os The National são uma das nossas bandas favoritas e torna-se difícil colocar os sentimentos de parte nesta altura. Não foi a primeira, nem a segunda vez que vimos a banda de Matt Berninger ao vivo. A primeira foi a melhor e a mais especial, mas todos têm sido impossiveis de esquecer. Perdemos o concerto no MEO Arena, em Novembro, que serviu de apresentação do novo álbum Trouble Will Find Me, por isso, para nós, a noite de sábado foi a nossa estreia a ouvir temas como Don’t Swallow The CapI Should Live In SaltGraceless e a Hard To Find, que quase quase nos fez chorar. A verdade é que a partir dos primeiros acordes da guitarra de Bryce, um dos irmaos Dessner, em Conversation 16, até ao final do concerto, com Vanderlyle (crybaby Geeks), estivemos com o coração nas mãos e, a qualquer momento, poderíamos desatar num pranto. É muita coisa cá dentro. Pelo meio, tivemos St Vincent em palco, só para dar um ar dar sua graça, em Slow Show e um habitual Matt a procurar o amor do público entre a multidão que lá estava presente (tocamos na cabeçinha dele, num momento destes não conseguimos ser profissionais). Não faltaram as mais intensas (para nós), Mr November e Fake Empire. Sentimos falta da About Today e detacamos a Ada, que ou a nossa memória nos falta, ou nunca a tinhamos ouvido ao vivo. Ainda havia tanto para ouvir, tanto para dizer e sentir, mas é bom que acabe sempre assim, para que haja sempre razao para regressar. E, quando regressarem, nós vamos estar lá com as lágrimas nos olhos e o coração a bater mais forte. É isto que é o amor.

Enquanto, no Palco NOS, a Viviana se deliciava com os The National, no Palco ATP, encontrámos uma plateia cheia à espera de Charles Bradley. Se se achava difícil competir com a banda liderada por Matt Berninger, a verdade é que o o cantor de 63 anos o fez com pompa e circunstância. Acompanhado por uma banda “a sério”, autor de Confusion proporcionou um concerto recheado de soul e funk. Com uma voz rouca e poderosa e uns movimentos de anca, que nos fizeram recordar o magnífico James Brown, este veterano do soul apresentou temas do seu primeiro álbum No Time For Dreaming, editado em 2011, e do último, Victim of Love, editado em 2013. Era um dos concertos que mais aguardávamos e não nos desiludiu, nem ao público presente – no meio da multidão ouvia-se “Grande voz!” e “Grande senhor!”.

Por nós, o festival já estava mais que ganho, mas ainda há muita coisa para ver e ouvir. St Vincent já está pronta e, apesar de não sermos muito fãs da artista, não podíamos deixa lá passar para a ver. Demasiada performance, demasiada encenação, foi o que retirámos do concerto de Annie Clark. Digital Witness, Birth In Reverse e Give Your Loves foram alguns dos temas, que se ouviram, do novo e aclamado St Vincent. Mais antigos, Cruel, Marrow e Strange Mercy fizeram as delícias do público. Quando olharmos para traz nao vamos recordar este concerto como um dos melhores deste festival, mas a curiosidade em ver a carismática St Vincent ao vivo foi saciada.

Terminado o concerto de St Vincent, fomos directos ao Palco NOS, para ver o espectáculo de encerramento do palco principal do festival. Está na hora de ouvirmos !!! (CHK CHK CHK). O grupo americano, nascido em 1995, não desiludiu e Nic Offer deu tudo o que tinha para oferecer. O frenético vocalista percorreu o palco duma ponta a outra e cativou a multidão que o recebeu de braços abertos. A banda veio apresentar o seu mais recente álbum Thr!!!ler, editado em 2013, mas não se esqueceu de nos relembrar o seu repertório de êxitos anteriores, One Girl/One Boy foi uma das nossas favoritas. Entre saltos, corridas e descidas à plateia, os !!! (CHK CHK CHK) fizeram com que o público, que parou no palco NOS, mexesse a anca e se deixasse levar pelo entusiasmo e carisma de Nic Offer.

Segundo dados da organização, foram 70 mil, os que passaram este ano pelo Parque da Cidade, durante o festival NOS Primavera Sound. Quase que apostamos que pelo menos 50 mil só não irão voltar por motivos muito fortes. Este é o festival onde o simples se torna belo, onde vivemos num mundo quase perfeito, à parte de tudo o resto. Num rescaldo final, não esqueceremos a estreia do rapper Kendrick Lamar, de um Caetano Veloso ainda cheio de energia, de uns Slowdive surpreendentes, de uns Darkside hipnóticos, do rei do soul Charles Bradley e de uns The National a serem o que sempre são, transcendentes.

O NOS Primavera Sound, com apenas três anos de vida, provou mais um vez ser um dos melhores festivais em Portugal, ganhando pela diferença. Já está confirmada a 4ª edição do festival em 2015, resta esperar pelas datas oficiais e pelo cartaz que de certo não irá desiludir. E NÓS de certeza que estaremos lá.